Então meus caros, é inevitável, o carnaval está aí, nos abrindo uma sapucaí de picardias! E se você apareceu por aqui é porque então não saiu por aí...
Já que o ano só começa mesmo depois da quarta de cinzas, optei por deixar aqui, na íntegra, o conto de Lucas Gabriel, um simpático garoto que foi ao dentista.
Não perca, o conto pode ajudar nos recomeços vindouros.
A gente se vê por aqui depois que os tamborins esfriarem.
Bom carnaval!
LUCAS GABRIEL
Ele, proprietário de oito anos de idade e uma cabeça imensa, tinha, logo na comissão de frente, à disposição de seu sorriso fácil, dois dentões igualmente enormes, alvos, punjentes, eloqüentes. De corpinho magro e ágil e grandes orelhas aladas, tinha a seu dispor uma vida toda difícil... O pai fôra preso e depois assassinado. A mãe só era capaz de amá-lo, com ingênuas sabedorias e rompantes de nervosia. Ela tinha lá seus muitos medos. Ele, de um modo qualquer, tinha a si mesmo principalmente, e ia sendo pouco a pouco invadido por esse mundo doido. E numa de suas manobras por aí veio a cair, bateu a boca no pavimento: Um de seus dois dentões se soltara. Chovia uma chuvinha fina e lenta, daquelas de enterro de Mozart, na cinzenta e fria manhã em que ele veio me ver com o sorriso largo e meio vazio, trazendo um dente na mão. Lucas Gabriel é o belo nome de nosso herói.
Só reclamou da picada da agulha, numa anestesia. A lágrima desceu-lhe robusta, e ele me mostrou sua coragem. Eu aprendi a me calar diante do sagrado momento da dor, e confesso que queria ter uma coragem daquelas... O mais rápido que pude voltei com aquilo pro lugar, cumpri os procedimentos. Ele, sábio, não se sentiu torturado, não levou pro pessoal. Pôs o boné na cabeça, surgiu dele um abraço de gratidão, me apertou e se mandou. Me comoveu, me sobreveio uma nuvem de torrentes emoções e confesso que quase chorei ali mesmo, mas não o fiz porque minha secretária estava na sala. Me reconheci naquelas misérias ingênuas. São também as minhas.
Dez dias depois veio me ver de novo. E o dente estava na mão novamente... Levara outro tombo.
Já não sorria mais, e também não chorou. Destarte tinha uns olhos fixos no teto, enquanto eu refazia os passos, com picadas e compressões, ele vagando aéreo, sonso, suportando aquilo em infinitas resignações. Perdera o viço. No fim da consulta, eu olhei pra dentro da profunda cisterna que aqueles olhinhos encerravam e perguntei:
"O que está acontecendo? Você caiu de novo..." Ele, sapientíssimo, não disse nada sobre como aconteceu, só balbuciou aquilo, certeiro: "É que eu quero voltar a jogar futebol, na escolinha".
Foco, meus amigos, seu problema era ausência de foco! Diagnostiquei aquilo como alguém que surpreende uma barata e saca logo do chinelo pra executar o golpe mortal. Sem responder palavra, abri a porta e convidei a mãe que aguardava na saleta anexa de espera. O que vi foi uma pobre mulher escandalosamente envergonhada, pobre mesmo, de chinelos desbastados e lenço nos cabelos. Ela declarou que o Lucas era aluno da escolinha, mas que precisou matriculá-lo num programa de acompanhamento escolar, que a remunerava mensalmente. Só que depois, vendo as inquietações sacudirem seu filho, veio a se arrepender. Procurou então o perdão do professor da escolinha de futebol. Este, um maduro senhor italiano, solteiro, que resolvera dedicar seus conhecimentos a comunidades carentes, em ataques de cólera e sotaques os repeliu duramente, sentenciando que ali não havia lugar para indecisos e arrependidos. O poveretto Lucas Gabriel a partir dali só fez acumular forças e as dissipar em seus tombos. Aqueles tombos eram sinceros e urgentíssimos gritos por liberdade.
Mas eu conhecia o italiano. Aquele Mussolini de meiões e trajes esportivos era também meu paciente, aliás, afetuosíssimo. Lembro o dia em que surgiu em meu consultório porta adentro de lenço colorido cobrindo a calva, portando fartas jovialidades. Ele gostava de cores fortes e desconexas, como pude aferir na ocasião um relógio roxo, os tênis azuis e o conjunto esportivo de calça e blusa em nylon vermelho. Isso fora a inenarrável cor do lenço... Tinha por mim gratidão e estima, pois recuperara-lhe o branco dos dentes. Os italianos costumam ser claros e radicais em seus afetos e desafetos. Deixei minha sala, saí à caça, fui pedir pelo garoto.
Il Duce não se encontrava na escolinha, depois da mesa apenas a secretária, por misteriosa e infinita sorte era também minha paciente. Expus o caso, pedi pelo garoto em tom grave e solene, mostrei olhos que ela não conhecia. A pobre mulher agitou-se, temerosa. Procurou estabanada a ficha do ex-aluno-jogador, mostrou-me a foto do moleque, pediu que confirmasse se era ele mesmo. E vi no 3X4 aquele cabeção com aqueles dentes e orelhas laterais, surpreendido pelo fotógrafo como no momento em que Michelângelo retratou Davi, no justo instante em que decidiu lutar. Lucas sorria matreiro na foto, e era visível que queria lutar. A servil secretária aquiesceu gentil, generosa, materna, dizendo que ficasse eu tranqüilo, ela saberia derrotar Mussolini e derrubar seus exércitos para reacolher Lucas Gabriel. Senti que poderia confiar completamente em seus poderes femininos. O italiano comeria qualquer fruto que aquela Eva oferecesse.
Retomei meu rumo fazendo questão de atravessar com meu sapato e roupas brancas o campo de futebol society, deserto naquele momento. Pensei mais uma vez naquele garoto, naqueles dentes, e em mim tão igual a ele, de algum secreto modo. Ali no campo estavam as traves e suas redes e espalhadas bolas de couro de alta qualidade. Era um belo campo, de extensão mais que razoável, com a eficientíssima cobertura de um teto alto e metálico que proporcionava um clima de aconchego, fresco. Lucas Gabriel agora teria um lugar apropriado de volta, para mirar disparos, calcular ângulos em seus chutes, explodir músculos, perder e vencer, superar seus limites, inventar novos brios. Peguei uma bola, dei alguns chutes ridículos e não mais pude evitar contemplar meus vazios. Fui assaltado por um infame sentimento de solidão, ardiloso e infinito, daqueles que te destempera, te desespera, te faz rezar com as próprias entranhas, sem palavras, sem medidas. É que ajudar me comoveu demais. E sem a secretária pra me empatar, no meio daquele campo, sozinho, me confessei a mim mesmo, entreguei o jogo, soltei as rédeas de um choro absurdo, imenso, ignominioso, abismal, aguardado mas evitado por anos a fio. O que fizera eu do menino meu, do menino eu? Que espécie de homem me tornara? Onde poderia eu mirar meus chutes, viver sadias ilusões e escapar da loucura iminente que se erguia sobre minha cabeça como uma gigantesca onda havaiana? Qual a razão de tanto trabalho, de minhas encrencas interiores, o fundamento de meus valores? O que fazer de minha vida que aguardava minhas decisões de homem? Eu que contemplava a pobreza e tenho tanto, mas que sou incapaz de me dar por satisfeito um instante sequer? Despautérios do estar só. E aquele choro descia selvagem. Acho que eu desejava ardentemente alguma espécie de lugar, como aquele que ajudei o menino a recuperar, um foco, nem sei, capaz de me salvar das disperções que me contundiam os dentes do caráter, da alma. Mas que lugar haveria para mim, um homem adulto incapaz de se animar com tais artes? Nem era este o problema...Que lugar seria adequado a mim? Ninguém jamais poderia me dizer ao certo. Eu tinha era que me dar comigo.
Mas todo pranto é finito, e quando finda traz consigo o remanso da esperança. O rebentar de minhas comportas fez descer seiva em meus desertos. Enxuguei lágrimas na alva manga de minha camisa de doutor. Me sobrevieram coragens e recomeços. A vida vale a pena, sentiu meu peito. Entrevi retomadas. Uma balança de difíceis decisões quedou finalmente ao justo lado, aliviou-me. Me lembro agora: foi ali que destravei sentindo minhas esperanças voltarem à baila.
Duas semanas mais trouxeram Lucas Gabriel a uma consulta de retorno, agora com os dois dentes na boca (também os demais), uniforme de escolinha de futebol e chuteiras, viços recompostos, cabelinho molhado. Desta vez quem o trouxe foi o novo marido de sua mãe, seu novo pai, também meu paciente. Lucas me anunciou logo que completara nove anos, e foi capaz de me agradecer com suas próprias palavras, meio sem jeito, é verdade, mas me olhando com aqueles olhos, me refletindo com toda fidelidade nas minhas mais autênticas origens. E eu, hipnotizado por aquele menino, naquele átimo de tempo todo ele carregado de verdades e belezas e justiças, e que escorria ligeiro como uma lebre, perdi meus compassos internos. E tão agradecido quanto ele, agachei-me diante de sua presença, para mirá-lo na mesma altura. Segurei em seus ombros, entrevi a imensa estrada de seu futuro todo ali presente na minha frente, entre minhas mãos. Só fui capaz de dizer:
"De nada, Lucas, de nada".
E ele se foi, assim ele seguiu, tamborilando as chuteiras no chão de ardósias, rumo a escolinha do italiano. Eu já era outro. Olhando pra mim e pra ele pude entender: O homem sempre vai ser um menino, e o menino já é um homem. Assim deve ser. Pavimentemos os caminhos dos meninos, retomemos os nossos caminhos. E tomara que aquele bendito dente permaneça ali com ele, compondo seus belos sorrisos.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
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6 comentários:
Êta mundão de Deus!!!
beijos
Marcela
Mundão velho, sem porteiras...
Muito Bonito...
Oi...
Estou curiosa pelo restante do conto.
Continue, não pare..
Bjs
Não... não posso, não consigo! Estou aqui de olhos úmidos, envergonhado, exercitando uma sensibilidade que nem sabia que existia. Cara, isso é lindo! Fiquei curioso, quero saber desta mãe... deste pai, tanto do mártir quanto do herói. Quero saber do Lucas, dos seus dentes.
Mais que isso, quero saber de você. Das suas histórias...do nosso futuro.
Um fraternal abraço
cabral
Oi Renato,
O relato que voce faz desse menino tocou meu coração e lendo me senti como personagem desse conto...
Parabéns pelo blog,parabéns pela sensibilidade e por olhar as pessoas inteiramente absorvendo-lhes as sensações e a alma!E melhor ainda ajudando-as!
Continuarei lendo seus escritos pois muito me agradam.
Feliz futuro literário!Continue nos brindando com seus escritos pois dentro dessa leitura aprendemos com seus conhecimentos e sabedoria!
Espero em breve ler um livro de sua
autoria!
Beijos. Tia Nô. (Tia do Lelo e agora de voces)
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