Vera XXI
Marquei outro encontro com o taxista, para o dia seguinte, em meio aos lentos goles que fui capaz de sorver, daquela cerveja polpuda. Tomar aquilo junto nos fazia mais amigos, estranhamente cúmplices. Ele não aceitou que pagasse nem a rodada de automóvel, nem a rodada de cervejas. Se mandou, falando sei lá o quê, e sorrindo. Me ergui, assumindo automático a direção do hotel, na outra margem da calçada. Num repente, estalou-me: Voltar ao hotel? Para quê?
Olhei em volta e me apontei em qualquer direção, com as mãos guardadas nos bolsos. Pus-me a vagar por aquelas ruas misteriosas, para mim completamente desconhecidas. Anônimo, e em absurda solidão, me sentia estranhamente bem, numa curiosidade quase científica com o lugar. Não que me esquecera de Vera, mas dava-me um tempo daquelas buscas, dava-me um ar. E não seria este, sempre, nosso sutil e sagrado mister? A pois, as tribulações da vida são o constante chacoalhar de nossas marés. Faz-se sábio dever o ato de, vez por outra, a tudo abandonar, por necessário instante, para um oportuno reconciliar-se. Dar-se um tempo, deixar-se livre, permitir-se. Somos um algo além do ser que deseja e se compromete, que espera e deve. Somos livres, lá, na medula. Talvez te decepcione em alguma sua expectativa, caro acompanhante leitor, mas naquelas frações não pensei em Vera nem em mim, nem em coisa ou ninguém: eu escorria por aquelas ruas nas metronômicas passadas do tempo, sem reminiscências nem expectativas. Os ritmos do mistério que pulsam em nós mesmos. Tanto foi assim, estive tanto naquele presente transbordante, que tenho nítidas e precisas memórias daquela ocasião. A realidade é linda. Conto.
Finalmente, meu espírito deu-se conta de estar num lugar novo, belo, merecedor de minhas melhores atenções. Seria injusto e até imoral não me propor um passeio. Apliquei-me åquelas especulações. E tudo magnetizava meus olhos, tudo convidava-me a um demoramento. Fazia um dia escurecido, nas mesmas neblinas, e aquela luz combatida compunha com as construções um cenário tão surpreendente, que nem parecia ser a velha conhecida realidade. Aquele lugar parecia se estender por seculares avenidas de silêncio. Quase se podia ouvir os passos de perdidos espectros por aquelas calçadas. E quanto menos centrais as vielas, quanto mais ermas, mais me eram atraentes. Sem me dar conta de guardar qualquer caminho de volta, confiando no mapa em meu bolso, me deixei levar tal qual uma sementinha de penugens, daquelas que não raro vemos o vento levar por aí, a esmo, nas engenhosidades da natureza que deseja engendrar vida nova à distância da árvore mãe. Flanava por Praga, à tôa, simplesmente. Dáva-me vida, para além de minhas preocupações. Sem um plano ou expectativa, a pureza de meus horizontes recebia justa a generosa visão que se me oferecia. Cenários de importantes histórias a mim desconhecidas, monumentos com inscrições impossíveis, fachadas trabalhadíssimas, nos detalhes engendrados por pessoas que pareciam não se importar com prazos, com o tempo. Em tudo, um fiel sentimento de equilíbrio. O nada que me perdoe, mas algo somos. Do bairro onde estava partia uma longa avenida, no eixo da qual cravava-se uma linha de bonde. Carros muito modernos mesclavam-se a carros muito antigos, verdadeiras muquiças que se acotovelavam com os bondes. Me pus a caminhar na direção de maior movimento, seguindo fluxos, o centro da cidade talvez. Apesar do frio, havia gente nas ruas. E era gente bem disposta, enérgica, de outro aspecto. Seus corpos pareciam ter posturas mais bem explicadas e nítidas. Como, por exemplo, se o indivíduo tem um grande nariz, este é imensamente grande. Se são longas pernas, estas são verdadeiramente longas. Se alguém é baixo, é estremamente baixo. Padrões claros e radicais, algo parecido com um reflexo de pureza, coisa de povo antigo e não misturado.
As mulheres eram extremamente belas, mas muito semelhantes entre si, claras, de firmes peles, e douradas feições. Aquele escorrer macio dos cabelos me revelava uma espécie de ternura dolorida, me segredando uma saudade muda, me abrindo ausências, as não plenitudes que se fazem sentir diante daquilo que atrae, encanta e confunde. E se vestiam estranhas, simples e em ultrapassadas modas. Mal dizendo: se vestiam mal. Os homens quase sempre fortes, nas feições do rosto exibiam traços pontiagudos, ossudos, igualmente amarelos de dourados reflexos, e espadaúdos, largos, altos, magros. Depois de tanto caminhar, parei para esperar um bonde, qualquer: A rua se dilatava, o centro não chegava.
Sentei-me pra esperar ao lado de um homem. No rosto riscado de rugas, o tempo. Ao lado, ele segurava uma pequena corrente, que o ligava a um cão. E como um voyeur, afundei meus olhos naquela pobre pessoa. Comoveu-me seus sapatos, desbastados mas limpos e bem amarrados. Contavam-me de seus sacrifícios e zelos. Suas dignidades se exalavam, não sei bem de onde, talvez do cinturão de onde pendia segura no além umbigo a calça de veludos puídos. E uma bruta solidão, no olhar manso e meio parado, de olhos pequenininhos. Meio que desistira de fiscalizar a passagem dos bondes, olhando um nada diante de si. Ele se deixava ficar, e o cão, igualmente pobre, a nada relutava, a tudo consentia. Qual um cego, que extrae da audição o máximo possível para compensar a ausência da visão, o mesmo se produzia em mim, porém lendo as linhas do real com olhos mais profundos, uma vez que de nada mais me serviam as palavras, nem as ditas nem as ouvidas.
De dentro de um sobretudo que cheirava a guardado, sem cerimônia ele retirou um papel dobrado e o estendeu a mim, virando-se. A mão era dura, calosa, parecida com a de meu pai. O papel era de um aspecto de há muito guardado. Peguei, sem relutar, natural. Era um retrato de jovem que sorria, na frente. Ao desdobrar, pelos números e símbolos deduzi que era um volante daqueles que se distribue em ocasiões de falecimento. Ele falava coisas batendo uma mão na outra, encenando um choque. E a certa altura percebeu que eu não entendia suas palavras. Mas o incrível senhor, ao perceber meu interesse, não desistiu de se comunicar! Esculpindo imagens no ar, pude entender em seu gestual que aquela era a imagem de seu filho muito querido, morto num acidente de carro, a quinze anos atrás. Ele parecia explicar que o filho era médico, quando um bonde se aproximou. O cão se levantou e tracionou a corrente. Aí sim, o homem se virou e viu o bonde. Me convidou a acompanhá-lo. Fui.
O destino era um cemitério, com insígnias judaicas em seus negros portões metálicos. Acho que eu deveria ter pago algum valor como ingresso, mas por estar com ele, fui poupado. No lugar, milhares de lápides dispostas confusamente, como que querendo ocupar o mesmo lugar no espaço. Era impressionantemente caótico, pareciam que eram uns enterrados sobre os outros. Paramos diante de uma lápide que ele segurou, e ali começou a proferir baixos sons rapidíssimos, numa espécie de oração ritual, ao que respeitei, estranhando e me recolhendo. Aquele parecia ser um pai saudoso, que visitava o túmulo de seu filho constantemente. Então aproveitei para olhar ao redor, e me deparei com um ambiente totalmente bizarro para os meus olhos e experiências.
Num anexo, uma sala deserta e vazia rememorava as milhares de vidas judias consumidas pelo holocausto, com as paredes todas cobertas por incontáveis milhares de nomes escritos em pequenas letras. Era a dor de um povo inteiro ali, estampada, numa ferida escancarada e silenciosa. A pior característica dos capítulos mais severos da história é que eles de fato aconteceram. Era impossível não tocar a áspera carne daqueles acontecimentos. Eu, que a tudo aquilo estudara de forma tão alienada para o vestibular, o assassínio de milhões de judeus, entendia tudo aquilo agora nas profundidades, as ricas. Retornei besta ao homem, que me aguardava paciente em seu ritual de ligeiras palavras, mas agora me olhando de diversa maneira, meio que surpreendendo em mim o pulsar de um comum coração, universal, tão novo para mim.
Ao que, instantes depois, veio o inesperado percutir sutilmente em nossas portas. O tempo forçosamente fechado por aquele dia nos reservava uma surpresa: Começou a cair neve! Ele interrompeu sua estranha jaculatória, seus olhinhos cambiaram num brilho autêntico de felicidade infantil. Ele me bateu no ombro, com uma alegria sincera e leve. Nevava! Nos retiramos dali, em passos rápidos e alegres. Eu caminhava aparando flocos de neve nas mãos juntas em concha, e levando à boca, quase que em fase oral, para o completo experimentar. Abrigados num café, contemplamos tudo lá de dentro. Um simpático garçom nos instalou em dois confortáveis assentos diante da janela, e nos proporcionou dois tragos de um conhaque que fez muito sentido naquela ocasião. A neve parecia serenar tudo, levar tudo a uma dimensão de contemplação positiva, de calma. A neve cai devagar. Mesmo as pessoas pareciam se alegrar internamente com aquilo que, mesmo para eles, era sem dúvida um espetáculo. Ao que me entendi com aquele velho homem sentado a meu diante: nossas solidões se acompanhavam mutuamente.
A certa altura, sem dizer palavra, ele se levantou, puxando seu cão. Fiz que iria me levantar também, mas fui contido por um gesto seu. Pensei que iria ao banheiro. Engano meu. Minutos depois ele bateu na janela e me acenou, já do lado de fora da vidraça, numa amistosa despedida. Me ergui enérgico da cadeira, mas ele se virou e se foi. E pela longa e escura avenida já repleta de alva neve vi aquele ser humano arrastar, digno e exato, o peso de seus anos e dores, além de seu cão. O garçom veio de lá, com mais uma dose sobre a bandeja e serviu-me. Eu ainda estava de pé por refazer-me, quando junto com a dose de conhaque, ele pôs sobre a mesa um pequeno volume, mal embrulhado num papel presente.
Tudo já estava pago, e o desembrulhar revelou-me uma delicada surpresa: Tratava-se do livro "Cartas a un joven poeta", de Rainier Maria Rilke, numa bela edição em Espanhol, com notas biográficas do autor até então desconhecido para mim. Naquele café, pude então reparar, funcionava uma simpática livraria. Provava-me o velho homem que também percebera-me, no exato, acertando o acessível idioma a meus olhos. Além do quê, o presente deixava claro que queria me comunicar algo em especial.
Ainda nevava quando decidi deixar o café. Recuperei o local do bonde, refiz caminhos num voltar sem mapa. Alguma espécie de voz se desdobrava de meus inconscientes. Dos profundos me emergiam escaramuças, como bruscos golpes de rédeas, a me desviar os animalescos cavalos da alma por inesperadas direções num pensar nada errante, nada improvisado, mas que se doava no correr dos momentos. Uma espécie de certeza não planejada, não explicada e nem argumentável. O instante existe, e nele está tudo, sempre. Não precisamos estratégias, adoecemos em errôneas ambições. Escoava destino afora, humano adentro, quase irresponsável. Mas não: Palmilhava sonhos extraordinários, as alavancas apoiadas nas dimensões invisíveis, mas perfeitamente viáveis. Algo se pegou ali nos meus olhos, tão mais exigentes, microscópicos, inteligentes, de águias. Como que feito de poesias, algo de sutil e impressionante beleza parecia embalar e dar sentido a todas as coisas.
"Quem é Este,
por detrás da realidade,
como um manejador de títeres,
a me cotucar singelezas?"
Reverberava-me.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
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Um comentário:
Renato,
Por aqui sempre estive anônima, saboreando o imenso das suas palavras, descobrindo em você um pouco de mim, sorvendo cada detalhe, ansiosa pelo desenrolar das próximas linhas... A cada dia te admiro mais... Vamos publicar isso já!!!
Bem, o convite já está feito! Sábado à noite aqui em casa. E traga a sua "Vera", vinda de Praga, vinda de longe, com seu sorriso aberto, já imensamente querida e aguardada. Vamos nos divertir muito! Um beijo enorme, Monica ("do Bê")
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