Vera XVI
O abrir de envelopes se dava em taquicardias e no tremular de mãos. Aqueles agora tinham considerável volume e peso, no comparar com as exíguas correspondências até então recebidas. Vera exultava de alegria, de maneira discreta e equilibrada, naquele dizer desenhado em tinta e papel, que jamais alguém até então se interessara tanto por ela. Eu me fazia real, naquelas persistências. Ela denunciava a lacuna, no formar do caráter moderno, das coisas que persistem e duram e varam. Dizia que muito do que há de valor na história humana, mas também na história pessoal, depende do fôlego, da força capaz de manter o sujeito firme e sem desvios, no rumo de metas e fascínios, nas catedrais internas construídas a pago de teimosa dedicação, em meio às tempestades de nossas modernas impaciências e iras. Eu, que esperava apenas por suas notícias, me fui entrando naquele pensar, meio que sem entender, pra dizer a verdade. Ela me movia novas e desconhecidas engrenagens, vencia ferrugens e emperros. Liberei manivelas, deixei frescos ventos soprar minhas pesadas pipas, às alturas daqueles pensamentos, pelas vertigens.
E as notícias, enfim, as razões. Tantas fascinadas razões. Os caminhos do vivo coração de Vera materializando pegadas pelo mundo, sua imensa curiosidade e séria dedicação espiritual, na pele de um se dispor sem limites. Quanta coragem, meu Deus do céu! Num daqueles calhamaços pôs-se a relatar em pormenores o que a levara para tão longe. Nos arredores de Praga, na antiga Tchecoslováquia, a atual República Tcheca, situava-se a sede de uma tal comunidade, que cresceu em isolamento devido ao regime comunista que lhe impedia divulgações ao mundo ocidental. Com o colapso do regime e conseqüente abertura capitalista, a informação do que ali faziam e pretendiam chegou a Vera, por intermédio de eficiente boca a boca, no centro de atividades de yoga a que se dedicava semanalmente. Por não ter pretensões de agitação política, aquela ideologia pôde se desenvolver com toda tolerância e até algum incentivo do estado Tcheco comunista. Mas hoje, com as aberturas capitalistas, recebia peregrinos de todo o mundo. Afivela teus cintos, interessado leitor, adentraremos mistérios.
É que a ciência moderna agitava bandeiras renovadas no raiar do século vinte, sendo que a física dava mãos às antigas religiões orientais para melhor explicar suas novas tendências e achados. Vera me doutrinava, naquelas extensas linhas escavadas de tinta azul, com novas e curiosas definições da realidade, conceitos básicos revolucionários que movimentavam minhas primeiras noções de como ver e perceber o mundo. Relatava em eufóricos tons experiências acontecidas por intermédio de longos períodos de meditação. Dividiam-me suas intuições.
Afirmava a geral incapacidade de contemplar a realidade última das coisas e fatos que nos cercam. Que a mente e o pensar exercem grave e decisiva influência sobre os fatos. Secretas relações entre consciência e realidade. E partículas, e ondas, e físicas, e quânticas, e mecânicas, e o escambau. Vera entrara naquilo de corpo e alma, submergira naquele ideário de coisas, fora habitar a excêntrica comunidade que assegurava ter desenvolvido uma tal metodologia, para um atingir de algo a que denominavam "salto quântico". Através de longas meditações, extensa aprendizagem científica, e sacrifício pessoal dos chamados "afetos do ego", tal salto seria conquistado e contemplaria o felizardo com uma visão mais ampla e totalizante dos fatos, das coisas, da vida e seu destino último. Numa daquelas extensas cartas, pôs-se a consolar-me da morte de mamãe explicando-me e sugerindo-me dinâmicas meditativas segundo aquelas visões de mundo, para mim tão extravagantes e, francamente, impessoais. Métodos de sucesso que me deixavam entrever qualquer coisa sutilmente ambiciosa e pretensiosa, que não me aqueciam o coração. Confesso-te, caro leitor companheiro de minhas reminiscências, que turbaram-me os pensamentos, no confuso e escandalizante desenrolar das idéias. Sou homem de pobres e simples fundamentos, mas sólidos e reais, no construir íntegro de minha pobre interiorana infância, no amor de mamãe e bruta força de meu pai. Sonho o mundo por ter comigo nítidos meu ponto de partida e meu pertencer. E hoje, mais que nunca, sou dos meus. Aquilo não me ganhava.
Ao que silenciei, me ocupando dos cuidados de meu irmão e abafando o rebentar do peito, que me impelia a gritar a Vera palavras desesperadas. Qual o quê, não as disse, nada disse. A força me vinha no imediato ajudar de meu irmão, as forças que só conhece aquele que se entrega ao cuidado do outro. E cuidando dele, por aqueles dias, cuidei melhor de mim, nas abstenções, nos recolhimentos. Vera fazia muito barulho naquelas cartas, ao que silenciei, triste, confesso. Não havia ali espaço para mim, homem simples, de horizontes milimétricos, se com aqueles comparados. O único e singelo salto a que ambicionava era o amor, que me rebentou no conhecer de Vera, naquelas poucas e profundas ocasiões que tive a graça de provar em sua companhia, o perfeito mel. E esta palavra, amor, esteve completamente esquecida em suas quilométricas linhas. Nada mais me disse de nós, tal o seu dedicar-se a si. E o não dito falou mais alto naquelas linhas: esquecera-me. Se é que me amava, bastou-me saber que interessava-a mais uma outra coisa, um outro viver, incompatível com o amor que se realiza na simplicidade de sermos juntos no ir da vida, as estradas. Respeitei, deixando-a livre naquilo. Abduzi-me.
No enquanto, meu irmão progredia, alegrava-se, verticalizava-se. Com saudável visão, e agora morando comigo, já freqüentava novas propedêuticas em sua área, a enfermagem, suprindo lacunas em seu peito de homem. Visitava-o sempre em seu estágio, num lar de idosos, carentes de todo tipo de cuidado. Deram por mim ali, e aceitaram meu ajudar voluntário, nas tarefas do simples, no fazer de compras de supermercado, no erguer paredes de uma construção, no fazer o café da tarde, no exercício de gratuidades, as ricas, as edificantes. Aquilo, não tinha dúvidas, era o esvoaçante manto do real, ao que tocava, e me bastava e serenava.
Sendo que, sempre ele, o bendito invento de Graham Bell, veio a soar e interromper aqueles meus caminhos. Me ligavam do interior. No fone, uma voz de mulher visivelmente preocupada angustiou-me o peito, quando se identificou: era a mãe de Vera.
Perguntou-me, com um solene anterior pedido de desculpas, em que pé estava a situação entre nós dois. Mas antes mesmo de minha resposta, desabafou graves preocupações quanto ao estado de Vera, que sentia em seu peito de mãe que Vera estava perdida, indo longe demais naquelas ações, e que já não tinha por si um possível caminho de volta. Que certamente estava enganada, equivocando juízos. Daquilo que eu desconfiava, a mãe já tinha certeza: algo não ia bem. Despediu-se, com um pedido vindo como que das entranhas: "No que for possível, ajude minha filha, ela precisa. Por favor."
Como tocar o livre arbítrio de alguém? Principalmente com minhas rudimentares ferramentas... Por telefone era já impossível. Por carta, todo argumento seria mortalmente relativizado e abandonado, mesmo porque ela de tudo sabia de meus sentimentos, dos quais não poupei palavras em minha última carta. O que eu poderia fazer para ajudar a pessoa mais importante de minha vida, sendo que esta esquivava-se de tudo e de todos, pensando-se no justo proceder? E se ela estivesse certa, lá, em seus progressos para dentro de si? E se eu nem tivesse o direito de me envolver naquilo? Foram com estas perguntas que fuzilei a cabeça de meu chefe, meu bom amigo chefe, ele, o santo. Ao que, após me ouvir com os olhos baixos e fixos no jacarandá da mesa, virou-se em minha direção, me olhando nos ossos, parecia, respondendo palavras de homem: "Só há uma maneira: você tem que ir até ela. Você deve levar a ela sua simples presença. E aí sim, deixar que ela escolha." "Eu? Mas como vou fazer isto?" "Nossa viagem para Espanha, no próximo mês, lembra? Madri? Então... De Madri você voa para Praga." "Sozinho?" "Até a Espanha eu te ajudo. Depois, é você e Deus. Você se vira, você vai sobreviver."
Dias depois, ele, com um risinho matreiro, me presenteou com um manual de sobrevivência em Praga, com endereços de hotéis, mapas, dicas de transporte e algumas frases em tcheco úteis para a disputa no essencial da sobrevivência. Enquanto isso, me pus na providência de documentos e passagens, o passaporte, a grande e datada fotografia. Na foto, meus brios vacilavam. Eu, pequeno homem, nunca entrara num avião, e apanhava feio nas minhas recentes e simplórias aulinhas de espanhol. Porém, não obstante, mesmo assim tão frágil e pequeno, não sabia desistir do mundo, do vasto, da interna e secreta valiosa promessa do amor. Lancei-me naquelas carregadas nuvens. Venceria?
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Por favor, alguém tem o e-mail da Vera, o telefone? Eu não falo Tcheco, mas falemos a linguagem universal; o vocabulário dos fraternos. Assim como sua mãe pediu ajuda, também quero merecer tal súplica. Vera, mande-o de volta! Que traga seu bom humor, seu violão. A vida aqui sem histórias é chata, rotineira, uma rotina estafante de vendas, clientes e metas. Precisamos do final de semana, das noites atormentadas pela existência do despertador do dia seguinte...
Pô cara, cadê você???
rs
um abraço
cabral
Postar um comentário