quinta-feira, 29 de maio de 2008

Vera XIV

Vera XIV

Desliguei o telefone, pousando o gancho do aparelho em sua base, sentindo calafrios que me giletavam a alma. "Deus meu, o que está acontecendo?", retumbava-me a pergunta, nos conflitos do não saber, do suspeitar. Experimentava ali, diante dos homens importantes que me olhavam interrogativos, uma espécie de estranha certeza, algo possivel de se ver apenas através dos olhos do afeto, do importar-se, do amor. Vera estava correndo perigo, alguma sutil espécie de grave perigo, desabotoava-me na consciência, sabia-o.
A tarde foi o retomar da reunião com os estrangeiros. Eles queriam saber tudo aos detalhes, pormenores, agulhas em palheiros. Eu não estava mais ali. Eu era a pergunta pulsando, inconformado, ferido. Dei mãos a um dane-se a tudo aquilo, nada mais me importava ali uma vez que meu emprego escorria entre meus dedos, era caso perdido, mais uma perda por meus desequilíbrios. Cabisbaixei-me triste, pensativo, preocupado. Amava-a mais que a mim.
E como um som que emana longínquo, como que num canto do pensamento, e pouco a pouco se faz mais e mais presente, gradativo, ao ponto de quase ensurdecer e de exigir providência, dessa forma se desenrolaram um a um os fatos, naquela tarde em que a própria realidade me veio socorrer de meus profundos pântanos e brejos. Deu-se o revisar dos processos do escritório, os trabalhos feitos por aquele ano. Foram dispostos ali, nus, aos pormenores. Os advogados responsáveis deveriam, além de explicá-los e contextualizá-los, revelar como foram conduzidos, redigidos, bem como seus aspectos criativos, dinâmicos e as inovações. Queriam entender nosso estilo de trabalho, os perfis. E o que veio a meu favor foi tudo aquilo que desenvolvi ao longo daquele ano, nos períodos de explosão no trabalho, as dedicações tão inspiradas do pós-Vera. E no embananar-se de cada um dos sócios, os antigos patrões (exceto de meu amigo chefe, competentíssimo, brilhante), pois não eram capazes de explicar aos grãos os processos cujas responsabilidades assinavam, a palavra girou a mesa em desordenações, até que, por exigência do pequeno espanhol, caiu em meus braços. A disputada palavra deveria vir agora de mim. Aqueles ouvidos e olhos além-mar se viraram para mim. Ao que falei, natural, sensciente.
E perdido mesmo meu emprego, respirei liberdades. Não para atacar ou denegrir ninguém, mas para proclamar finalmente meu devido valor. É que boa parte das dinâmicas do escritório consistia em eu ser uma espécie de trabalhador braçal daqueles processos. Os outros advogados frequentavam minha pequena e abarrotada mesinha para aconselhamentos, dúvidas no redigir, em qual artigo do código se apoiar, e muito mais. Tantas vezes recitei parágrafos inteiros, recorrendo a meandros que nem mesmo o advogado responsável era capaz de entender. Mas confiavam em mim. Eu também acompanhava seus prazos, intervia quando necessário, bradava alardes e prevenções, sendo tudo aquilo disperso numa espécie de camaradagem. Tapeavam-me com tapinhas nas costas. Eu, o trouxa. Lucravam com meu velho não exercer-me. Este estar de coisa gerou a crescente bola de neve. Eu sabia mais de seus processos que eles mesmos, e isto começou a ficar evidente ali, na mesa, diante dos homens que pediam os pormenores. Estes, eram de meu conhecer somente.
E tudo o que falava era traduzido por meu amigo chefe ao idioma dos homens. De início gerou-me incômodo aquele estranho ecoar de minhas palavras, mas no ir daquilo, fui ficando à vontade por perceber que meu amigo traduzia minhas palavras num tom positivo e encorajador, como que declarando em entrelinhas uma grande felicidade de me ver sendo o que sou, naquela tarde brilhante de calor e suor espanhol. E o tempo que ele levava para traduzir me abria espaços pra um mais profundo e exato pensar. E a magia da eloquência habitou minhas palavras de tal maneira que um a um de meus antigos exploradores quedaram-se recolhidos. Diante de mim, vi cair bastilhas inteiras, sucessivamente. O espanhol que tomava notas parou de escrever. O outro espanhol falante, agora estava mudo, tremulava o lábio superior. E por detrás das armações douradas do espanhol mor vi um par de olhos vidrados, surpresos, estupefactos. Empolgado e livre, quase caótico, terminei minha intervenção no décimo segundo processo, relatando com voz abafada as dificuldades pessoais que atravessara naquele recente período, meus acontecidos últimos, a perda de mamãe. Sentado a duas cadeiras do antigo superior que me despedira, revelei com olhos altos que estava por deixar o escritório, e que o lamentava profundamente. Aquela performance de ator pareceu comover aqueles homens. Falei por mais de uma hora, vencendo.
Depois um silêncio, um mudar de assunto, e o estranho fechar da reunião. Eles voltariam bimestralmente. Frios, nada me disseram. Acho que não venci.
Fui à mesa, recolher coisas, objetos, arrumar o lugar para não voltar, mais. Não cumpriria os três dias finais do aviso prévio, em hipótese alguma voltaria ali. Despedi-me das pessoas daquele ambiente de anos. A secretária nossa, gente simples, me beijou as maõs e lançou as últimas palavras: "Vou sentir falta do seu café, Doutor". Não olhei ao redor, não vi meu amigo chefe, e achei até melhor assim. Me retirei amoado, contendo lágrimas, a nata sobre os olhos, que não derramassem, não me derramassem. Carreguei de lá minha caixa de livros. Eu sentia muito.
E no fechar das portas do elevador, a interrupção: meu amigo chefe. Me vendo de caixa em mãos e aspecto fúnebre, disse: "O que é isso?" "Estou indo embora..." "Ah, não vai não!" E me disse que tivesse calma, eles me enxergaram, e que fomos convidados a um jantar com os espanhóis, coisa reservada, secreta quase. Fui uma besta naquela hora, chorei feito menino quando ouvi aquilo, não aguentava mais. Ele falou assim, me dando um tabefe no braço: "Meu amigo, a vida não é só plantar, é também colher. A gente vai vencer!"
E fomos jantar, os cinco.
Naquela noite Deus apareceu pra mim: tive meu emprego de volta, salário triplicado e participação anual nos lucros. E, pasmem, também uma viagem à Espanha foi marcada, em convite para conhecer a sede da empresa em Madri e aqueles que lá trabalham. Aprenderia espanhol urgentemente. Nada foi dito durante a reunião da tarde para evitar desgastes com o sócio que me demitira. "Ele vai sair de lá rapidinho...", disse meu amigo. Comemoramos em farturas.
Fui dormir perdoado. E embriagado.

4 comentários:

AP Siqueira disse...

Parabéns! "Vera" está se transformando em livro e gostaria de participar dele, hein?! Um olhar de design gráfico sempre ajuda a quem cedo madruga. Abraços, Ana Paula

Renato Boechat disse...

Caríssima amiga AP,
Tenha-a: A capa já é sua.

Anônimo disse...

Fiquei aliviada em que nosso personagem tenha tido seu trabalho de volta. E por cima... Com salário aumentado! Quem sabe não vai atrás de Vera?
Beijos,
Celeide

Anônimo disse...

Ah se bastasse só dinheiro pra ir atrás de Vera...
É preciso muito mais do que a nossa vã filosofia é capaz de imaginar.