quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Vera XX

Vera XX

O hotel, apesar de simples, era de uma simpatia só. Uma bela moça recepcionista tentou se comunicar comigo de toda imaginável maneira, mas como não falava o idioma Espanhol (Português, então, nem em delírio), recolheu-se em seu assento, oferecendo-me a chave do quarto e um olhar de boas vindas, colhendo-me a assinatura com modos muito agradáveis. Enquanto subia as escadas cobertas de rubros carpetes, conjecturava, no pensar: Será que toda comunicação, mesmo as que consideramos bem sucedidas, não resulta, sempre, em mal-entendidos mais ou menos felizes? Confia-me tua mão, leitor, quero levar-te a contemplar uma idéia.
Ainda que me peças um singelo copo d'água, em alto e bom Português, posso decepcionar-te, trazendo-te uma água gelada demais, além de suas expectativas. Como se não o entendesse. Ou em grande quantidade, ou o contrário. Ou gasosa, que por infeliz acaso, não te agrada. Ou quente e do filtro, ou mesmo provinda daqueles aparelhos que já fizeram moda, ozonizada. Em algum aspecto, parecerá mesmo que não te entendi. Podes retrucar-me, dizendo que bastaria explicitar aos detalhes a água por ti desejada, para que eu, com a melhor de minhas vontades, seja capaz de acertar-lhe na mosca o desejo. Mas é exatamente aí que se encontra o problema: na bendita e obscura palavra "desejo". Como entender e expressar o que se deseja? Como receber e entender a informação comunicada, no exato?
Conhecemos o real objeto de nossos desejos, no detalhe, na arisca mosca? Asseguro-te que, explicitados dentro do possível, às filigranas, todos os detalhes de seu desejado copo d'água, o máximo que eu ou qualquer ser humano especializado em servir copos d'água perfeitos seria capaz de proporcioná-lo seria algo a que seu desejo pudesse ser mais ou menos correspondido, sempre num parcialmente. De resto, recebemos o copo d'água mais ou menos desejado e nos adaptamos ao que não correspondeu, resignados. Imaginando mais um passo nesta estranha teoria, sugiro um último experimento: Servir-te-ei sucessivos copos d'água, e a cada um deles tu, receptor, irá compará-lo com seu desejo e criticá-lo naquilo de não correspondente, até que o acerto aconteça. Mas sabe o que acontecerá lá pelo segundo ou terceiro copo? Não desejarás mais um copo d'água como no início, de nenhum tipo. Não terás mais sede. O esperto objeto do desejo migra, camaleônico, nos diferentes instantes. Saiba, caro, que por isso mesmo o instante do desejo é extremamente precioso, e mais agudamente valioso é quando, por bénção do destino, no extenso e disputado tabuleiro da vida, algo lhe corresponde o pendor do desejo, nos internos, na coincidente perfeição. Quando algo lhe cai, como que luvas. A coisa certa, no momento certo, como astros celestes em perfeito alinhamento. Já experimentaste vestir um terno cortado por um competente alfaiate? A coisa parece susurrar-te um carinho, nos perfeitos caimentos. Os gestos daquele escultor de roupas engendram algo que te corresponde, não só o corpo, mas que eriça-te os pelos da alma. No assim ser, digo que um desejo plenamente satisfeito mais se assemelha com um acidente, por ser raro, e parece revelar-te um algo de verdadeiro acerca de você mesmo, nos mistérios insondáveis que somos. Gera alívios, folgas, repousos. Além da liberdade que sentes neste iluminado momento, claro. Contempla com toda atenção, amigo leitor, o momento em que o desejo mostrar-te os olhos. E deleite-o, com sapiência.
Em suma, comunicar-se esbarra sempre em algo de desejo, a mais misteriosa matéria que há. Se um indivíduo fosse capaz de não apresentar carências, este sim seria capaz de não dar um pio.
Porém, ponha-te agora no assento daquele que recebe a comunicação. Cada qual possui seus códigos internos, sabemos, seu inventário de sentidos e valores, seus acordos. Uma palavra emitida com alguma certa intenção pode acabar gerando sentidos outros, dentro daquele que a recebe, numa infeliz comunicação. Para a cor branca, num exacerbado exemplo, os indivíduos da Islândia possuem várias gradações. Sempre envoltos por cenários repletos de neve, este povo precisou desenvolver novas palavras para as diferentes sutilezas presentes nos diferentes tipos de branco. Seguramente o que denominas "branco" não será bem compreendido por eles...
Certo e importante é que, determinadas relações pessoais, as afetivas mais valiosas e frequentadas, muitas vezes perdem a força, o valor, a beleza, deixam de se desenvolver e frutificar, pelos esbarros da comunicação, ainda que em mesma língua. Quanto mais sutil o sentimento e o desejo a se expressar, mais difíceis de comunicar se tornam, complicado se fazer entender. Daí, ressentimentos, mal-entendimentos, travamentos, mágoas. É muito comum vermos pais e filhos que simplesmente chegam ao ponto de "não falar a mesma língua".
Sem contar os entraves de comunicação do indivíduo consigo mesmo, no não saber-se, no ignorar-se.
Não pude saber nem em sonho o que aquela recepcionista quis me comunicar. Nem ela soube muito de mim. Mas envolto também eu numa necessidade geral, sabidamente turista, recebi dela um pacote de objetos, coisas de utilidade para estrangeiros, como um útil mapa da cidade, horários de bondes e ônibus, as estações de metrô, passeios turísticos, concertos de música clássica, casas de show, e etc. Sobre a pequena cama, espalhei também as cartas de Vera, e acabei lendo-as uma a uma, num misto de investigação e saudade. A propósito, que palavra de mistérios paradoxais é esta, presente apenas em nossa Portuguesa língua: saudade. Deixemo-nos ficar um instante em sua estação.
Aquilo era um sentir falta, porém amadurecido, denso, físico. Na saudade, somos capazes de sentir a presença do bem, intensa, interiorada: a memória vibra, e as consequências disso se desdobram, tornando-te feliz no ir daquele contemplar, nas memórias que revivem. Muito ocorre de se ser mais feliz assim, no recordar, até mais que na própria hora em que se viveu o estar junto: por melhor compreender os motivos e nuances, por sermos capazes de parar o ir do filme no ato de lembrar e refletir, e abarcarmos as sensações nos finais vereditos, estabelecendo para nós mesmos que aquilo foi mesmo verdadeiramente especial. Porém, a dor que se desprende da saudade está no próximo instante, no contemplar radical da absurda ausência do bem amado. Então, na saudade, sentimos a presença aguda, incorporada e rememorada do bem, mas também e no simultâneo, a sua ausência resoluta, imposta, intransigente. E o que é confuso acaba por doer mais, por ofender o coração e também a razão. A saudade é prazer e dor, como álcool e água, na íntima mistura. Eu sofria aquilo, mas no me resistir sóbrio, percebia que assim todo o sentir se vertia em sofrimento diverso. Aquilo era um sofrer que me amolava as facas, me enchia as taças, me soprava as brasas me arrancando fogo. E me sabia: melhor é não se esconder da dor, urdindo desesperos, jamais. A dor bem vivida, em silente solidão e paciência, justa, é capaz de te alimentar, te encorajar, te preparar.
Passado o torpor da aguda dor, retomando razões nas práticas investigações, pude aferir que Vera escrevia de diversos endereços aqueles diversos envelopes, como que cambiando residências. Encontrei alguns deles no índice do mapa. Exausto, porém, dormi várias horas concentradas num tempo que me pareceu de poucos minutos, em meio a todos aqueles papéis. Fazia meio escuro, em lusco-fusco, quando me chamou a campainha: era o taxista, por quem vi que já passara das nove da manhã. O amanhecer era muito tardio, e eu ali perdido entre as muitas novas diversas coisas, inclusive as naturais.
Apertou-me a mão num demoramento a mais. Não haviam palavras, apenas balbucios, olhares, gestos. Migramos pelos diversos endereços sem encontrar ninguém, e no último deles conseguimos surpreender um alto senhor, que fechava a porta externa. Tentei conter o homem, que se esquivou em enérgico movimento, quase que tapando os olhos. Sacodi o envelope diante dele, assustado, dizendo "Vera, Vera!", compulsivamente. Ele entrou, atabalhoado, num carro pequenininho, que eu nunca havia visto um igual. Incrível um homem daquele tamanho caber ali dentro. E se mandou a pouca velocidade, o carrinho explodia óleos no motor que fumava. O taxista veio pra fora, passou por mim, e foi olhar a fachada do antigo histórico edifício, onde haviam pequenos cartazes afixados. Ao que voltou, me puxando pelo casaco, me apontando um cartaz daqueles, em especial. E me perguntava coisas, ávido, batendo o indicador naquilo com força, como que querendo me arrancar algum sentido, mas com palavras que eu, pobre, não entendia. Me apontava no cartaz um sistema solar desenhado, com uma rota pontilhada e um planeta Terra bem distante do sol. Ele pareceu entender tudo, por aquelas alturas.
Depois dali, me levou de volta. Mas antes, do lado do hotel, parou o carro e me ofereceu um cerveja, aos gestos de mão. Havia uma fábrica bem ali do lado de minha transitória residência, e aquilo emprestava ao ar um intenso aroma de ração de cachorros. Sentados na mesa, diante de copos gigantescos, ele me fez vários desenhos. Não entendi nadinha. Mas sua simpatia e dedicação me enchiam os olhos. Aquele homem dos longínquos impossíveis se interessara por mim e por minha causa. Mas como?

3 comentários:

Fabiana Pinheiro disse...

Gostei bastante deste texto....está diferente dos outros.. e não sei se foi intencional ou não mas, me lembrou muito Machado de Assis...Bela homenagem ao nosso célebre escritor ... Bravo !!!

Abraços
Fabiana

Anônimo disse...

Então o boechat tem um blog!!!!! eu tbm cara... olha aí: rodrigozanatta.wordpress.com.br

Anônimo disse...

Li o texto tbm.... e devo dizer que, a parte as diferenças de estilo, vc tá parecendo um psicanalista lacaniano... ehehe...