quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vera XIX

Vera XIX

Existi naquela noite, de alguma forma, com dois pés no chão, e por isso, no oblíquo e no sublime, a pois: estar no real completamente é o que pode haver de mais mágico e graticante. A ponto de toda a ração de vinhos e uísque sorvida em exageros naquele banquete espanhol não me contragolpear em ressacas, na manhã do próximo dia. Que nada, a coragem que de mim eclodiu naqueles instantes diante da belíssima artista espanhola, foi capaz de purificar-me o corpo, despertar-me a mente, elevar-me a alma. A coragem despeja secretos e vitalizantes humores, abençoados hormônios, secretas as endorfinas, no dentro. Repousei poucas curtas horas, e pude me ver, naquela fria manhã, o todo potente, detentor de minhas plenas faculdades.
Mas meu amigo chefe, com seu fraco por bebidas, não experimentava o mesmo... Naquela manhã, a manhã de meu embarque para Praga, o meu dia "D", ele permaneceu no hotel desacordado, sem atender a meus brados e sacudidelas. O que vi ali, estendido naquela cama de hotel, de terno, gravata e ainda sapatos, era o retrato de nossa humana e humilde condição, a face da fragilidade. Ele, que também travava suas batalhas. Todo homem luta uma guerra, em seus infinitos internos, na disputa daqueles territórios, em si, em nós, os desconhecidos, as trevas. O homem não se sabe, no inteiramente. É mistério até mesmo para si. Quando muito, é capaz de se reconhecer na plenitude de um momento de dádiva, como a graça de um desejo correspondido. Aí sim: o homem se sente livre, apenas nos breves hiatos em que algo, na vastidão do exercício de viver o mundo, é capaz de vibrar-lhe as secretas cordas do coração, gerando-lhe as raras melodias do contentar-se. O fiel retrato do homem: via-o ali em exata dimensão, no rosto daquele sincero amigo que a mim tanto ajudou e salvou. Afora os hiatos, no mais e no quase sempre, o ser humano é miúdo, é miséria, é carente, é pedido, a propósito de sua tantas vezes encoberta insuficiência. O homem não pode fazer-se feliz.
Descalcei seus ásperos pés, de confusas e grossas unhas, retirei seu terno e sua gravata, no decorrer imenso de minha gratidão, e o cobri. Fazia frio. Ao passo que eu, vendo o progredir inclemente dos ponteiros do relógio anunciar que se aproximava o momento de meu embarque, lancei-me sobre meus próprios cascos, nas providências. Despedi-me dele com não absorvidas palavras, em monólogo. Minha absurda solidão me dava as mãos ali, no antes do previsto.
Deixava de temê-la: a solidão é uma espada que, a princípio evitas por pensar que está apontada na certeira direção de seu peito, contra ti. Mas quando a ela se oferece o próprio peito, percebe-se que a mesma arma que te fere não te consome, e agora torna-se tua mesma, para teu próprio uso. É isso, a solidão é a arma do homem que, apesar de se saber insuficiente, é capaz de se bastar na espera. nas misérias. Apenas no duro e seco terreno da solidão podem ciscar os inabaláveis frangos da coragem. Tudo aquilo que brilha com luz própria emana de algum tipo de solidão. Aprontei malas, pedi um taxi na recepção, e me mandei pro aeroporto. Eu agora falava.
E aquilo me era surpreendente. Naquelas classes de espanhol que frequentara, fui capaz de aprender rudimentos da língua, os mais básicos. E eram para mim a beira do impossível! Exercitava-os, apelando aos desumanos exercícios do repetir e repetir palavras e frases até decorar. E assim esquecia, me caía das ávidas mãos. Mas na noite anterior, diante daquela mulher artista, uma nova coisa aconteceu, como estalo. Naquele momento intui uma espécie de algorítimo, um certo coeficiente de deformação, que, mal explicando, aplicando-o sobre as palavras de uma língua, esta tornava-se a outra. Claro que existiam exceções, e graves. Porém as classes de espanhol a isto me acudiam, emergiam-me seus ensinamentos no ligeiro do momento de ouvir e de falar, as idéias vivas, espertas, dinâmicas. Ah, caro leitor, sabemos mesmo dos mistérios que carregamos sobre nossos pescoços, entre as orelhas?
O obeso motorista de taxi perguntou-me de onde viera, e para onde rumava. Espantou-se duplamente. Deu-me conselhos e dicas sobre trocas de moedas, embarque e desembarque no aeroporto de Praga, o eficiente transporte do lugar, as objetivas providências. Elogiou a cerveja e a beleza do lugar. E também meu espanhol!
Meu temor aéreo encobri-o como um ator, assumindo o ar afetado e falsamente enfadonho de quem viaja de avião. Na breve viagem, nada bebi além de água. Alimentava o corpo com o apenas necessário. Algum estranho abster-se sugeria-se em mim, como se o afastar-me dos exageros me mantivesse mais no real. Eu queria estar totalmente em todo momento de meu ir naquilo, pedia quase rezando, à minha própria alma, que não me abandonasse ali. Eu me precisava muito, totalmente, para o sobreviver no imediato do desconhecido vindouro, e também para possuir meus próprios olhos. Desejava o mais justo mirar nos olhos de Vera. Necessitava eu do todo de mim, seja para trazê-la de volta comigo, seja para o íntegro solitário retorno.
Quase monástico, desci do avião. Meus pés interioranos palmilharam próprios o gelado solo daquele diferente lugar. Estas coisas a cabeça não entende, rateia, titubeia, espanta. Me pensava: "Deus meu, onde vim parar...", e absorto, tinha um pescoço quase de coruja, que a todas as direções apontava, colhendo as fartas visões que se me ofereciam. Eram cinco da tarde, e fazia noite intensa, de neblinas, e muito frio, no inenarrável.
No taxi, o início da incomunicabilidade fatal: à partir dali, senti, tornara-me praticamente um surdo mudo. De minha mala, retirei uma caixa de sapatos, local onde depositara as cartas de Vera. Entreguei uma delas ao homem, apontando o espaço que continha as informações do remetente e o endereço. Leu, e virou-se abrupto em minha direção, dizendo coisas naquele idioma de milímetros sonoros, como cacos de palavras detalhadas, minúsculas e rapidamente articuladas. Eu gesticulava com meu indicador, aos piparotes no envelope, numa ênfase. Em meus ouvidos não existiam as engrenagens próprias capazes de receber aqueles sons e fazer desenvolver a roda do sentido. Ele calou, olhou-me um instante mais, respirou fundo, deu de ombros e resignou-se. Em dez minutos, cruzávamos o centro de Praga.
As ruas estavam agitadas, carros por toda a parte, mas o trânsito se desenvolvia no mesclar de veículos, incluido bondes, em pacíficas regras de convivência. Com mais meia hora já estávamos na estrada novamente, atravessáramos a cidade, e sempre aquela nuvem negra densa, de neblina e chuva fininha, gelada. Pareceu-me tudo ao redor o medonho, o sinistro, o frio e desumano. Até ele sair para a direita e parar o carro, e apontar o indicador para o meio do breu. Abri minha janela, e só pude ver os contornos de uma grande habitação, larga, alta, no profundo de um terreno. Era um descampado, no meio do nada, nem barulho de bicho se ouvia, só o motor do taxi. Fiz com a mão que me esperasse, ao que entendeu. Ele apontou o carro, e acendeu faróis, para meus passos.
Rumei e o que vi foi, simplesmente, um alto muro e um portão negro fechado, lacrando a visão para os internos do lugar, e nenhuma luz, som ou sinal de vida lá dentro. Procurei uma campainha, e nada. Bati palmas, bati no portão, emiti sons como que grunhidos, e nada simplesmente se moveu, recebeu, ressoou. Subi no muro, pra espiar. E não havia nada nem ninguém ali. Voltei ao taxi, morto de frio. O homem agora fumava, e me apontava atentos olhinhos miúdos. O frio parece diminuir o olhar das pessoas. Completamente impossível se saber o que se passava por sua imensa cabeça calva, ladeada de profusa barba, acizentada.
Puxei um lápis, e desenhei nas costas da carta, com traços infantis, uma casa sob uma placa onde escrevi "Hotel". Ele sorriu, falando "rrotél, rrotél!". Virou o carro, ofereceu-me cigarros que agradeci mas não aceitei, e sem se importar com o fato de que eu nada entendia, ele começou a falar muitas coisas pelo trajeto, a me apontar construções, praças e um rio. Lembrei-me da carta de Vera, uma foto sua numa ponte sobre o rio... "Vlatava!", falei alto. O homem sorriu-me imensamente grato, repetindo em meio a risos "Vlatava, Vlatava!". Aquela era a única palavra que tínhamos em comum, e a usávamos como imenso sinal de mútua simpatia.
Deixou-me num hotel simples, na certa percebeu-me uma pessoa simples. Desta feita, ele próprio pegou meu lápis, e desenhou um relógio marcando nove horas, e ao lado, duas montanhas e um nascer do sol. E falava "Zítra, zítra". Marcara comigo um encontro para a manhã do outro dia, assim entendi, e soube-o: comovera-se, ajudaria-me.

Nenhum comentário: