terça-feira, 16 de setembro de 2008

Vera XXII

Vera XXII

Eu brincava sentado no chão, no quarto de minha mãe, ao lado de sua cama de casal. Sempre um barulho de máquina de costura, ela trabalhava sem parar. Por ser constante o som que se ouvia, era como se nem estivesse mais ali. Tudo o que é constante a certo ponto deixa de fazer-se notar. Só quando de sua interrupção é que percebemos que esteve ali por todo o tempo vivido, compondo a multifacetada e infinita realidade. Naquilo, entre retalhos de pano e pedaços de linha chão afora, uma borboleta de intenso escuro azul, como que nascida de meu nariz, batia suave as asas, mas não voava pois seus pés tinham raízes na pele de meu rosto, atando-a a mim. Seu bater de asas me atrapalhava um pouco a visão. Eu manejava um pequeno canivete, aposentado de usos por meu pai, entalhando boizinhos em sabugos de milho ressecados. E à medida em que ficavam prontos, punham-se a pastar em minha fazenda, mugindo longas esclamações, meios murmúrios, doloridos lamentos. Aqueles meus boizinhos se moviam lentos e em círculos. Por ignorarem a força colossal que tinham, eram boizinhos mansos, covardes, que só faziam reclamar de alguma sentida opressão. Aquelas às quais o animal de criação tem que se submeter, e por este mesmo motivo, abrir mão de sua natureza selvagem. Perde-a simplesmente, não se sente mais capaz de exercer as intempestivas instintivas explosões. Minha mãe pedalava sua máquina, aquele moinho de juntar tecidos, quando de repente estacou, me fazendo sair de meu brinquedo. Sentindo falta do barulho que nos embalava, olhei em sua direção, mas ela, de olhos fixos em seus panos, não me olhou. Então ouvi o motivo que a fez parar: O duro estalar das botinas de meu pai sobre as madeiras do chão da cozinha anunciavam sua assoberbada presença: Ele chegava. Meus boizinhos mugiam agora em crescente agonia, e me ergui do chão puxando uma peça de roupa que pendia da máquina em que minha mãe costurava. A peça veio parar em minhas mãos, ainda atada à máquina por um fio dourado. Era uma calça que vestiria quatro pernas, e era para mim e para meu pai, para vestirmos juntos, como siameses. Eu não queria, eu não ia vestir aquilo, e passei a chorar, a implorar a minha mãe que não fizesse aquilo comigo, para cortar a calça ao meio, separar as pernas, antes de meu pai entrar no quarto. E os boizinhos mugiam e mugiam, tão alto que meu pai perguntou de lá, impaciente, que barulho era aquele dentro de casa, o que estava acontecendo. Algo que nem vi atingiu a borboleta do meu nariz, espalhando um pó azul no meus olhos, e ela restou ali no meu rosto golpeada, amassada, parou de bater suas asinhas, não sei se ia sobreviver. Minha mãe, para encobrir o berro dos boizinhos, tomou a calça de minha mão e passou a fazer mais barulho, se pondo a pedalar e pedalar a máquina, e a costurar e costurar mais e mais a calça bizarra. Mas meu pai acabou entrando dentro do quarto, e começou a tirar a roupa, para colocarmos a calça que estava ficando pronta. Eu não queria, ele me mandava engolir o choro, mas os boizinhos mugiam e cresciam. Enquanto mãe costurava, fazia barulho falando comigo para vestir a calça, mas não me olhava, tinha os olhos fixos na costura, também temendo meu pai. E meu choro foi se tornando grito, e quanto mais gritava, mais meus boizinhos cresciam, como que inflados pelo ar de meus berros, a ponto de não caberem mais no quarto, e jogarem abaixo a parede que dava para os fundos. Eu gritava e gritava e fugi dali como estava, descalço, sem camisa. Meus gritos foram se tornando aboios e meus bois vieram atrás de mim, e eu corria, corria para dentro do mato. A borboleta parecia morta quando a arranquei de meu rosto, que saiu trazendo junto pedaços de minha carne e sangue abundante, como de verrugas.
Acordei com vigorosas batidas em minha porta, suando bicas. Me levantei e abri uma fresta por onde pus a cabeça. No corredor, junto com a moça recepcionista, estava um homem corpulento, que me afastou junto com a porta com um golpe seco de braço, e entrou quarto adentro para ver o que se passava. A moça estava apavorada, e os demais vizinhos de quarto, descompostos, aos pijamas, se dispunham ali também curiosos, para investigar o que se sucedia. Pelo visto, eu gritava a plenos pulmões enquanto sonhava, e eles pensaram que havia no quarto mais alguém, por certo compondo uma cena de violência. Na selvageria de meus gritos, compreendi: Portamos um outro em nós, um estranho, um desconhecido. O insondável e misterioso inconsciente. Tudo é mistério. Quem se sabe?
Envergonhado e absolvido pela cumplicidade de todos (quem nunca teve um pesadelo?), recolhi-me, mas já não pude dormir, tantas as palpitações. Recorri à televisão, baixando bem o volume. Não queria incomodar mais a ninguém e, ademais, para que ouvir os incompreensíveis vocábulos tchecos? Perambulei horas por aqueles canais, e uma cena em especial me chamou a atenção: Um desenho esquemático do sistema solar, em que o planeta Terra movia-se ao redor do Sol. O esquema mostrava a inclinação da Terra em seu movimento de rotação, realizando um movimento de translação ao redor do Sol. Esta inclinação gerava as diferentes estações do ano, pois em determinada época os raios solares incidem mais próximos do hemisfério norte, compondo o verão, e noutra fará o mesmo no hemisfério sul. É isto que gera as diferentes estações do ano. Ao lado do esquema, na TV, a espressão "ZIMNí SLUNOVRAT". Letra a letra, anotei. Pelo que pude entender, era uma explicação do solstício de inverno, instante astronômico em que a inclinação do planeta gera a maior noite do ano no hemisfério norte, e o maior dia no hemisfério sul. O solstício de inverno se aproximava em Praga.
Entreguei o papel ao taxista, que repetiu a palavra em compulsões. Aos desenhos, tentei explicar a ele o que entendi, e ele confirmou minha idéia do solstício, tirando do bolso o cartaz que chamou tanto sua atenção no dia anterior. Fazia um frio incrível quando entramos no taxi para recomeçar as buscas.
Numa de suas cartas, Vera me afirmava algum grande poder envolvido no solstício de inverno. Sendo este o momento de mais longa noite, ilustra em várias ancestrais culturas uma total imersão nas trevas. É a noite, a escuridão maior a que somos submetidos, nas recorrências anuais. Só daí poderia emergir o homem novo, forte e cônscio, farto de crescidas coragens, apto ao pleno abraçar de destinos e contemplar de realidades completas. Algo ligado a um tal "Salto Quântico", objetivo a que Vera se dedicava desde então ali, e que a levara a ingressar na tal ordem sediada em Praga. Os períodos que sucederiam ao solstício de inverno marcariam a vitória da luz sobre as trevas, pois a partir daí, começa a caminhada astronômica contrária, com crescentes horas de luz dia a dia, rumo ao solstíco de verão, em que se tem o maior dia do ano, a maior luz.
O taxista retomou a estrada, rumando ao mesmo local ermo em que estivemos quando de minha chegada. Era aquele o endereço que constava no cartaz. Ele acelerava resoluto, seguro, flecha que se sabe a caminho de alvo. Passando sobre o rio, virei em sua direção e disse: "Vlatava!". Ele sacudiu a cabeça, repetiu comigo nossa única comum palavra, reafirmando nossa mútua simpatia. Desatei-me de meus pertences, joguei minha bolsa no banco de trás, e num instante paradoxal relaxei meu corpo que gelava. Sentia-me conduzido pela palma da mão do destino, num misto intenso de expectativa e entrega. Veria Vera em instantes, sentia-o, mas como seria? Meus temores me mostravam seus dentes, mas não mais me desconcertavam. Naquele relaxar, num fletir sobre si mesmo novamente, pude me perceber nitidamente mais inteiro, senhor de mim como nunca. Vera não me era mais uma espécie de febre. Tratava-se de uma possibilidade. Muito agradável e fascinante, porém uma possibilidade de destino, e como tal, assentava-se em sua justa dimensão. Eu já era alguém em mim, sobre os próprios cascos. Respirava meus ares.
Quando chegamos, desci do carro num salto, e fui na direção do alto muro, mas desta feita para rodear pelo lado contrário a construção, pela esquerda. Era dia, fazia alguma nublada luz, e eu tentava margear o muro rumo aos fundos do lugar. Foi quando ouvi o som do grande portão da fachada anterior se abrir, e alguém sair lá de dentro dizendo algo. Então me escondi, pois já tinha desistido de pedir informações àquelas estranhas pessoas, decidi investigar ocultamente. Deixei que o taxista o fizesse, o que de fato pude ouvir que fazia, trocando palavras com o alguém que surgira. Mas este alguém parecia repelir duramente o taxista, que insistia firme, talvez para que eu ganhasse algum tempo para espiar. Continuei minha caminhada pela extensão lateral do muro, e percebi que se tratava de um terreno enorme, bem maior que um campo de futebol. Ao redor do muro uma vegetação fechada e densa complicava minha vida, com espinhos por toda a parte e uma umidade incômoda, um lodo, uma nódoa. Pássaros que pareciam anus pretos se assustavam com minha presença, levantando vôo aos berros. Mas não, não eram anus, pelo tipo de bico potente e porte robusto pude perceber: Eram corvos. Imagina, o anu preto, tão mansinho, é um pássaro magro e dócil de minha terra interiorana. Mas a realidade é que eu me encontrava num brejo tcheco, rodeado de corvos corpulentos histéricos e perigosos.
Subi numa árvore, sei subir em árvores como ninguém. Seu galho me entregou à borda do alto muro. Em meio à vegetação, camuflado, como um voyeur, ergui a cabeça sutilmente. E o que vi? O impressionante.
Separados por um simples muro, estavam ali, a poucos metros de mim, sentadas e em absoluto silêncio, centenas ou mesmo milhares de pessoas, homens e mulheres em trajes claros, alvos, como que batas, aos panos, enrolados. A visão era arrebatadora, assustadora, desconcertante. Eu esperava enxergar algo a qualquer certa maior distância, mas não: Eles estavam ali, quietos, bem abaixo de mim, a poucos metros, e se estendiam até o outro lado, de tantos que eram, muitos e emparelhados. Como conseguiam, com todo aquele frio que fazia? E agora, como encontrá-la? Mas juro, que em meio a tantas pessoas nos mesmos trajes, não foi difícil localizá-la. O coração sabe seus sinceros rumos, nas adivinhações. Na direção do centro do grande campo, um pouquinho à minha esquerda, meus olhos certeiros alvejaram o perfil direito de sua cabeça semi inclinada, de olhos fechados, pele clara e macia. Vi sua bochecha escavada por uma cicatriz, que desde sempre esteve ali, ao lado de sua boca. Sentada e de pernas cruzadas, tinha as mãos dispostas sobre os joelhos, imóvel em profundas meditações. De cabeça coberta, parecia uma Pietá de Michelângelo, mas que contemplava não a dor, mas uma paz profunda. De todas aquelas pessoas que ali estavam, de olhos fechados e profundamente ensimesmadas, em particulares prospecções, parecia exalar uma serenidade e uma paz impressionantes, nas meditações. Mas a beleza maior, naquele instante, certo estou, quem teve a graça de contemplar, de olhos arregalados, fui eu: Como se nem corpo tivesse, como se pairasse extracorpóreo, no alto daquela årvore escorregadia e cercado de corvos e perigos, eu recebia o pagamento abundante de minhas penas e sacrifícios. Eu contemplava Vera, a face do amor, que de mim se distanciara.

8 comentários:

Fabiana Pinheiro disse...

Oi Renato

Seu texto me lembrou muito o estilo dos contos fantásticos onde, Todos procuram, atrás da aparência cotidiana dos fatos, um mundo encantado ou infernal que, mais do que assustar o leitor, o deixe perplexo: é verdade ou mentira, sonho ou alucinação? Como diz Calvino na introdução de seu livro que versa sobre contos fantásticos do éculo XIX , "o elemento sobrenatural que ocupa o centro desses enredos aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsiente, do reprimido, do esquecido, que se distanciou de nossa atenção racional.....bom, é assim que vejo !!!

Parabéns ... Muito bom !!!
Fabi

Renato Boechat disse...

Cara Fabiana,
A perplexidade e seus desconcertos, as unhas reais rompendo as luvas do sonho, num quase explicar da vida pelos indiretos.
Todo racional padece de parcialidades. O exercício da plenitude nos demanda coragens desconhecidas.
É assim que vejo.
Benvinda a este blog sempre.
Ele existe para os raros como você.

Marcelo Cabral disse...

ai ai ai
eu que não sou raro, eu que sou comum... eu que sou mais um; pergunto:
Que dia, Santo Deus, terei novamente o prazer das notas musicais? Das sátiras do cotidiano? Das piadas simples e dos risos fáceis?


Grande abraço.

Veronica disse...

gostaria tanto da sequencia da estória da Vera...quando?!

Marcelo Cabral disse...

eu que continuo esperando!
um abraço

Iara De Dupont disse...

Oi, tudo bem? Passeando agora de noite, acabei no teu blog. Gostei muito do teu texto, muito bem escrito e mesmo assim misterioso.Achei demais.Se puder passa lá em casa http://sindromemm.blogspot.com
Abraço!

Marcelo Cabral disse...

sábado nostálgico, ouvi Trinidad, toquei violão, agora estou aqui querendo falar de Vera...
tanta coisa agora já pode ser dita, "Chico, vai chamar seu pai..."

homi, já que tu vai la na feira traga traga de la para mim...

Carol Carneiro disse...

Ei, Renato! Kkkkkk...Nem acredita como vim parar aqui! Através do blog da minha amiga olívia Mdeiros q/ ela não mexe faz 2 anos...rsrsr...Tô chocada, que coincidência! Não sabia q/ vc tinha feito 1 blog. mas faz tempo q/ não atualiza, heim? Volte a mexer, é bacana!Estava mesmo querendo falar com vc! mil desculpas, pois não me despedi de vc no batizado/aniversário! Ricardo ficou na agonia de ir embora por causa do jogo e fiz esta falta de educação! Foi mal, Renato!bjs: Carol Carneiro