terça-feira, 16 de setembro de 2008

Vera XXII

Vera XXII

Eu brincava sentado no chão, no quarto de minha mãe, ao lado de sua cama de casal. Sempre um barulho de máquina de costura, ela trabalhava sem parar. Por ser constante o som que se ouvia, era como se nem estivesse mais ali. Tudo o que é constante a certo ponto deixa de fazer-se notar. Só quando de sua interrupção é que percebemos que esteve ali por todo o tempo vivido, compondo a multifacetada e infinita realidade. Naquilo, entre retalhos de pano e pedaços de linha chão afora, uma borboleta de intenso escuro azul, como que nascida de meu nariz, batia suave as asas, mas não voava pois seus pés tinham raízes na pele de meu rosto, atando-a a mim. Seu bater de asas me atrapalhava um pouco a visão. Eu manejava um pequeno canivete, aposentado de usos por meu pai, entalhando boizinhos em sabugos de milho ressecados. E à medida em que ficavam prontos, punham-se a pastar em minha fazenda, mugindo longas esclamações, meios murmúrios, doloridos lamentos. Aqueles meus boizinhos se moviam lentos e em círculos. Por ignorarem a força colossal que tinham, eram boizinhos mansos, covardes, que só faziam reclamar de alguma sentida opressão. Aquelas às quais o animal de criação tem que se submeter, e por este mesmo motivo, abrir mão de sua natureza selvagem. Perde-a simplesmente, não se sente mais capaz de exercer as intempestivas instintivas explosões. Minha mãe pedalava sua máquina, aquele moinho de juntar tecidos, quando de repente estacou, me fazendo sair de meu brinquedo. Sentindo falta do barulho que nos embalava, olhei em sua direção, mas ela, de olhos fixos em seus panos, não me olhou. Então ouvi o motivo que a fez parar: O duro estalar das botinas de meu pai sobre as madeiras do chão da cozinha anunciavam sua assoberbada presença: Ele chegava. Meus boizinhos mugiam agora em crescente agonia, e me ergui do chão puxando uma peça de roupa que pendia da máquina em que minha mãe costurava. A peça veio parar em minhas mãos, ainda atada à máquina por um fio dourado. Era uma calça que vestiria quatro pernas, e era para mim e para meu pai, para vestirmos juntos, como siameses. Eu não queria, eu não ia vestir aquilo, e passei a chorar, a implorar a minha mãe que não fizesse aquilo comigo, para cortar a calça ao meio, separar as pernas, antes de meu pai entrar no quarto. E os boizinhos mugiam e mugiam, tão alto que meu pai perguntou de lá, impaciente, que barulho era aquele dentro de casa, o que estava acontecendo. Algo que nem vi atingiu a borboleta do meu nariz, espalhando um pó azul no meus olhos, e ela restou ali no meu rosto golpeada, amassada, parou de bater suas asinhas, não sei se ia sobreviver. Minha mãe, para encobrir o berro dos boizinhos, tomou a calça de minha mão e passou a fazer mais barulho, se pondo a pedalar e pedalar a máquina, e a costurar e costurar mais e mais a calça bizarra. Mas meu pai acabou entrando dentro do quarto, e começou a tirar a roupa, para colocarmos a calça que estava ficando pronta. Eu não queria, ele me mandava engolir o choro, mas os boizinhos mugiam e cresciam. Enquanto mãe costurava, fazia barulho falando comigo para vestir a calça, mas não me olhava, tinha os olhos fixos na costura, também temendo meu pai. E meu choro foi se tornando grito, e quanto mais gritava, mais meus boizinhos cresciam, como que inflados pelo ar de meus berros, a ponto de não caberem mais no quarto, e jogarem abaixo a parede que dava para os fundos. Eu gritava e gritava e fugi dali como estava, descalço, sem camisa. Meus gritos foram se tornando aboios e meus bois vieram atrás de mim, e eu corria, corria para dentro do mato. A borboleta parecia morta quando a arranquei de meu rosto, que saiu trazendo junto pedaços de minha carne e sangue abundante, como de verrugas.
Acordei com vigorosas batidas em minha porta, suando bicas. Me levantei e abri uma fresta por onde pus a cabeça. No corredor, junto com a moça recepcionista, estava um homem corpulento, que me afastou junto com a porta com um golpe seco de braço, e entrou quarto adentro para ver o que se passava. A moça estava apavorada, e os demais vizinhos de quarto, descompostos, aos pijamas, se dispunham ali também curiosos, para investigar o que se sucedia. Pelo visto, eu gritava a plenos pulmões enquanto sonhava, e eles pensaram que havia no quarto mais alguém, por certo compondo uma cena de violência. Na selvageria de meus gritos, compreendi: Portamos um outro em nós, um estranho, um desconhecido. O insondável e misterioso inconsciente. Tudo é mistério. Quem se sabe?
Envergonhado e absolvido pela cumplicidade de todos (quem nunca teve um pesadelo?), recolhi-me, mas já não pude dormir, tantas as palpitações. Recorri à televisão, baixando bem o volume. Não queria incomodar mais a ninguém e, ademais, para que ouvir os incompreensíveis vocábulos tchecos? Perambulei horas por aqueles canais, e uma cena em especial me chamou a atenção: Um desenho esquemático do sistema solar, em que o planeta Terra movia-se ao redor do Sol. O esquema mostrava a inclinação da Terra em seu movimento de rotação, realizando um movimento de translação ao redor do Sol. Esta inclinação gerava as diferentes estações do ano, pois em determinada época os raios solares incidem mais próximos do hemisfério norte, compondo o verão, e noutra fará o mesmo no hemisfério sul. É isto que gera as diferentes estações do ano. Ao lado do esquema, na TV, a espressão "ZIMNí SLUNOVRAT". Letra a letra, anotei. Pelo que pude entender, era uma explicação do solstício de inverno, instante astronômico em que a inclinação do planeta gera a maior noite do ano no hemisfério norte, e o maior dia no hemisfério sul. O solstício de inverno se aproximava em Praga.
Entreguei o papel ao taxista, que repetiu a palavra em compulsões. Aos desenhos, tentei explicar a ele o que entendi, e ele confirmou minha idéia do solstício, tirando do bolso o cartaz que chamou tanto sua atenção no dia anterior. Fazia um frio incrível quando entramos no taxi para recomeçar as buscas.
Numa de suas cartas, Vera me afirmava algum grande poder envolvido no solstício de inverno. Sendo este o momento de mais longa noite, ilustra em várias ancestrais culturas uma total imersão nas trevas. É a noite, a escuridão maior a que somos submetidos, nas recorrências anuais. Só daí poderia emergir o homem novo, forte e cônscio, farto de crescidas coragens, apto ao pleno abraçar de destinos e contemplar de realidades completas. Algo ligado a um tal "Salto Quântico", objetivo a que Vera se dedicava desde então ali, e que a levara a ingressar na tal ordem sediada em Praga. Os períodos que sucederiam ao solstício de inverno marcariam a vitória da luz sobre as trevas, pois a partir daí, começa a caminhada astronômica contrária, com crescentes horas de luz dia a dia, rumo ao solstíco de verão, em que se tem o maior dia do ano, a maior luz.
O taxista retomou a estrada, rumando ao mesmo local ermo em que estivemos quando de minha chegada. Era aquele o endereço que constava no cartaz. Ele acelerava resoluto, seguro, flecha que se sabe a caminho de alvo. Passando sobre o rio, virei em sua direção e disse: "Vlatava!". Ele sacudiu a cabeça, repetiu comigo nossa única comum palavra, reafirmando nossa mútua simpatia. Desatei-me de meus pertences, joguei minha bolsa no banco de trás, e num instante paradoxal relaxei meu corpo que gelava. Sentia-me conduzido pela palma da mão do destino, num misto intenso de expectativa e entrega. Veria Vera em instantes, sentia-o, mas como seria? Meus temores me mostravam seus dentes, mas não mais me desconcertavam. Naquele relaxar, num fletir sobre si mesmo novamente, pude me perceber nitidamente mais inteiro, senhor de mim como nunca. Vera não me era mais uma espécie de febre. Tratava-se de uma possibilidade. Muito agradável e fascinante, porém uma possibilidade de destino, e como tal, assentava-se em sua justa dimensão. Eu já era alguém em mim, sobre os próprios cascos. Respirava meus ares.
Quando chegamos, desci do carro num salto, e fui na direção do alto muro, mas desta feita para rodear pelo lado contrário a construção, pela esquerda. Era dia, fazia alguma nublada luz, e eu tentava margear o muro rumo aos fundos do lugar. Foi quando ouvi o som do grande portão da fachada anterior se abrir, e alguém sair lá de dentro dizendo algo. Então me escondi, pois já tinha desistido de pedir informações àquelas estranhas pessoas, decidi investigar ocultamente. Deixei que o taxista o fizesse, o que de fato pude ouvir que fazia, trocando palavras com o alguém que surgira. Mas este alguém parecia repelir duramente o taxista, que insistia firme, talvez para que eu ganhasse algum tempo para espiar. Continuei minha caminhada pela extensão lateral do muro, e percebi que se tratava de um terreno enorme, bem maior que um campo de futebol. Ao redor do muro uma vegetação fechada e densa complicava minha vida, com espinhos por toda a parte e uma umidade incômoda, um lodo, uma nódoa. Pássaros que pareciam anus pretos se assustavam com minha presença, levantando vôo aos berros. Mas não, não eram anus, pelo tipo de bico potente e porte robusto pude perceber: Eram corvos. Imagina, o anu preto, tão mansinho, é um pássaro magro e dócil de minha terra interiorana. Mas a realidade é que eu me encontrava num brejo tcheco, rodeado de corvos corpulentos histéricos e perigosos.
Subi numa árvore, sei subir em árvores como ninguém. Seu galho me entregou à borda do alto muro. Em meio à vegetação, camuflado, como um voyeur, ergui a cabeça sutilmente. E o que vi? O impressionante.
Separados por um simples muro, estavam ali, a poucos metros de mim, sentadas e em absoluto silêncio, centenas ou mesmo milhares de pessoas, homens e mulheres em trajes claros, alvos, como que batas, aos panos, enrolados. A visão era arrebatadora, assustadora, desconcertante. Eu esperava enxergar algo a qualquer certa maior distância, mas não: Eles estavam ali, quietos, bem abaixo de mim, a poucos metros, e se estendiam até o outro lado, de tantos que eram, muitos e emparelhados. Como conseguiam, com todo aquele frio que fazia? E agora, como encontrá-la? Mas juro, que em meio a tantas pessoas nos mesmos trajes, não foi difícil localizá-la. O coração sabe seus sinceros rumos, nas adivinhações. Na direção do centro do grande campo, um pouquinho à minha esquerda, meus olhos certeiros alvejaram o perfil direito de sua cabeça semi inclinada, de olhos fechados, pele clara e macia. Vi sua bochecha escavada por uma cicatriz, que desde sempre esteve ali, ao lado de sua boca. Sentada e de pernas cruzadas, tinha as mãos dispostas sobre os joelhos, imóvel em profundas meditações. De cabeça coberta, parecia uma Pietá de Michelângelo, mas que contemplava não a dor, mas uma paz profunda. De todas aquelas pessoas que ali estavam, de olhos fechados e profundamente ensimesmadas, em particulares prospecções, parecia exalar uma serenidade e uma paz impressionantes, nas meditações. Mas a beleza maior, naquele instante, certo estou, quem teve a graça de contemplar, de olhos arregalados, fui eu: Como se nem corpo tivesse, como se pairasse extracorpóreo, no alto daquela årvore escorregadia e cercado de corvos e perigos, eu recebia o pagamento abundante de minhas penas e sacrifícios. Eu contemplava Vera, a face do amor, que de mim se distanciara.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Vera XXI

Vera XXI

Marquei outro encontro com o taxista, para o dia seguinte, em meio aos lentos goles que fui capaz de sorver, daquela cerveja polpuda. Tomar aquilo junto nos fazia mais amigos, estranhamente cúmplices. Ele não aceitou que pagasse nem a rodada de automóvel, nem a rodada de cervejas. Se mandou, falando sei lá o quê, e sorrindo. Me ergui, assumindo automático a direção do hotel, na outra margem da calçada. Num repente, estalou-me: Voltar ao hotel? Para quê?
Olhei em volta e me apontei em qualquer direção, com as mãos guardadas nos bolsos. Pus-me a vagar por aquelas ruas misteriosas, para mim completamente desconhecidas. Anônimo, e em absurda solidão, me sentia estranhamente bem, numa curiosidade quase científica com o lugar. Não que me esquecera de Vera, mas dava-me um tempo daquelas buscas, dava-me um ar. E não seria este, sempre, nosso sutil e sagrado mister? A pois, as tribulações da vida são o constante chacoalhar de nossas marés. Faz-se sábio dever o ato de, vez por outra, a tudo abandonar, por necessário instante, para um oportuno reconciliar-se. Dar-se um tempo, deixar-se livre, permitir-se. Somos um algo além do ser que deseja e se compromete, que espera e deve. Somos livres, lá, na medula. Talvez te decepcione em alguma sua expectativa, caro acompanhante leitor, mas naquelas frações não pensei em Vera nem em mim, nem em coisa ou ninguém: eu escorria por aquelas ruas nas metronômicas passadas do tempo, sem reminiscências nem expectativas. Os ritmos do mistério que pulsam em nós mesmos. Tanto foi assim, estive tanto naquele presente transbordante, que tenho nítidas e precisas memórias daquela ocasião. A realidade é linda. Conto.
Finalmente, meu espírito deu-se conta de estar num lugar novo, belo, merecedor de minhas melhores atenções. Seria injusto e até imoral não me propor um passeio. Apliquei-me åquelas especulações. E tudo magnetizava meus olhos, tudo convidava-me a um demoramento. Fazia um dia escurecido, nas mesmas neblinas, e aquela luz combatida compunha com as construções um cenário tão surpreendente, que nem parecia ser a velha conhecida realidade. Aquele lugar parecia se estender por seculares avenidas de silêncio. Quase se podia ouvir os passos de perdidos espectros por aquelas calçadas. E quanto menos centrais as vielas, quanto mais ermas, mais me eram atraentes. Sem me dar conta de guardar qualquer caminho de volta, confiando no mapa em meu bolso, me deixei levar tal qual uma sementinha de penugens, daquelas que não raro vemos o vento levar por aí, a esmo, nas engenhosidades da natureza que deseja engendrar vida nova à distância da árvore mãe. Flanava por Praga, à tôa, simplesmente. Dáva-me vida, para além de minhas preocupações. Sem um plano ou expectativa, a pureza de meus horizontes recebia justa a generosa visão que se me oferecia. Cenários de importantes histórias a mim desconhecidas, monumentos com inscrições impossíveis, fachadas trabalhadíssimas, nos detalhes engendrados por pessoas que pareciam não se importar com prazos, com o tempo. Em tudo, um fiel sentimento de equilíbrio. O nada que me perdoe, mas algo somos. Do bairro onde estava partia uma longa avenida, no eixo da qual cravava-se uma linha de bonde. Carros muito modernos mesclavam-se a carros muito antigos, verdadeiras muquiças que se acotovelavam com os bondes. Me pus a caminhar na direção de maior movimento, seguindo fluxos, o centro da cidade talvez. Apesar do frio, havia gente nas ruas. E era gente bem disposta, enérgica, de outro aspecto. Seus corpos pareciam ter posturas mais bem explicadas e nítidas. Como, por exemplo, se o indivíduo tem um grande nariz, este é imensamente grande. Se são longas pernas, estas são verdadeiramente longas. Se alguém é baixo, é estremamente baixo. Padrões claros e radicais, algo parecido com um reflexo de pureza, coisa de povo antigo e não misturado.
As mulheres eram extremamente belas, mas muito semelhantes entre si, claras, de firmes peles, e douradas feições. Aquele escorrer macio dos cabelos me revelava uma espécie de ternura dolorida, me segredando uma saudade muda, me abrindo ausências, as não plenitudes que se fazem sentir diante daquilo que atrae, encanta e confunde. E se vestiam estranhas, simples e em ultrapassadas modas. Mal dizendo: se vestiam mal. Os homens quase sempre fortes, nas feições do rosto exibiam traços pontiagudos, ossudos, igualmente amarelos de dourados reflexos, e espadaúdos, largos, altos, magros. Depois de tanto caminhar, parei para esperar um bonde, qualquer: A rua se dilatava, o centro não chegava.
Sentei-me pra esperar ao lado de um homem. No rosto riscado de rugas, o tempo. Ao lado, ele segurava uma pequena corrente, que o ligava a um cão. E como um voyeur, afundei meus olhos naquela pobre pessoa. Comoveu-me seus sapatos, desbastados mas limpos e bem amarrados. Contavam-me de seus sacrifícios e zelos. Suas dignidades se exalavam, não sei bem de onde, talvez do cinturão de onde pendia segura no além umbigo a calça de veludos puídos. E uma bruta solidão, no olhar manso e meio parado, de olhos pequenininhos. Meio que desistira de fiscalizar a passagem dos bondes, olhando um nada diante de si. Ele se deixava ficar, e o cão, igualmente pobre, a nada relutava, a tudo consentia. Qual um cego, que extrae da audição o máximo possível para compensar a ausência da visão, o mesmo se produzia em mim, porém lendo as linhas do real com olhos mais profundos, uma vez que de nada mais me serviam as palavras, nem as ditas nem as ouvidas.
De dentro de um sobretudo que cheirava a guardado, sem cerimônia ele retirou um papel dobrado e o estendeu a mim, virando-se. A mão era dura, calosa, parecida com a de meu pai. O papel era de um aspecto de há muito guardado. Peguei, sem relutar, natural. Era um retrato de jovem que sorria, na frente. Ao desdobrar, pelos números e símbolos deduzi que era um volante daqueles que se distribue em ocasiões de falecimento. Ele falava coisas batendo uma mão na outra, encenando um choque. E a certa altura percebeu que eu não entendia suas palavras. Mas o incrível senhor, ao perceber meu interesse, não desistiu de se comunicar! Esculpindo imagens no ar, pude entender em seu gestual que aquela era a imagem de seu filho muito querido, morto num acidente de carro, a quinze anos atrás. Ele parecia explicar que o filho era médico, quando um bonde se aproximou. O cão se levantou e tracionou a corrente. Aí sim, o homem se virou e viu o bonde. Me convidou a acompanhá-lo. Fui.
O destino era um cemitério, com insígnias judaicas em seus negros portões metálicos. Acho que eu deveria ter pago algum valor como ingresso, mas por estar com ele, fui poupado. No lugar, milhares de lápides dispostas confusamente, como que querendo ocupar o mesmo lugar no espaço. Era impressionantemente caótico, pareciam que eram uns enterrados sobre os outros. Paramos diante de uma lápide que ele segurou, e ali começou a proferir baixos sons rapidíssimos, numa espécie de oração ritual, ao que respeitei, estranhando e me recolhendo. Aquele parecia ser um pai saudoso, que visitava o túmulo de seu filho constantemente. Então aproveitei para olhar ao redor, e me deparei com um ambiente totalmente bizarro para os meus olhos e experiências.
Num anexo, uma sala deserta e vazia rememorava as milhares de vidas judias consumidas pelo holocausto, com as paredes todas cobertas por incontáveis milhares de nomes escritos em pequenas letras. Era a dor de um povo inteiro ali, estampada, numa ferida escancarada e silenciosa. A pior característica dos capítulos mais severos da história é que eles de fato aconteceram. Era impossível não tocar a áspera carne daqueles acontecimentos. Eu, que a tudo aquilo estudara de forma tão alienada para o vestibular, o assassínio de milhões de judeus, entendia tudo aquilo agora nas profundidades, as ricas. Retornei besta ao homem, que me aguardava paciente em seu ritual de ligeiras palavras, mas agora me olhando de diversa maneira, meio que surpreendendo em mim o pulsar de um comum coração, universal, tão novo para mim.
Ao que, instantes depois, veio o inesperado percutir sutilmente em nossas portas. O tempo forçosamente fechado por aquele dia nos reservava uma surpresa: Começou a cair neve! Ele interrompeu sua estranha jaculatória, seus olhinhos cambiaram num brilho autêntico de felicidade infantil. Ele me bateu no ombro, com uma alegria sincera e leve. Nevava! Nos retiramos dali, em passos rápidos e alegres. Eu caminhava aparando flocos de neve nas mãos juntas em concha, e levando à boca, quase que em fase oral, para o completo experimentar. Abrigados num café, contemplamos tudo lá de dentro. Um simpático garçom nos instalou em dois confortáveis assentos diante da janela, e nos proporcionou dois tragos de um conhaque que fez muito sentido naquela ocasião. A neve parecia serenar tudo, levar tudo a uma dimensão de contemplação positiva, de calma. A neve cai devagar. Mesmo as pessoas pareciam se alegrar internamente com aquilo que, mesmo para eles, era sem dúvida um espetáculo. Ao que me entendi com aquele velho homem sentado a meu diante: nossas solidões se acompanhavam mutuamente.
A certa altura, sem dizer palavra, ele se levantou, puxando seu cão. Fiz que iria me levantar também, mas fui contido por um gesto seu. Pensei que iria ao banheiro. Engano meu. Minutos depois ele bateu na janela e me acenou, já do lado de fora da vidraça, numa amistosa despedida. Me ergui enérgico da cadeira, mas ele se virou e se foi. E pela longa e escura avenida já repleta de alva neve vi aquele ser humano arrastar, digno e exato, o peso de seus anos e dores, além de seu cão. O garçom veio de lá, com mais uma dose sobre a bandeja e serviu-me. Eu ainda estava de pé por refazer-me, quando junto com a dose de conhaque, ele pôs sobre a mesa um pequeno volume, mal embrulhado num papel presente.
Tudo já estava pago, e o desembrulhar revelou-me uma delicada surpresa: Tratava-se do livro "Cartas a un joven poeta", de Rainier Maria Rilke, numa bela edição em Espanhol, com notas biográficas do autor até então desconhecido para mim. Naquele café, pude então reparar, funcionava uma simpática livraria. Provava-me o velho homem que também percebera-me, no exato, acertando o acessível idioma a meus olhos. Além do quê, o presente deixava claro que queria me comunicar algo em especial.
Ainda nevava quando decidi deixar o café. Recuperei o local do bonde, refiz caminhos num voltar sem mapa. Alguma espécie de voz se desdobrava de meus inconscientes. Dos profundos me emergiam escaramuças, como bruscos golpes de rédeas, a me desviar os animalescos cavalos da alma por inesperadas direções num pensar nada errante, nada improvisado, mas que se doava no correr dos momentos. Uma espécie de certeza não planejada, não explicada e nem argumentável. O instante existe, e nele está tudo, sempre. Não precisamos estratégias, adoecemos em errôneas ambições. Escoava destino afora, humano adentro, quase irresponsável. Mas não: Palmilhava sonhos extraordinários, as alavancas apoiadas nas dimensões invisíveis, mas perfeitamente viáveis. Algo se pegou ali nos meus olhos, tão mais exigentes, microscópicos, inteligentes, de águias. Como que feito de poesias, algo de sutil e impressionante beleza parecia embalar e dar sentido a todas as coisas.
"Quem é Este,
por detrás da realidade,
como um manejador de títeres,
a me cotucar singelezas?"

Reverberava-me.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

E na cidade de Shakespeare...(Stratford-Upon-Avon)




"O tolo não pensa de si que é sábio. Mas o homem sábio conhece a si mesmo como sendo um tolo."
(Como queira)

Vera XX

Vera XX

O hotel, apesar de simples, era de uma simpatia só. Uma bela moça recepcionista tentou se comunicar comigo de toda imaginável maneira, mas como não falava o idioma Espanhol (Português, então, nem em delírio), recolheu-se em seu assento, oferecendo-me a chave do quarto e um olhar de boas vindas, colhendo-me a assinatura com modos muito agradáveis. Enquanto subia as escadas cobertas de rubros carpetes, conjecturava, no pensar: Será que toda comunicação, mesmo as que consideramos bem sucedidas, não resulta, sempre, em mal-entendidos mais ou menos felizes? Confia-me tua mão, leitor, quero levar-te a contemplar uma idéia.
Ainda que me peças um singelo copo d'água, em alto e bom Português, posso decepcionar-te, trazendo-te uma água gelada demais, além de suas expectativas. Como se não o entendesse. Ou em grande quantidade, ou o contrário. Ou gasosa, que por infeliz acaso, não te agrada. Ou quente e do filtro, ou mesmo provinda daqueles aparelhos que já fizeram moda, ozonizada. Em algum aspecto, parecerá mesmo que não te entendi. Podes retrucar-me, dizendo que bastaria explicitar aos detalhes a água por ti desejada, para que eu, com a melhor de minhas vontades, seja capaz de acertar-lhe na mosca o desejo. Mas é exatamente aí que se encontra o problema: na bendita e obscura palavra "desejo". Como entender e expressar o que se deseja? Como receber e entender a informação comunicada, no exato?
Conhecemos o real objeto de nossos desejos, no detalhe, na arisca mosca? Asseguro-te que, explicitados dentro do possível, às filigranas, todos os detalhes de seu desejado copo d'água, o máximo que eu ou qualquer ser humano especializado em servir copos d'água perfeitos seria capaz de proporcioná-lo seria algo a que seu desejo pudesse ser mais ou menos correspondido, sempre num parcialmente. De resto, recebemos o copo d'água mais ou menos desejado e nos adaptamos ao que não correspondeu, resignados. Imaginando mais um passo nesta estranha teoria, sugiro um último experimento: Servir-te-ei sucessivos copos d'água, e a cada um deles tu, receptor, irá compará-lo com seu desejo e criticá-lo naquilo de não correspondente, até que o acerto aconteça. Mas sabe o que acontecerá lá pelo segundo ou terceiro copo? Não desejarás mais um copo d'água como no início, de nenhum tipo. Não terás mais sede. O esperto objeto do desejo migra, camaleônico, nos diferentes instantes. Saiba, caro, que por isso mesmo o instante do desejo é extremamente precioso, e mais agudamente valioso é quando, por bénção do destino, no extenso e disputado tabuleiro da vida, algo lhe corresponde o pendor do desejo, nos internos, na coincidente perfeição. Quando algo lhe cai, como que luvas. A coisa certa, no momento certo, como astros celestes em perfeito alinhamento. Já experimentaste vestir um terno cortado por um competente alfaiate? A coisa parece susurrar-te um carinho, nos perfeitos caimentos. Os gestos daquele escultor de roupas engendram algo que te corresponde, não só o corpo, mas que eriça-te os pelos da alma. No assim ser, digo que um desejo plenamente satisfeito mais se assemelha com um acidente, por ser raro, e parece revelar-te um algo de verdadeiro acerca de você mesmo, nos mistérios insondáveis que somos. Gera alívios, folgas, repousos. Além da liberdade que sentes neste iluminado momento, claro. Contempla com toda atenção, amigo leitor, o momento em que o desejo mostrar-te os olhos. E deleite-o, com sapiência.
Em suma, comunicar-se esbarra sempre em algo de desejo, a mais misteriosa matéria que há. Se um indivíduo fosse capaz de não apresentar carências, este sim seria capaz de não dar um pio.
Porém, ponha-te agora no assento daquele que recebe a comunicação. Cada qual possui seus códigos internos, sabemos, seu inventário de sentidos e valores, seus acordos. Uma palavra emitida com alguma certa intenção pode acabar gerando sentidos outros, dentro daquele que a recebe, numa infeliz comunicação. Para a cor branca, num exacerbado exemplo, os indivíduos da Islândia possuem várias gradações. Sempre envoltos por cenários repletos de neve, este povo precisou desenvolver novas palavras para as diferentes sutilezas presentes nos diferentes tipos de branco. Seguramente o que denominas "branco" não será bem compreendido por eles...
Certo e importante é que, determinadas relações pessoais, as afetivas mais valiosas e frequentadas, muitas vezes perdem a força, o valor, a beleza, deixam de se desenvolver e frutificar, pelos esbarros da comunicação, ainda que em mesma língua. Quanto mais sutil o sentimento e o desejo a se expressar, mais difíceis de comunicar se tornam, complicado se fazer entender. Daí, ressentimentos, mal-entendimentos, travamentos, mágoas. É muito comum vermos pais e filhos que simplesmente chegam ao ponto de "não falar a mesma língua".
Sem contar os entraves de comunicação do indivíduo consigo mesmo, no não saber-se, no ignorar-se.
Não pude saber nem em sonho o que aquela recepcionista quis me comunicar. Nem ela soube muito de mim. Mas envolto também eu numa necessidade geral, sabidamente turista, recebi dela um pacote de objetos, coisas de utilidade para estrangeiros, como um útil mapa da cidade, horários de bondes e ônibus, as estações de metrô, passeios turísticos, concertos de música clássica, casas de show, e etc. Sobre a pequena cama, espalhei também as cartas de Vera, e acabei lendo-as uma a uma, num misto de investigação e saudade. A propósito, que palavra de mistérios paradoxais é esta, presente apenas em nossa Portuguesa língua: saudade. Deixemo-nos ficar um instante em sua estação.
Aquilo era um sentir falta, porém amadurecido, denso, físico. Na saudade, somos capazes de sentir a presença do bem, intensa, interiorada: a memória vibra, e as consequências disso se desdobram, tornando-te feliz no ir daquele contemplar, nas memórias que revivem. Muito ocorre de se ser mais feliz assim, no recordar, até mais que na própria hora em que se viveu o estar junto: por melhor compreender os motivos e nuances, por sermos capazes de parar o ir do filme no ato de lembrar e refletir, e abarcarmos as sensações nos finais vereditos, estabelecendo para nós mesmos que aquilo foi mesmo verdadeiramente especial. Porém, a dor que se desprende da saudade está no próximo instante, no contemplar radical da absurda ausência do bem amado. Então, na saudade, sentimos a presença aguda, incorporada e rememorada do bem, mas também e no simultâneo, a sua ausência resoluta, imposta, intransigente. E o que é confuso acaba por doer mais, por ofender o coração e também a razão. A saudade é prazer e dor, como álcool e água, na íntima mistura. Eu sofria aquilo, mas no me resistir sóbrio, percebia que assim todo o sentir se vertia em sofrimento diverso. Aquilo era um sofrer que me amolava as facas, me enchia as taças, me soprava as brasas me arrancando fogo. E me sabia: melhor é não se esconder da dor, urdindo desesperos, jamais. A dor bem vivida, em silente solidão e paciência, justa, é capaz de te alimentar, te encorajar, te preparar.
Passado o torpor da aguda dor, retomando razões nas práticas investigações, pude aferir que Vera escrevia de diversos endereços aqueles diversos envelopes, como que cambiando residências. Encontrei alguns deles no índice do mapa. Exausto, porém, dormi várias horas concentradas num tempo que me pareceu de poucos minutos, em meio a todos aqueles papéis. Fazia meio escuro, em lusco-fusco, quando me chamou a campainha: era o taxista, por quem vi que já passara das nove da manhã. O amanhecer era muito tardio, e eu ali perdido entre as muitas novas diversas coisas, inclusive as naturais.
Apertou-me a mão num demoramento a mais. Não haviam palavras, apenas balbucios, olhares, gestos. Migramos pelos diversos endereços sem encontrar ninguém, e no último deles conseguimos surpreender um alto senhor, que fechava a porta externa. Tentei conter o homem, que se esquivou em enérgico movimento, quase que tapando os olhos. Sacodi o envelope diante dele, assustado, dizendo "Vera, Vera!", compulsivamente. Ele entrou, atabalhoado, num carro pequenininho, que eu nunca havia visto um igual. Incrível um homem daquele tamanho caber ali dentro. E se mandou a pouca velocidade, o carrinho explodia óleos no motor que fumava. O taxista veio pra fora, passou por mim, e foi olhar a fachada do antigo histórico edifício, onde haviam pequenos cartazes afixados. Ao que voltou, me puxando pelo casaco, me apontando um cartaz daqueles, em especial. E me perguntava coisas, ávido, batendo o indicador naquilo com força, como que querendo me arrancar algum sentido, mas com palavras que eu, pobre, não entendia. Me apontava no cartaz um sistema solar desenhado, com uma rota pontilhada e um planeta Terra bem distante do sol. Ele pareceu entender tudo, por aquelas alturas.
Depois dali, me levou de volta. Mas antes, do lado do hotel, parou o carro e me ofereceu um cerveja, aos gestos de mão. Havia uma fábrica bem ali do lado de minha transitória residência, e aquilo emprestava ao ar um intenso aroma de ração de cachorros. Sentados na mesa, diante de copos gigantescos, ele me fez vários desenhos. Não entendi nadinha. Mas sua simpatia e dedicação me enchiam os olhos. Aquele homem dos longínquos impossíveis se interessara por mim e por minha causa. Mas como?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vera XIX

Vera XIX

Existi naquela noite, de alguma forma, com dois pés no chão, e por isso, no oblíquo e no sublime, a pois: estar no real completamente é o que pode haver de mais mágico e graticante. A ponto de toda a ração de vinhos e uísque sorvida em exageros naquele banquete espanhol não me contragolpear em ressacas, na manhã do próximo dia. Que nada, a coragem que de mim eclodiu naqueles instantes diante da belíssima artista espanhola, foi capaz de purificar-me o corpo, despertar-me a mente, elevar-me a alma. A coragem despeja secretos e vitalizantes humores, abençoados hormônios, secretas as endorfinas, no dentro. Repousei poucas curtas horas, e pude me ver, naquela fria manhã, o todo potente, detentor de minhas plenas faculdades.
Mas meu amigo chefe, com seu fraco por bebidas, não experimentava o mesmo... Naquela manhã, a manhã de meu embarque para Praga, o meu dia "D", ele permaneceu no hotel desacordado, sem atender a meus brados e sacudidelas. O que vi ali, estendido naquela cama de hotel, de terno, gravata e ainda sapatos, era o retrato de nossa humana e humilde condição, a face da fragilidade. Ele, que também travava suas batalhas. Todo homem luta uma guerra, em seus infinitos internos, na disputa daqueles territórios, em si, em nós, os desconhecidos, as trevas. O homem não se sabe, no inteiramente. É mistério até mesmo para si. Quando muito, é capaz de se reconhecer na plenitude de um momento de dádiva, como a graça de um desejo correspondido. Aí sim: o homem se sente livre, apenas nos breves hiatos em que algo, na vastidão do exercício de viver o mundo, é capaz de vibrar-lhe as secretas cordas do coração, gerando-lhe as raras melodias do contentar-se. O fiel retrato do homem: via-o ali em exata dimensão, no rosto daquele sincero amigo que a mim tanto ajudou e salvou. Afora os hiatos, no mais e no quase sempre, o ser humano é miúdo, é miséria, é carente, é pedido, a propósito de sua tantas vezes encoberta insuficiência. O homem não pode fazer-se feliz.
Descalcei seus ásperos pés, de confusas e grossas unhas, retirei seu terno e sua gravata, no decorrer imenso de minha gratidão, e o cobri. Fazia frio. Ao passo que eu, vendo o progredir inclemente dos ponteiros do relógio anunciar que se aproximava o momento de meu embarque, lancei-me sobre meus próprios cascos, nas providências. Despedi-me dele com não absorvidas palavras, em monólogo. Minha absurda solidão me dava as mãos ali, no antes do previsto.
Deixava de temê-la: a solidão é uma espada que, a princípio evitas por pensar que está apontada na certeira direção de seu peito, contra ti. Mas quando a ela se oferece o próprio peito, percebe-se que a mesma arma que te fere não te consome, e agora torna-se tua mesma, para teu próprio uso. É isso, a solidão é a arma do homem que, apesar de se saber insuficiente, é capaz de se bastar na espera. nas misérias. Apenas no duro e seco terreno da solidão podem ciscar os inabaláveis frangos da coragem. Tudo aquilo que brilha com luz própria emana de algum tipo de solidão. Aprontei malas, pedi um taxi na recepção, e me mandei pro aeroporto. Eu agora falava.
E aquilo me era surpreendente. Naquelas classes de espanhol que frequentara, fui capaz de aprender rudimentos da língua, os mais básicos. E eram para mim a beira do impossível! Exercitava-os, apelando aos desumanos exercícios do repetir e repetir palavras e frases até decorar. E assim esquecia, me caía das ávidas mãos. Mas na noite anterior, diante daquela mulher artista, uma nova coisa aconteceu, como estalo. Naquele momento intui uma espécie de algorítimo, um certo coeficiente de deformação, que, mal explicando, aplicando-o sobre as palavras de uma língua, esta tornava-se a outra. Claro que existiam exceções, e graves. Porém as classes de espanhol a isto me acudiam, emergiam-me seus ensinamentos no ligeiro do momento de ouvir e de falar, as idéias vivas, espertas, dinâmicas. Ah, caro leitor, sabemos mesmo dos mistérios que carregamos sobre nossos pescoços, entre as orelhas?
O obeso motorista de taxi perguntou-me de onde viera, e para onde rumava. Espantou-se duplamente. Deu-me conselhos e dicas sobre trocas de moedas, embarque e desembarque no aeroporto de Praga, o eficiente transporte do lugar, as objetivas providências. Elogiou a cerveja e a beleza do lugar. E também meu espanhol!
Meu temor aéreo encobri-o como um ator, assumindo o ar afetado e falsamente enfadonho de quem viaja de avião. Na breve viagem, nada bebi além de água. Alimentava o corpo com o apenas necessário. Algum estranho abster-se sugeria-se em mim, como se o afastar-me dos exageros me mantivesse mais no real. Eu queria estar totalmente em todo momento de meu ir naquilo, pedia quase rezando, à minha própria alma, que não me abandonasse ali. Eu me precisava muito, totalmente, para o sobreviver no imediato do desconhecido vindouro, e também para possuir meus próprios olhos. Desejava o mais justo mirar nos olhos de Vera. Necessitava eu do todo de mim, seja para trazê-la de volta comigo, seja para o íntegro solitário retorno.
Quase monástico, desci do avião. Meus pés interioranos palmilharam próprios o gelado solo daquele diferente lugar. Estas coisas a cabeça não entende, rateia, titubeia, espanta. Me pensava: "Deus meu, onde vim parar...", e absorto, tinha um pescoço quase de coruja, que a todas as direções apontava, colhendo as fartas visões que se me ofereciam. Eram cinco da tarde, e fazia noite intensa, de neblinas, e muito frio, no inenarrável.
No taxi, o início da incomunicabilidade fatal: à partir dali, senti, tornara-me praticamente um surdo mudo. De minha mala, retirei uma caixa de sapatos, local onde depositara as cartas de Vera. Entreguei uma delas ao homem, apontando o espaço que continha as informações do remetente e o endereço. Leu, e virou-se abrupto em minha direção, dizendo coisas naquele idioma de milímetros sonoros, como cacos de palavras detalhadas, minúsculas e rapidamente articuladas. Eu gesticulava com meu indicador, aos piparotes no envelope, numa ênfase. Em meus ouvidos não existiam as engrenagens próprias capazes de receber aqueles sons e fazer desenvolver a roda do sentido. Ele calou, olhou-me um instante mais, respirou fundo, deu de ombros e resignou-se. Em dez minutos, cruzávamos o centro de Praga.
As ruas estavam agitadas, carros por toda a parte, mas o trânsito se desenvolvia no mesclar de veículos, incluido bondes, em pacíficas regras de convivência. Com mais meia hora já estávamos na estrada novamente, atravessáramos a cidade, e sempre aquela nuvem negra densa, de neblina e chuva fininha, gelada. Pareceu-me tudo ao redor o medonho, o sinistro, o frio e desumano. Até ele sair para a direita e parar o carro, e apontar o indicador para o meio do breu. Abri minha janela, e só pude ver os contornos de uma grande habitação, larga, alta, no profundo de um terreno. Era um descampado, no meio do nada, nem barulho de bicho se ouvia, só o motor do taxi. Fiz com a mão que me esperasse, ao que entendeu. Ele apontou o carro, e acendeu faróis, para meus passos.
Rumei e o que vi foi, simplesmente, um alto muro e um portão negro fechado, lacrando a visão para os internos do lugar, e nenhuma luz, som ou sinal de vida lá dentro. Procurei uma campainha, e nada. Bati palmas, bati no portão, emiti sons como que grunhidos, e nada simplesmente se moveu, recebeu, ressoou. Subi no muro, pra espiar. E não havia nada nem ninguém ali. Voltei ao taxi, morto de frio. O homem agora fumava, e me apontava atentos olhinhos miúdos. O frio parece diminuir o olhar das pessoas. Completamente impossível se saber o que se passava por sua imensa cabeça calva, ladeada de profusa barba, acizentada.
Puxei um lápis, e desenhei nas costas da carta, com traços infantis, uma casa sob uma placa onde escrevi "Hotel". Ele sorriu, falando "rrotél, rrotél!". Virou o carro, ofereceu-me cigarros que agradeci mas não aceitei, e sem se importar com o fato de que eu nada entendia, ele começou a falar muitas coisas pelo trajeto, a me apontar construções, praças e um rio. Lembrei-me da carta de Vera, uma foto sua numa ponte sobre o rio... "Vlatava!", falei alto. O homem sorriu-me imensamente grato, repetindo em meio a risos "Vlatava, Vlatava!". Aquela era a única palavra que tínhamos em comum, e a usávamos como imenso sinal de mútua simpatia.
Deixou-me num hotel simples, na certa percebeu-me uma pessoa simples. Desta feita, ele próprio pegou meu lápis, e desenhou um relógio marcando nove horas, e ao lado, duas montanhas e um nascer do sol. E falava "Zítra, zítra". Marcara comigo um encontro para a manhã do outro dia, assim entendi, e soube-o: comovera-se, ajudaria-me.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vera XVIII

Vera XVIII

A máquina marchava pelos ares resoluta, em ângulo propício a adquirir altitude, vencendo alturas, superando gravidades, erguendo-nos. Lá fora, o mundo acabava em águas, as chuvas, as torrentes, em generosas abundâncias. "Não é perigoso, voar assim, com chuva?", balbuciei ao amigo tutor. Pois antes de sua resposta, a todos rebentou um saculejar vigoroso, com luzes indicativas de obrigatoriedade quanto aos cintos de segurança, e aquela apreensão crescida, capaz de tornar o ar duro, denso, difícil de respirar. Eu me perdia em certo enjôo e pressão nos ouvidos, cordeiro naquilo, me segurava e nem esperava mais resposta.
Já parou pra pensar que vivemos em meio a um contrato, uma certa confiança que se estabelece, uma certeza presente mas não dita? Naquele momento, então, isto saltou-me aos olhos. Quem era o piloto? Era ele um sujeito preparado, eficiente? Sabia-se que sim, mas como se sabia? Algum de nós ali verificou, alguém pediu a ele qualquer tipo de certificado com horas de vôo ou coisa que o valha? E se soltasse um parafuso da asa? Será que foram bem apertados? Seriam eficientes os mecânicos e acertadas suas revisões? E também que história era aquela, apregoada aos sete ventos, de que o avião era o meio de transporte mais seguro? Será mesmo? Se aquilo caísse ali, não sobraria ninguém, nem mesmo o piloto para contar a história. Normalmente ninguém sobrevive a um acidente aéreo. Daí a invenção do singular dispositivo, a caixa preta, a única remanescente capaz de explicar ou ao menos sugerir o motivo de um acidente. Meus Deus, aquilo poderia cancelar nossas vidas, amores, esperanças, num átimo. Mas de qualquer forma, o sentimento imperioso do "Isto só acontece com os outros, e nunca comigo" é uma espetacular ferramenta psicológica de defesa. Empunhei-a.
No mais, só podíamos nos segurar e esperar...
Bem, o que nos veio no suceder daqueles instantes foi a coisa mais bonita que já vi, derramando-me cascatas de maravilha espinha a fora, no contemplar dos dons e lonjuras e vastidões do imenso aparelho que é este mundo. O avião superou aquelas turbulentas chuvosas nuvens, e ganhou as plenitudes douradas de sol, no além. Seu brilho molhado de pós chuva realçava multicoloridos arco-íris em sua super estrutura, exercendo-se no invencível, sólido, estável, potente, deslumbrante. As nuvens, sabidamente gasosas, mais pareciam sólidas estruturas, delicadas, macias ao toque, e apesar de negras, quando vistas de baixo e de dentro, dali mostravam-se ultra alvas, numa tonalidade de branco impressionante, inexplicável. Meu Deus, que coisa é o homem. Seria tudo aquilo para mim um sinal, uma forma nova de ver o que experimentava, no manter-se firme para o atravessar de minhas internas turbulências? Silencioso, beliscava-me, alertava-me, dava de comer a meu espírito naquelas associações.
A coisa acalmou-se, e assumiu novas dinâmicas, com bebericagens e comilanças, no fino trato de aeromoças penteadas impecáveis e grossas meias-calças. Acompanhei meu amigo em duas doses de uísque, para os oportunos relaxamentos. E funcionou. Dormi intensamente, mesmo no mal acomodar de poltrona. Acordei horas depois, naquela espécie de universo paralelo. Difícil ter a consciência de que voávamos por todo aquele tempo. Parecíamos estar parados, alienados do real transpor de distâncias oceânicas.
E o mais foi a estranha experiência da aterrissagem, que mais me pareceu um se deixar cair na exata proporção, no dosar exato de instrumentos como que velas, que modulavam nas asas as direções precisas e desejadas, naqueles inteligentes controles. Após o tocar no solo, freios fortíssimos atuaram, na antiviolência de conter o desembestado aparelho. Eu fui tomado de gozos mecânicos, impressionado com detalhes que nem pareciam reais àquelas pessoas de aparência fresca, afetada. Parada a máquina, um sonoro desafivelar de cintos e agitação geral: aqueles indivíduos mal se continham, tomando malas, preparando-se para deixar o grandioso veículo e ganhar seus particulares rumos. A voz que nos chegou nos alto-falantes falava agora em espanhol. E eu, pobre de mim, não entendi nada. Só ouvi meu amigo dizer: "Pega seu casaco, está frio".
E lá estavam eles no saguão do aeroporto, dois dos três espanhóis que conheci no escritório, em seu habitat natural, a nos receber calorosos em pleno inverno europeu. Fui abraçado pelo falante, de estranha gengiva, que não continha sua agitação e, ignorando o fato de que eu nada entendia, disparava em minha direção frases repletas de entusiasmo. Contido, o segundo espanhol, o silencioso senhor de gordurosa calva, apertou-me singelamente a mão. Pelo que entendi, o pequeno espanhol de lentes armadas douradas e voz metálica, o chefe maior, se juntaria a nós posteriormente. Meu amigo chefe intermediava o essencial de conversas. Aliviou-me saber que não estávamos ali para trabalho, apenas para o conhecer da sede e suas pessoas, numa intensa troca de mútuas simpatias.
Mas qual, impossível não se agitar o espírito numa ocasião daquelas. A metrópole Madrid sugava meus olhos com avidez, desvelando-se em imagens de grandiosa beleza, imprimindo em minha memória arquiteturas fascinantes, de imponentes fachadas e importantes históricos monumentos. Perdi-me naquelas diversas culinárias, no sabor de vinhos e peixes, nos usos e costumes de um povo consciente de sua história e valores. Tudo me gerava interesse e graça, e percebendo-o, o espanhol de gengivas estranhas incutiu-me mais pólvora, pondo-se a mimar-me, a tudo apontar-me e iniciar-me. Eu me inclinava diante de tudo aquilo num abestar-me, contemplando monumentos e igrejas seculares. Numa delas, de altíssimo teto, chamada San Jerónimo el Real, retirei-me um pouco intimidado dos demais, e na bagunça de meu coração, rezei palavras errantes. Em minha desconcentração pedi por mamãe e por mim, na estranha enormidade daquele templo. Mas nada parecia parar, não havia paz ou sossego em nada, nunca.
E via também, e talvez mais, o invisível, o tempo no entorno de tudo aquilo, no antigo tão belamente conservado, abrindo olhos de gerações vindouras, agraciando-as com um fazer parte, uma espécie de elo, numa corrente construída à paga de sacrifício de tantos antepassados. Corrente capaz de atravessar séculos, aspergindo dignidade na alma de todos, mesmo no menor de seus cidadãos. Os sólidos valores da tradição, o corpo do povo, da pátria. Aquilo, presente no ar de tudo, enchia-me os olhos. Era capaz de contemplar longamente uma calçada, uma janela, uma simples escada. Todo o zelo e perfeito cuidado se expressando no construir daquelas corriqueiras coisas, ensinando a meu espírito que se deve viver o cuidado com o detalhe, o capricho. Por sempre me demorar mais que os demais, penso que eles me tinham meio como que abobado, o mole, sempre andando mais atrás que todos. Eu me sabia: afiava meus olhares naqueles fascínios.
Lá pelos últimos dias daquela jornada que mais parecia uma febre, apareceu-nos o terceiro espanhol, o pequeno homem de voz metálica por detrás das armações. Pareceu-me, pude notar-lhe logo à primeira mirada, bastante abatido. Em seu olhar pousava um quê melancólico, pesante. Porém, com a agilidade de convites e propostas, que novamente mal entendi por espocarem em vocábulos intraduzíveis a mim, lançava-nos a um artificial dinamismo, no afã de desviar-se de seus internos incômodos. Propôs-nos dois singulares programas, para as despedidas: Uma tourada no dia seguinte, e um posterior espetáculo que, francamente, precisarei inventar palavras, caro leitor, para dividir contigo a agudez de tão profusa beleza.
Saiba, caro e companheiro viajante leitor, que alguns eventos têm a jóia de evidenciar com particular e perfeita graça o genuíno coração de um povo. Naquela tourada, quanta beleza e harmonia humana diante da explosiva estupidez animalesca do touro. Ludibriado por aquela cortina vermelha, toda a instintividade do pobre e corpulento animal se deixava manejar pela malícia e ousadia técnica do toureiro. Era a dupla solidão de ambos que se enfrentava na arena, inflando de coragens os espectadores que urravam glórias, quão mais perto da morte se colocava aquele hipnótico toureiro, em seus trajes impecáveis e posturas singulares. Estava claro que não só o touro estava em seu domínio, e sim todos nós, ali, como sendo ele. Ele vencendo nos conduzia à vitória, como num projetar-se. E aqueles homens e mulheres e crianças, aquele povo expandindo fúrias, farejando guerras, dominados e realizados por aquilo. Meu chefe amigo protestava secretamente comigo quanto à violência do que estava por vir. Dizia não gostar das touradas. Eu ia bem no embalo da coisa, mas quando vi a vitória do toureiro se consumar nas várias espadas enterradas no alto e no flanco do touro, chocou-me, dividiu-me, confundiu-me. Lembrei-me de meu pai, que tantas vezes em nosso interior vi sacrificar um boi com golpes de machado. Mas aquilo era outra coisa, era para comermos, sobrevivermos, não era um espetáculo. A tourada se fazia num amálgama de solene e profano. Uma espécie de orgia covarde se punha junto aos ideais de coragem que fazia aquele povo precisar daquilo. Os amigos espanhóis, mesmo o calvo gorduroso quieto, abraçavam-se emocionados, bradando sei lá o quê. Sentei-me encabulado, pois realmente a coisa não poderia terminar de outra forma, para a eficiente catarse. Calei-me.
De noite, fui levado a uma espécie de clube de importantes cavalheiros e damas, nos melhores trajes. Eu vivia, sentia. Presenciaria um espetáculo flamenco. Sentamo-nos numa excelente mesa, imediatamente ao lado de onde dar-se-ia a coisa. Generosos suprimentos de vinho e diversos seqüenciais pratos, ao que me inclinava num torpor absoluto dos sentidos, naquelas carícias de prazeres gustativos, vividos à boa mesa. Alimentos e bebidas que se harmonizam, aromas desconhecidos, temperos inéditos, frutos do mar. Lembrei-me ali, confesso, do distante tempero de mamãe, que adorava cozinhar com coentros... E à certa altura, num golpe, as luzes se esvaíram, nos deixaram apenas com as velas, num quase breu. A atmosfera do salão encheu-se de mistérios com o adentrar daqueles artistas, três homens de roupas negras. Um executando um violão de maneira engenhosa e rápida, os outros com ritmadas palmas e vocativos e roucas exclamações. Eram gritos, gemidos de uma dor profunda, da alma. Eles faziam música com aquilo. Ao que veio a se somar uma mulher.
Como dizer? Ela veio da escuridão com passos ruidosos, no exato pulsar da música, dançando, sapateando e fazendo esvoaçar um vestido de intenso vermelho, evoluindo enigmas e arrancos, numa coreografia a um mesmo tempo abrupta, violenta e surpreendentemente feminina. E cantava vigorosamente, por todo o salão reverberava sua imensa voz natural, exalando um sentimento impressionante. Seus longos anelados cabelos negros jaziam presos em perfeita composição com seu rosto alongado, de nariz presente e afilado, sobre um pescoço forte, vigoroso. A certa altura, enquanto cantava, fixei-me no vermelho de seus lábios que se moviam, e, juro, simplesmente aconteceu: entendi suas palavras, todas, uma a uma, no detalhe e no bordar da inflexão daquelas estranhas melodias. Ela cantava:

 SIN FIRMAR UN DOCUMENTO/
NI MEDIAR UN PREVIO AVISO/
SIN CRUZAR UN JURAMENTO/
HEMOS HECHO UN COMPROMISO./
SIN PROMESAS NOS MARCHAMOS/
NI TE OBLIGAS, NI ME OBLIGO/
Y AÚN ASÍ SÉ QUE SOŃAMOS/
TÚ CONMIGO, YO CONTIGO./
TU DESTINO ES COMO EL MÍO,/
SI ERES VELA, YO SOY VIENTO,/
SI ERES CAUCE, YO SOY RÍO,/
SI ERES LLAGA, YO LAMENTO./
NADIE HABLÓ DE ENAMORARNOS/
PERO DIOS ASÍ LO QUISO/
Y TAN SOLO DE TRATARNOS/
HA NACIDO UN COMPROMISO./
TU DESTINO ES COMO EL MÍO,/
SI ERES VELA, YO SOY VIENTO,/
SI ERES CAUCE, YO SOY RÍO,/
SI ERES LLAGA, YO LAMENTO./
NADIE HABLÓ DE ENAMORARNOS/
PERO DIOS ASÍ LO QUISO/
Y TAN SOLO DE TRATARNOS/
HA NACIDO UN COMPROMISO./
UN COMPROMISO./

Saboreei cada palavra com aquele mel que a música ajuntava, vidrado naqueles lábios cinematográficos, que ao perceber minha robusta comoção, dirigiam-se agora tão somente em minha direção, em exclusividades. Era já mais que notório que aquela belíssima mulher cantava para mim, ao que me pus involuntário no momento, num corresponder de coisa, na coragem de se ser no diante de tantas testemunhas. Mas qual, ela mal entendeu-me. Não foi por coragem. É que eu pairava em suas palavras, entendendo-as e deixando-me sonhar por suas poesias. Extracorpóreo, me fazia estar diante daquela que, "sem assinar um documento, juramentos ou prévios avisos, havíamos feito um compromisso". Eu estava com Vera. Daquela que "se era vela eu sou o vento", ou o contrário, ou tanto faz. Nosso acordo tácito, desdobrando-se na misteriosa ocasião, na letra cantada por aquela mulher.
Diante da máxima beleza além mar, espanhola e flamenca, meus ouvidos e minha língua de desenrolaram. Soprou-se em minha face o hálito fresco do amor, vindo dos porões da memória que a tudo torna presença e revigora. A Beleza, própria, me emprestara um rosto para lembrá-la. Vera. Na manhã do dia seguinte, deixaria os amigos e a Espanha. Meu destino? Desvencilhado e só, tentando me fazer livre, rumaria a Praga, almejando finalmentes.

sábado, 12 de julho de 2008

Vera XVII

Vera XVII

Dava-me àqueles preparos meio que sem olhar aos lados. Dava-me aos objetivos me esquivando de perguntas, de qualquer duvidoso questionar. Ia adiante no clarear do juízo de meu chefe que indicava direções e no apelo da mãe de Vera, que me pedia o resgatar da filha. Dava-me àquele acudir no total da incerteza que me picava. Tomando as dinâmicas providências, tantas, as todas, esquivava-me de meus densos e receosos pensamentos. A verdade é que por dias tentei fugir de mim e meus lacaios temores.
Até que uma incômoda fila na Polícia Federal cozinhou-me os ânimos, para o desconhecido mas simples retirar de um passaporte. Minhas águas gotejantes transbordaram copos. Faziam greve aqueles que lá trabalhavam, e o serviço arrastava-se, numa tarde longa e monótona. Vi-me em imensa solidão, e provando amargas doses do fel do medo. Aqueles eram meus quarenta dias e quarenta noites, um tempo para tentações e conflitos, os mais extremos, sabia-o. A pois, chegava-me a dúvida, aquela zoeira, de todos os cantos do pensar. Com uma senha nas mãos que constava cento e dezenove atendimentos a esperar, dediquei-me ao hediondo e histérico exercício de mal pensar. A macerar o rubro urucum do medo e a me untar daquele ungüento. Os mais altos poderes destrutivos do imaginar.
Pois que nossa estrutura humana tem inscrita na névoa de seus mistérios, uma sua rocha de instintos. O mais básico e primeiro, este, o instinto da sobrevivência. Sendo que aquilo que nos é bom e prazeroso, por não nos ameaçar a sobrevivência, se instala em nossa memória com registros débeis, frouxos. Por outro lado, portamos uma inarredável mania de registrar de forma incisiva e definitiva aquilo que experimentamos de mal. No negativo, somos animais de perfeita lembrança. O que nos doeu e aviltou, o corpo e a mente guardam como que numa tatuagem, para um prevenir mais eficiente, se algum dia for o caso de se repetir a má ocasião. E assim, no desenrolar do comportamento geral nosso, o repetir de ações determina certos padrões de comportamento, como que equacionados pelo embate da personalidade e da alma do indivíduo que se move impulsionado pela turbina do desejo, com a experiência do real, no extenso e intricado tabuleiro de xadrez do viver. 
 Pois bem, amigo, desses registros, os maus, me sentia um cartório deles. Eu, o negativo, em negra nuvem. Mas e a realidade justa e neutra? A vera realidade e sua balança fiel para a criteriosa escolha do proceder? Onde estava, como mirá-la? Como apelar às saudáveis decisões, como me pôr em estado de fé e acerto, se meus olhos eram ali tão somente reféns de uma espécie de seqüestro em que o medo e o trauma exigiam impagável resgate? Perdido, entreguei-me aos chutes e pontapés daquelas vândalas ruminações.
Pensava-me, convicto, um perfeito idiota. Mordia-me em carências, fazendo caminhos de volta no retro-suceder dos fatos, daquela noite de encontrar Vera na discoteca. De depois revê-la em nossa comum cidade do interior. E depois tê-la por uma noite apenas, e acordando sozinho, num despencar das nuvens. E o mais foi a pouca ração de se sobreviver, as mínguas de um amor robusto que se arrastava em inanições. A tudo observava com olhos vazados de dor. Um homem não deve fazer isto, definitivamente não deve. Deve sim aplicar-se a reconhecer a beleza possível, e muitas vezes recolhida em sutilezas, em tudo aquilo sobre o qual dedica seu olhar. Mas não, eu errava nas lembranças, desprezava-as profundamente, na turbulência de minha solidão. Com os olhos doentes não se deve revirar as belas páginas da memória, aprendia-o. Pois é no coração do ser que mora e vibra o valor, que salta aos olhos no atribuir, por se reconhecer que tudo o que se tem, que se vê e se é, guarda seu tanto de preciosidade. Eu trocava por bananas minhas jóias valiosas, naqueles conflitos.
No bolso vibrou-me o celular. Era meu chefe, me estendendo uma corda, tentando erguer-me daqueles infernos. As passagens já estavam em suas mãos, inclusive do trecho tcheco que eu cumpriria sozinho, nas aventuras. Senti-me como que esquartejado, novamente na confusão de vetores que acorrem a diferentes opostos lados. Era-me instigante o mundo, mas temia o desconhecido desenrolar dos destinos daquilo, desde o ter que se virar nas ocasiões de estranhas línguas, à possível (e naquele instante mais que provável a meus olhos) rejeição que sofreria de Vera. Como voltar pra casa após olhá-la nos olhos e na cicatriz, e ouvir de sua voz um sonoro não, um ranger de porteira fechando-se, um coice nas costelas da alma, um estalar de tapa na anca de minha mula, repelindo-me? Como, dileto leitor? Acabei respondendo a ele com um vago "Que bom..." que mais parecia um gemido. Ele soube de lá que eu já me encontrava em franca deserção, na fogueira das tentações e do interior tormento. Só disse: "Não faça nada, não tome providências, entrega o corpo e o resto ao que está pra acontecer. Seja simples, deixa a vida te levar. Vai dar certo."
Dois dias antes da viagem, soprei 30 velas sobre um humilde bolinho, todo ele feito de chocolate e biscoitinhos doces. Foi lá, no lar daqueles velhinhos pobres, junto a eles e a meu irmão, que me senti abraçado e verdadeiramente consolado, talvez pelo compartilhado, comum e reconhecido portar de misérias. Miseráveis e doridos o somos todos, no real. No mais sonoro silêncio do abandono, alguns em cadeiras de rodas, outros no leito envolvidos de panos, as francas nuas gengivas sorrindo felizes para mim, numa espécie de bênção que apontava nítida a meus olhos a imensa fortuna de viver, o vertiginoso monolito que somos, existindo. Emocionava-me o genuíno rebentar da gratidão, como um nascer de rio, em pequenos e pobres brotos de água que minam da terra, cristalinos, e que se juntam para correr em grande volume e ser a casa dos peixes. Toda aquela vida difícil, estampada naqueles olhares que tão belamente me guardavam, como que purificavam meus fluidos, abastecendo-me as matulas para o enfrentar de vindouras dificuldades. Que é a vida, afinal, senão o pleno cascatear de paradigmas, aos dominós?
Numa manhã molhada de abundantes chuvas embarquei no grande pássaro metálico. Meu chefe deu-me a janela, iniciando-me. Atento, eu observava as instruções de segurança, as manobras pela pista, e um quê geral de sutil desconforto e apreensão. Meu chefe lia no jornal o caderno de notícias de esporte, e eu, naquele agora, já havia involuntariamente cerrado as portas do pensar, me sentindo estranho, como em estado de sobrevivência, no alerta e torpor dos básicos instintos.
Imagine, mais de duas centenas de pessoas ali dentro, e suas tantas bagagens, os suprimentos para o serviço de bordo, a própria aeronave e o mais que nem sou capaz de conceber. Tudo aquilo ali, pesando toneladas, compondo o enorme aparelho. Que milagre escandaloso o homem e suas engenharias nos proporcionou! E o mais: quão ousada fora a mente que um dia, mesmo tendo conhecido o mundo no obrigatório rastejar da superfície terrestre, foi capaz de sonhar uma coisa daquelas, com o avião? Saiba, amigo, que o mais corajoso é aquele que sonha as maravilhas, e com seu irrevogável desejo acaba por mover as fronteiras do impossível. Nos meus internos, eu temia e vibrava.
Até que terminadas as manobras preliminares, o avião apontou sua seta ao infinito, e ouvi o impressionante grito daquelas turbinas. E aquilo desembestou pista afora em linha reta, numa velocidade mais que animalesca, impensável. A naturalidade de todos ao redor me fez pensar cá de dentro: "Deve estar tudo bem, deve ser assim mesmo". Freei minhas desconfianças, chequei meu cinto de segurança e me entreguei ao absurdo de tudo aquilo. Dentro de mim jazia um Eu todo interiorano e tão menino, que ia a toda velocidade para os infinitos braços do mundo, e seus homens de negócios, e o seu velho continente, e sua história, e todo o desconhecido, e a beleza, e o desenvolvimento. E Vera: minha impossível possibilidade de amor.
Impossível?
E foi num exato e mágico instante que a coisa se deu: simples, o avião saiu do chão, erguendo-nos para uma sensação de infinita e inimaginável liberdade, por aqueles caminhos de ar. Todas aquelas toneladas voavam, verdadeiramente voavam! Nada mais me era impossível, soube-o. Olhei à esquerda, meu chefe, irmão, agora de jornal dobrado sobre o colo, voando comigo, apenas olhava-me, lia-me, acompanhava-me, sorria-me.