quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

LET`S RELAX...

Inevitável, meus caros!
O atraso, a inconveniência, a perda da continuidade... Sísifo, o infeliz cujo castigo nos infernos consistia em rolar uma pedra morro acima, pedra esta que descia sempre morro abaixo quando ele se cansava! O recomeçar eterno, do zero,visto como castigo.
E eu que fiquei alguns dias borrifado em perdigotas de ócios e pequenos afazeres, não me dediquei ao blog, não postei nada depois do carnaval. Sorry...and let‘s relax...
É que eu tenho lá meus motivos. e longe de mim pensar a linda ocasião do recomeço como castigo. Retomar é uma bénção.
E antes de retomar, um convite:
Amanhã (Sexta 15 de fev.) tem show da Banda Carolina Diz, no bar Matriz, no terminal JK. Eles vão mostrar as músicas de seu novo disco, o "Crônicas do amanhecer". É uma banda muito muito muito bacana, músicas muito bonitas, vale a pena comparecer.
E eu vou estar entre os rapazes, fui convidado para atacar os teclados, numa participação especial. Venha sim.
Sacou porque ficamos sem blog esta semana? Ensaios...

Bem, comemorados então os 70 anos de Valadares e seu parentesco com Berlin, relatada a saga de Lucas Gabriel e seu dente, adentremos agora em região de muitas incertezas. O universo dos seres ditos "irracionais". Eis aqui o Conto Canino.
Boa leitura.


CONTO CANINO - Parte I

“(...) a mais tênue forma exterior nos atinge.
O próximo existe. O pássaro existe.”
Drummond (Convívio)


Um cão em minha porta.
O que vem a ser a vida de um cão?
É, serve o mais simples cãozinho que exista, qualquer um.
Como se cumprem os fatos numa existência destas? Quantas vidas tem um cão? Um Boxer, um altivo Pastor Alemão, o implicante Pincher, o companheiro de caçadas Labrador, os úteis farejadores. Mesmo os demais exemplares de modernas raças, de nomes franceses, grã-finos, comuns feqüentadores de salões de beleza. Um cão! A vida num cão: nervosa, animal, jocosa, em instintos e misteriosa inteligência por vezes, cães na TV atuando em filmes de “sessão da tarde”.
Foi num início de tarde, eu chegava do almoço, desabotoava o portão do prédio pra entrar com o automóvel. Aproxima-se um tipo vira-latas, bege-sujo, maltrapilho, ofegante respirador bucal, uma orelhinha parabólica, que parecia sintonizada aos canais mais simples e profundos do Mistério maior, uma outra amassada, inútil assimétrico apêndice, pudesse esconderia talvez... os olhos!
Pensando bem, o poço da memória de um cão pode ser a orelha direita, se esse faz o tipo destro e racional, ou a esquerda, em se tratando de um cão canhoto e mais intuitivo... Mas não, não importa: certo é que todo cão porta, curiosamente, um olhar. E aquele ali, ainda que sujo, ainda que mendigo, me pousou um olhar positivo, crente, em nada me pareceu alienado. E pleno destas alegrias fartas nos cães. Me cativou.
Empurrei meu portão assobiando em sua direção, pra puxar assunto, amenidades. Ele ainda me observou mais um segundo, mas optou por dar de costas e ir-se embora dali, numa marchazinha particular, irregular, repetidamente irregular, canhestra. E eu fui dar início a minha sesta, rejeitado por um cão de rua, aquele imundinho, vira-latas. Sem importância? Então por quê me ficou no pensamento, pela garagem afora, subida de meus dois lances de escada, banheiro, escova de dentes, importante cochilo sestual? Aquele olharzinho por detrás do pelinho encardido pareceu revelar, me pareceu relevante, chegado de dentro duma carcaça plena de avarias, abandonada neste mundo de Deus, nesta capital de homens, naquela avenida de automóveis. Um ser irracional só, mas em persistências, cuidando de seus interesses, com aquela carinha gozada de fiapos e bigodinhos! E tantas marcas: a peladeira que lhe abria descampados rosados de epiderme nua, a mais completa imundície, a magérrima barriguinha de fome, o manto de pele sobre as costelinhas, um rabo quebrado talvez. Aquele átomo de vida me olhou alguns segundos, e o que é que viu?

2 comentários:

Marcelo Cabral disse...

Sabe que uma vez aconteceu isso comigo, eu numa fase non sense cheguei a pensar que o bichano foi embora por não ter visto em mim nada de mais interessante, eu não valeria seus preciosos minutos seria melhor assistir à reprise na padaria dos frangos malabarista e dançarinos ...


cabral

Renato Boechat disse...

Caro e valioso Cabral,
O futuro é matéria instigante, totalmente decidido nos momentos imensos de cada instante.
O futuro dos bons amigos é uma sentença, igualmente boa, postiva, vibrante.
Não sei exatamente onde, mas estaremos juntos. Sempre.