sábado, 12 de julho de 2008

Vera XVII

Vera XVII

Dava-me àqueles preparos meio que sem olhar aos lados. Dava-me aos objetivos me esquivando de perguntas, de qualquer duvidoso questionar. Ia adiante no clarear do juízo de meu chefe que indicava direções e no apelo da mãe de Vera, que me pedia o resgatar da filha. Dava-me àquele acudir no total da incerteza que me picava. Tomando as dinâmicas providências, tantas, as todas, esquivava-me de meus densos e receosos pensamentos. A verdade é que por dias tentei fugir de mim e meus lacaios temores.
Até que uma incômoda fila na Polícia Federal cozinhou-me os ânimos, para o desconhecido mas simples retirar de um passaporte. Minhas águas gotejantes transbordaram copos. Faziam greve aqueles que lá trabalhavam, e o serviço arrastava-se, numa tarde longa e monótona. Vi-me em imensa solidão, e provando amargas doses do fel do medo. Aqueles eram meus quarenta dias e quarenta noites, um tempo para tentações e conflitos, os mais extremos, sabia-o. A pois, chegava-me a dúvida, aquela zoeira, de todos os cantos do pensar. Com uma senha nas mãos que constava cento e dezenove atendimentos a esperar, dediquei-me ao hediondo e histérico exercício de mal pensar. A macerar o rubro urucum do medo e a me untar daquele ungüento. Os mais altos poderes destrutivos do imaginar.
Pois que nossa estrutura humana tem inscrita na névoa de seus mistérios, uma sua rocha de instintos. O mais básico e primeiro, este, o instinto da sobrevivência. Sendo que aquilo que nos é bom e prazeroso, por não nos ameaçar a sobrevivência, se instala em nossa memória com registros débeis, frouxos. Por outro lado, portamos uma inarredável mania de registrar de forma incisiva e definitiva aquilo que experimentamos de mal. No negativo, somos animais de perfeita lembrança. O que nos doeu e aviltou, o corpo e a mente guardam como que numa tatuagem, para um prevenir mais eficiente, se algum dia for o caso de se repetir a má ocasião. E assim, no desenrolar do comportamento geral nosso, o repetir de ações determina certos padrões de comportamento, como que equacionados pelo embate da personalidade e da alma do indivíduo que se move impulsionado pela turbina do desejo, com a experiência do real, no extenso e intricado tabuleiro de xadrez do viver. 
 Pois bem, amigo, desses registros, os maus, me sentia um cartório deles. Eu, o negativo, em negra nuvem. Mas e a realidade justa e neutra? A vera realidade e sua balança fiel para a criteriosa escolha do proceder? Onde estava, como mirá-la? Como apelar às saudáveis decisões, como me pôr em estado de fé e acerto, se meus olhos eram ali tão somente reféns de uma espécie de seqüestro em que o medo e o trauma exigiam impagável resgate? Perdido, entreguei-me aos chutes e pontapés daquelas vândalas ruminações.
Pensava-me, convicto, um perfeito idiota. Mordia-me em carências, fazendo caminhos de volta no retro-suceder dos fatos, daquela noite de encontrar Vera na discoteca. De depois revê-la em nossa comum cidade do interior. E depois tê-la por uma noite apenas, e acordando sozinho, num despencar das nuvens. E o mais foi a pouca ração de se sobreviver, as mínguas de um amor robusto que se arrastava em inanições. A tudo observava com olhos vazados de dor. Um homem não deve fazer isto, definitivamente não deve. Deve sim aplicar-se a reconhecer a beleza possível, e muitas vezes recolhida em sutilezas, em tudo aquilo sobre o qual dedica seu olhar. Mas não, eu errava nas lembranças, desprezava-as profundamente, na turbulência de minha solidão. Com os olhos doentes não se deve revirar as belas páginas da memória, aprendia-o. Pois é no coração do ser que mora e vibra o valor, que salta aos olhos no atribuir, por se reconhecer que tudo o que se tem, que se vê e se é, guarda seu tanto de preciosidade. Eu trocava por bananas minhas jóias valiosas, naqueles conflitos.
No bolso vibrou-me o celular. Era meu chefe, me estendendo uma corda, tentando erguer-me daqueles infernos. As passagens já estavam em suas mãos, inclusive do trecho tcheco que eu cumpriria sozinho, nas aventuras. Senti-me como que esquartejado, novamente na confusão de vetores que acorrem a diferentes opostos lados. Era-me instigante o mundo, mas temia o desconhecido desenrolar dos destinos daquilo, desde o ter que se virar nas ocasiões de estranhas línguas, à possível (e naquele instante mais que provável a meus olhos) rejeição que sofreria de Vera. Como voltar pra casa após olhá-la nos olhos e na cicatriz, e ouvir de sua voz um sonoro não, um ranger de porteira fechando-se, um coice nas costelas da alma, um estalar de tapa na anca de minha mula, repelindo-me? Como, dileto leitor? Acabei respondendo a ele com um vago "Que bom..." que mais parecia um gemido. Ele soube de lá que eu já me encontrava em franca deserção, na fogueira das tentações e do interior tormento. Só disse: "Não faça nada, não tome providências, entrega o corpo e o resto ao que está pra acontecer. Seja simples, deixa a vida te levar. Vai dar certo."
Dois dias antes da viagem, soprei 30 velas sobre um humilde bolinho, todo ele feito de chocolate e biscoitinhos doces. Foi lá, no lar daqueles velhinhos pobres, junto a eles e a meu irmão, que me senti abraçado e verdadeiramente consolado, talvez pelo compartilhado, comum e reconhecido portar de misérias. Miseráveis e doridos o somos todos, no real. No mais sonoro silêncio do abandono, alguns em cadeiras de rodas, outros no leito envolvidos de panos, as francas nuas gengivas sorrindo felizes para mim, numa espécie de bênção que apontava nítida a meus olhos a imensa fortuna de viver, o vertiginoso monolito que somos, existindo. Emocionava-me o genuíno rebentar da gratidão, como um nascer de rio, em pequenos e pobres brotos de água que minam da terra, cristalinos, e que se juntam para correr em grande volume e ser a casa dos peixes. Toda aquela vida difícil, estampada naqueles olhares que tão belamente me guardavam, como que purificavam meus fluidos, abastecendo-me as matulas para o enfrentar de vindouras dificuldades. Que é a vida, afinal, senão o pleno cascatear de paradigmas, aos dominós?
Numa manhã molhada de abundantes chuvas embarquei no grande pássaro metálico. Meu chefe deu-me a janela, iniciando-me. Atento, eu observava as instruções de segurança, as manobras pela pista, e um quê geral de sutil desconforto e apreensão. Meu chefe lia no jornal o caderno de notícias de esporte, e eu, naquele agora, já havia involuntariamente cerrado as portas do pensar, me sentindo estranho, como em estado de sobrevivência, no alerta e torpor dos básicos instintos.
Imagine, mais de duas centenas de pessoas ali dentro, e suas tantas bagagens, os suprimentos para o serviço de bordo, a própria aeronave e o mais que nem sou capaz de conceber. Tudo aquilo ali, pesando toneladas, compondo o enorme aparelho. Que milagre escandaloso o homem e suas engenharias nos proporcionou! E o mais: quão ousada fora a mente que um dia, mesmo tendo conhecido o mundo no obrigatório rastejar da superfície terrestre, foi capaz de sonhar uma coisa daquelas, com o avião? Saiba, amigo, que o mais corajoso é aquele que sonha as maravilhas, e com seu irrevogável desejo acaba por mover as fronteiras do impossível. Nos meus internos, eu temia e vibrava.
Até que terminadas as manobras preliminares, o avião apontou sua seta ao infinito, e ouvi o impressionante grito daquelas turbinas. E aquilo desembestou pista afora em linha reta, numa velocidade mais que animalesca, impensável. A naturalidade de todos ao redor me fez pensar cá de dentro: "Deve estar tudo bem, deve ser assim mesmo". Freei minhas desconfianças, chequei meu cinto de segurança e me entreguei ao absurdo de tudo aquilo. Dentro de mim jazia um Eu todo interiorano e tão menino, que ia a toda velocidade para os infinitos braços do mundo, e seus homens de negócios, e o seu velho continente, e sua história, e todo o desconhecido, e a beleza, e o desenvolvimento. E Vera: minha impossível possibilidade de amor.
Impossível?
E foi num exato e mágico instante que a coisa se deu: simples, o avião saiu do chão, erguendo-nos para uma sensação de infinita e inimaginável liberdade, por aqueles caminhos de ar. Todas aquelas toneladas voavam, verdadeiramente voavam! Nada mais me era impossível, soube-o. Olhei à esquerda, meu chefe, irmão, agora de jornal dobrado sobre o colo, voando comigo, apenas olhava-me, lia-me, acompanhava-me, sorria-me.

Um comentário:

Fabiana Pinheiro disse...

Puxa ..que surpresa !!! Interessante ....mesmo !!!

Fabiana