Vera XVIII
A máquina marchava pelos ares resoluta, em ângulo propício a adquirir altitude, vencendo alturas, superando gravidades, erguendo-nos. Lá fora, o mundo acabava em águas, as chuvas, as torrentes, em generosas abundâncias. "Não é perigoso, voar assim, com chuva?", balbuciei ao amigo tutor. Pois antes de sua resposta, a todos rebentou um saculejar vigoroso, com luzes indicativas de obrigatoriedade quanto aos cintos de segurança, e aquela apreensão crescida, capaz de tornar o ar duro, denso, difícil de respirar. Eu me perdia em certo enjôo e pressão nos ouvidos, cordeiro naquilo, me segurava e nem esperava mais resposta.
Já parou pra pensar que vivemos em meio a um contrato, uma certa confiança que se estabelece, uma certeza presente mas não dita? Naquele momento, então, isto saltou-me aos olhos. Quem era o piloto? Era ele um sujeito preparado, eficiente? Sabia-se que sim, mas como se sabia? Algum de nós ali verificou, alguém pediu a ele qualquer tipo de certificado com horas de vôo ou coisa que o valha? E se soltasse um parafuso da asa? Será que foram bem apertados? Seriam eficientes os mecânicos e acertadas suas revisões? E também que história era aquela, apregoada aos sete ventos, de que o avião era o meio de transporte mais seguro? Será mesmo? Se aquilo caísse ali, não sobraria ninguém, nem mesmo o piloto para contar a história. Normalmente ninguém sobrevive a um acidente aéreo. Daí a invenção do singular dispositivo, a caixa preta, a única remanescente capaz de explicar ou ao menos sugerir o motivo de um acidente. Meus Deus, aquilo poderia cancelar nossas vidas, amores, esperanças, num átimo. Mas de qualquer forma, o sentimento imperioso do "Isto só acontece com os outros, e nunca comigo" é uma espetacular ferramenta psicológica de defesa. Empunhei-a.
No mais, só podíamos nos segurar e esperar...
Bem, o que nos veio no suceder daqueles instantes foi a coisa mais bonita que já vi, derramando-me cascatas de maravilha espinha a fora, no contemplar dos dons e lonjuras e vastidões do imenso aparelho que é este mundo. O avião superou aquelas turbulentas chuvosas nuvens, e ganhou as plenitudes douradas de sol, no além. Seu brilho molhado de pós chuva realçava multicoloridos arco-íris em sua super estrutura, exercendo-se no invencível, sólido, estável, potente, deslumbrante. As nuvens, sabidamente gasosas, mais pareciam sólidas estruturas, delicadas, macias ao toque, e apesar de negras, quando vistas de baixo e de dentro, dali mostravam-se ultra alvas, numa tonalidade de branco impressionante, inexplicável. Meu Deus, que coisa é o homem. Seria tudo aquilo para mim um sinal, uma forma nova de ver o que experimentava, no manter-se firme para o atravessar de minhas internas turbulências? Silencioso, beliscava-me, alertava-me, dava de comer a meu espírito naquelas associações.
A coisa acalmou-se, e assumiu novas dinâmicas, com bebericagens e comilanças, no fino trato de aeromoças penteadas impecáveis e grossas meias-calças. Acompanhei meu amigo em duas doses de uísque, para os oportunos relaxamentos. E funcionou. Dormi intensamente, mesmo no mal acomodar de poltrona. Acordei horas depois, naquela espécie de universo paralelo. Difícil ter a consciência de que voávamos por todo aquele tempo. Parecíamos estar parados, alienados do real transpor de distâncias oceânicas.
E o mais foi a estranha experiência da aterrissagem, que mais me pareceu um se deixar cair na exata proporção, no dosar exato de instrumentos como que velas, que modulavam nas asas as direções precisas e desejadas, naqueles inteligentes controles. Após o tocar no solo, freios fortíssimos atuaram, na antiviolência de conter o desembestado aparelho. Eu fui tomado de gozos mecânicos, impressionado com detalhes que nem pareciam reais àquelas pessoas de aparência fresca, afetada. Parada a máquina, um sonoro desafivelar de cintos e agitação geral: aqueles indivíduos mal se continham, tomando malas, preparando-se para deixar o grandioso veículo e ganhar seus particulares rumos. A voz que nos chegou nos alto-falantes falava agora em espanhol. E eu, pobre de mim, não entendi nada. Só ouvi meu amigo dizer: "Pega seu casaco, está frio".
E lá estavam eles no saguão do aeroporto, dois dos três espanhóis que conheci no escritório, em seu habitat natural, a nos receber calorosos em pleno inverno europeu. Fui abraçado pelo falante, de estranha gengiva, que não continha sua agitação e, ignorando o fato de que eu nada entendia, disparava em minha direção frases repletas de entusiasmo. Contido, o segundo espanhol, o silencioso senhor de gordurosa calva, apertou-me singelamente a mão. Pelo que entendi, o pequeno espanhol de lentes armadas douradas e voz metálica, o chefe maior, se juntaria a nós posteriormente. Meu amigo chefe intermediava o essencial de conversas. Aliviou-me saber que não estávamos ali para trabalho, apenas para o conhecer da sede e suas pessoas, numa intensa troca de mútuas simpatias.
Mas qual, impossível não se agitar o espírito numa ocasião daquelas. A metrópole Madrid sugava meus olhos com avidez, desvelando-se em imagens de grandiosa beleza, imprimindo em minha memória arquiteturas fascinantes, de imponentes fachadas e importantes históricos monumentos. Perdi-me naquelas diversas culinárias, no sabor de vinhos e peixes, nos usos e costumes de um povo consciente de sua história e valores. Tudo me gerava interesse e graça, e percebendo-o, o espanhol de gengivas estranhas incutiu-me mais pólvora, pondo-se a mimar-me, a tudo apontar-me e iniciar-me. Eu me inclinava diante de tudo aquilo num abestar-me, contemplando monumentos e igrejas seculares. Numa delas, de altíssimo teto, chamada San Jerónimo el Real, retirei-me um pouco intimidado dos demais, e na bagunça de meu coração, rezei palavras errantes. Em minha desconcentração pedi por mamãe e por mim, na estranha enormidade daquele templo. Mas nada parecia parar, não havia paz ou sossego em nada, nunca.
E via também, e talvez mais, o invisível, o tempo no entorno de tudo aquilo, no antigo tão belamente conservado, abrindo olhos de gerações vindouras, agraciando-as com um fazer parte, uma espécie de elo, numa corrente construída à paga de sacrifício de tantos antepassados. Corrente capaz de atravessar séculos, aspergindo dignidade na alma de todos, mesmo no menor de seus cidadãos. Os sólidos valores da tradição, o corpo do povo, da pátria. Aquilo, presente no ar de tudo, enchia-me os olhos. Era capaz de contemplar longamente uma calçada, uma janela, uma simples escada. Todo o zelo e perfeito cuidado se expressando no construir daquelas corriqueiras coisas, ensinando a meu espírito que se deve viver o cuidado com o detalhe, o capricho. Por sempre me demorar mais que os demais, penso que eles me tinham meio como que abobado, o mole, sempre andando mais atrás que todos. Eu me sabia: afiava meus olhares naqueles fascínios.
Lá pelos últimos dias daquela jornada que mais parecia uma febre, apareceu-nos o terceiro espanhol, o pequeno homem de voz metálica por detrás das armações. Pareceu-me, pude notar-lhe logo à primeira mirada, bastante abatido. Em seu olhar pousava um quê melancólico, pesante. Porém, com a agilidade de convites e propostas, que novamente mal entendi por espocarem em vocábulos intraduzíveis a mim, lançava-nos a um artificial dinamismo, no afã de desviar-se de seus internos incômodos. Propôs-nos dois singulares programas, para as despedidas: Uma tourada no dia seguinte, e um posterior espetáculo que, francamente, precisarei inventar palavras, caro leitor, para dividir contigo a agudez de tão profusa beleza.
Saiba, caro e companheiro viajante leitor, que alguns eventos têm a jóia de evidenciar com particular e perfeita graça o genuíno coração de um povo. Naquela tourada, quanta beleza e harmonia humana diante da explosiva estupidez animalesca do touro. Ludibriado por aquela cortina vermelha, toda a instintividade do pobre e corpulento animal se deixava manejar pela malícia e ousadia técnica do toureiro. Era a dupla solidão de ambos que se enfrentava na arena, inflando de coragens os espectadores que urravam glórias, quão mais perto da morte se colocava aquele hipnótico toureiro, em seus trajes impecáveis e posturas singulares. Estava claro que não só o touro estava em seu domínio, e sim todos nós, ali, como sendo ele. Ele vencendo nos conduzia à vitória, como num projetar-se. E aqueles homens e mulheres e crianças, aquele povo expandindo fúrias, farejando guerras, dominados e realizados por aquilo. Meu chefe amigo protestava secretamente comigo quanto à violência do que estava por vir. Dizia não gostar das touradas. Eu ia bem no embalo da coisa, mas quando vi a vitória do toureiro se consumar nas várias espadas enterradas no alto e no flanco do touro, chocou-me, dividiu-me, confundiu-me. Lembrei-me de meu pai, que tantas vezes em nosso interior vi sacrificar um boi com golpes de machado. Mas aquilo era outra coisa, era para comermos, sobrevivermos, não era um espetáculo. A tourada se fazia num amálgama de solene e profano. Uma espécie de orgia covarde se punha junto aos ideais de coragem que fazia aquele povo precisar daquilo. Os amigos espanhóis, mesmo o calvo gorduroso quieto, abraçavam-se emocionados, bradando sei lá o quê. Sentei-me encabulado, pois realmente a coisa não poderia terminar de outra forma, para a eficiente catarse. Calei-me.
De noite, fui levado a uma espécie de clube de importantes cavalheiros e damas, nos melhores trajes. Eu vivia, sentia. Presenciaria um espetáculo flamenco. Sentamo-nos numa excelente mesa, imediatamente ao lado de onde dar-se-ia a coisa. Generosos suprimentos de vinho e diversos seqüenciais pratos, ao que me inclinava num torpor absoluto dos sentidos, naquelas carícias de prazeres gustativos, vividos à boa mesa. Alimentos e bebidas que se harmonizam, aromas desconhecidos, temperos inéditos, frutos do mar. Lembrei-me ali, confesso, do distante tempero de mamãe, que adorava cozinhar com coentros... E à certa altura, num golpe, as luzes se esvaíram, nos deixaram apenas com as velas, num quase breu. A atmosfera do salão encheu-se de mistérios com o adentrar daqueles artistas, três homens de roupas negras. Um executando um violão de maneira engenhosa e rápida, os outros com ritmadas palmas e vocativos e roucas exclamações. Eram gritos, gemidos de uma dor profunda, da alma. Eles faziam música com aquilo. Ao que veio a se somar uma mulher.
Como dizer? Ela veio da escuridão com passos ruidosos, no exato pulsar da música, dançando, sapateando e fazendo esvoaçar um vestido de intenso vermelho, evoluindo enigmas e arrancos, numa coreografia a um mesmo tempo abrupta, violenta e surpreendentemente feminina. E cantava vigorosamente, por todo o salão reverberava sua imensa voz natural, exalando um sentimento impressionante. Seus longos anelados cabelos negros jaziam presos em perfeita composição com seu rosto alongado, de nariz presente e afilado, sobre um pescoço forte, vigoroso. A certa altura, enquanto cantava, fixei-me no vermelho de seus lábios que se moviam, e, juro, simplesmente aconteceu: entendi suas palavras, todas, uma a uma, no detalhe e no bordar da inflexão daquelas estranhas melodias. Ela cantava:
SIN FIRMAR UN DOCUMENTO/
NI MEDIAR UN PREVIO AVISO/
SIN CRUZAR UN JURAMENTO/
HEMOS HECHO UN COMPROMISO./
SIN PROMESAS NOS MARCHAMOS/
NI TE OBLIGAS, NI ME OBLIGO/
Y AÚN ASÍ SÉ QUE SOŃAMOS/
TÚ CONMIGO, YO CONTIGO./
TU DESTINO ES COMO EL MÍO,/
SI ERES VELA, YO SOY VIENTO,/
SI ERES CAUCE, YO SOY RÍO,/
SI ERES LLAGA, YO LAMENTO./
NADIE HABLÓ DE ENAMORARNOS/
PERO DIOS ASÍ LO QUISO/
Y TAN SOLO DE TRATARNOS/
HA NACIDO UN COMPROMISO./
TU DESTINO ES COMO EL MÍO,/
SI ERES VELA, YO SOY VIENTO,/
SI ERES CAUCE, YO SOY RÍO,/
SI ERES LLAGA, YO LAMENTO./
NADIE HABLÓ DE ENAMORARNOS/
PERO DIOS ASÍ LO QUISO/
Y TAN SOLO DE TRATARNOS/
HA NACIDO UN COMPROMISO./
UN COMPROMISO./
Saboreei cada palavra com aquele mel que a música ajuntava, vidrado naqueles lábios cinematográficos, que ao perceber minha robusta comoção, dirigiam-se agora tão somente em minha direção, em exclusividades. Era já mais que notório que aquela belíssima mulher cantava para mim, ao que me pus involuntário no momento, num corresponder de coisa, na coragem de se ser no diante de tantas testemunhas. Mas qual, ela mal entendeu-me. Não foi por coragem. É que eu pairava em suas palavras, entendendo-as e deixando-me sonhar por suas poesias. Extracorpóreo, me fazia estar diante daquela que, "sem assinar um documento, juramentos ou prévios avisos, havíamos feito um compromisso". Eu estava com Vera. Daquela que "se era vela eu sou o vento", ou o contrário, ou tanto faz. Nosso acordo tácito, desdobrando-se na misteriosa ocasião, na letra cantada por aquela mulher.
Diante da máxima beleza além mar, espanhola e flamenca, meus ouvidos e minha língua de desenrolaram. Soprou-se em minha face o hálito fresco do amor, vindo dos porões da memória que a tudo torna presença e revigora. A Beleza, própria, me emprestara um rosto para lembrá-la. Vera. Na manhã do dia seguinte, deixaria os amigos e a Espanha. Meu destino? Desvencilhado e só, tentando me fazer livre, rumaria a Praga, almejando finalmentes.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
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