quinta-feira, 8 de maio de 2008

Vera XIII

Vera XIII

Na manhã seguinte tomei parte de uma reunião importante, com os diretores do escritório que apresentavam novos sócios, gente de fora, eram em três, os espanhóis. Me apliquei bastante, atencioso, disponível, porém quando se punham a falar entre si no estranho idioma, sentia-me meio como que surdo, num incômodo olhar de paisagem, aéreo, em sobrancelhas suspensas, alado. Observava os diferentes pertences daqueles homens vindos de longe, sapatos, bolsas, relógios e perfumes. Um deles possuía estranhas gengivas vermelhas e insuportável hálito, falante. O outro, excessivamente branco, tinha a extensa testa coberta de gotinhas de suor, o que prosseguia numa calva gordurosa, de esparsos fios. Vez ou outra, sacava de um lenço roxo e realizava ali um movimento de para-brisas, enxugando o que reincidiria instantes depois, as gotículas choviam de dentro, voltavam a emanar e a se acumular, o fazendo repetir o gesto. Eficiente, tomava nota de tudo. O terceiro, homem pequeno de voz metálica e penetrante, pouco falava. Sentava-se à cabeceira da mesa de reuniões. Pedia sempre um clarear de vereditos, no fim dos assuntos, por meio de gestos elétricos e olhar certeiro, por detrás de douradas armações. Falava um limitadíssimo português em minha direção "Bom, meus amigo, muito bom...", em sotaques e tapinhas. Ele era agora o superior de todos, ao que notei sendo aquele esforço em minha direção antes o desenrolar de mais um artifício de liderar e integrar equipes, sem qualquer sincero desejo de proximidade. Os homens de negócios agem segundo técnicas, macetes pessoais, manhas. Raramente se interessam por pessoas.
No depois, saímos eu e meu chefe amigo para o almoço. Ele comia verduras e queijos quase que exclusivamente, enquanto eu atacava ávido um bife a cavalo. No entanto, sugava-lhe sempre os assuntos, os mundos diversos, interessavam-me as línguas, as diferentes. Ele ensinava paciente, apontando o garfo regia frases, por vezes descia as pálpebras e disparava em minha direção sons em diversos idiomas, o que me fazia invadir uma curiosa aflição. Ensinava palavras: "Queijo, em italiano, é formaggio. Almoço em francês é déjeuner. Amor, em alemão, é liebe, de onde nasce nossa palavra libido. Sabia?" Eu não sabia, eu não sabia nada, mas queria muito aprender, entrar naquilo. Por onde começar? "Ora, comece pelo inglês. O brasileiro não sabe, mas já está falando inglês. Para pedir a pizza, recorra ao delivery. Mova o mouse de seu PC. Vamos ao Shopping Center? O que era pra ser comunhão está me saindo uma invasão. Estamos perdendo a língua, o lugar em que uma cultura elabora suas experiências. Sua história e valores estão contidos e refletidos nisso, na língua. Se a língua já está sendo invadida, violentada, é porque algo muito mais profundo está acontecendo". E acrescentou: "Vai com calma. Depois de aprender o primeiro idioma estrangeiro, os outros virão com mais facilidade".
De volta ao escritório, ao telefone, direto. Mal podia me conter em pé, as bambezas no ir em direção daquilo, de Vera, ele me ajudaria, meu amigo. Fomos à sala de reuniões, vazia. Ali existia um telefone equipado com viva-voz, interessante dispositivo que me permitiria ouvir sua conversa com o homem tcheco.
Fiz de meu indicador um lança enrigecida, e disparei contra os tantos botões numéricos do teclado telefônico, no moderno aparelho. Os números de Vera. Ouvimos o tom de que estava chamando. E foi de primeira, no que ouvi, impressionadíssimo: "Ahoj!" Era o grave senhor, naquele urro. Meu amigo, tamborilando a mesa, tentou a primeira investida: "May I, please, talk with miss Vera?" No que respondeu o antipático senhor: "Prosím vás?" Meu amigo: "English, do you speak English?" O senhor: "Englishhh? Ne ne ne..." Meu amigo tentou a segunda: "Français?" Ao que respondeu: "Je ne parrrle paas franxçais..." Eu suava as mãos, ele não parecia querer colaborar. Será que só falava tcheco, aquele homem dos diabos? Meu amigo tentou a terceira: "Español? Quería hablar con Vera... "Ao que respondeu o apressado homem: "Español? Mluvíte nemecky, Español, Français, English...S dovolením..." Nada acontecia.
Após um breve silêncio, ele parecia vacilar, o ouvimos gritar em sons que pareciam coléricos, talvez chamando por alguém: "Virua, Virua!!" Ouvimos os passos de um aproximar-se. E a seguir, o tão esperado som da aleluia: "Hello?" Avancei, saltei por sobre o ombro de meu chefe, reconhecendo, mesmo em inglês, exclamando: "Vera!? Vera, sou eu!" Ao que me respondeu: "Oi Amor!" E risos, os nossos, juntos num abobar-se, que expocavam uma felicidade sincera, nos ambos. E ela, ainda superando os espasmos, ainda ofegante, disse com uma voz em altos tons, vindos de dentro: "Você demorou a ligar! Não pensei que esperaria tanto! Meu Deus, faz meses que te espero." "Mas como assim? Não entendo... Pensei que deveria esperar da sua forma, você disse que me daria instruções..." "Mas não esperou..." "Desculpa, Vera, eu não consegui esperar mais", ao que ela respondeu, doce: "Que bom...". "Como vão as coisas aí com você?", perguntei, simples, tomando o gancho do telefone, desativando o viva-voz e despedindo meu amigo com um sinal de mão. Ele riu-se, mas num gesto recolhido saiu da sala, me dando ver que considerava aquilo mesmo belo, próprio, justo.
Vera disse que ia bem, mas estava muito cansada. E que esperava por meu inconformar-se, sendo todo ele parte desejada de meu participar na coisa. "Você chega mais sincero quando age com ímpeto. Era o que eu queria ver, provocar. E vejo. E gosto assim de você, muito homem". Eu me regozijava nos internos, meus sentidos. Aquilo me amansava sem um subjugar. Então pôs-se a dizer muitas coisas sobre a cidade, Praga, a República Tcheca, tantas belezas, seus cotidianos. A pequena casa antiga que dividia com uma colombiana. Os vastos que Vera pisava se me mostravam ali, perfeitamente naturais a ela, seus assuntos, seus mundos. Mas num misto de encanto e peso, senti o estranho de me baixar uma pasmação, não conseguia puxar grandes assuntos, falar o justo. Tinha tanto a perguntar, mas não me vinha a forma de compor, no respeito pelas suas escolhas. Talvez eu fosse nada mais que um ponto fraco seu. Talvez eu fosse um erro seu. Talvez. Eu não poderia prosseguir assim, no breu de dúvidas. No que perguntei: "Vera, o que sou eu pra você?".
Mas num bruto abrir de porta despejou-se sala de reuniões adentro os chefes, os espanhóis fartos e falantes, que voltavam de uma churrascaria. E no mal estar do não privado, pois havia agora a atenta presença daqueles para mim voltados, lancei mão da estranha liberdade que consiste também no fato de eles próprios não entenderem patavina de meu interiorano idioma. Mas certo é que lamentei não estar a sós no momento de beber aquelas lindas palavras. Ela veio dizendo assim: "Você é o rosto do amor para mim. A beleza maior, que descobri fora de meus limites. Você é minha razão de ser."
Desarticulado, intimidado, me provocava a continuar a tão desejada conversa, mesmo no não privado. Mas ela confundiu-se, notou meu diferente conportamento, perguntando se eu não tinha gostado do que acabara de dizer. Eu tentei explicar, não era nada disso, tinha gostado sim, muito. Ela não se conformava, minhas palavras vinham sem a convicção necessária, convicção esta roubada por aqueles importunos senhores, que ali esperavam o chegar dos outros diretores para o prosseguir da reunião. "É que eu tenho pessoas aqui, Vera, chegaram e agora estão ouvindo nossa conversa, e..."
No que retornou a seu lado o grave homem tcheco, interrompendo-nos em travancos e palavras que mais pareciam expressões de dor aguda, falando com Vera aqueles incompreensíveis. Ela respondia, meio que argumentava. Ouvi-la falando daquela maneira foi instigante, o incorporar do novo entre nós. Conhecia-a mais. Mas o homem passou a falar-lhe mais alto, e também ela. Nada entendia, mas já era indiscutível: brigavam.
Daí ela voltou-se a mim, dizendo trôpega, apressada, inconclusa: "Uma carta está chegando a você, te escreverei mais, explicando coisas e também....". E ouvi o mundial sinal de telefone ocupado. Ele a fizera calar, nos interrompera, violentamente.

4 comentários:

Anônimo disse...

Escutar "Vera" foi ainda mais
interessante que lê-la...

Precisamos repetir!!!

Grande abraço,
Paula

Marcelo Cabral disse...

Aqui...
vou no sindicato, vou queixar-me ao bispo, vou ligar pra Valadares... Aprenderei Tcheco e vou mandar a Vera dar notícias...
como assim? Ficamos aqui, angustiados?
ah não... isso não se faz!!! Escreve aí pô...

att

cabral

Anônimo disse...

Relendo "VERA"

Vera I - que viajaria ao exterior viagem de longa duração...

O que te separa de Vera?
- Apenas um oceano...continua tua história que de tão linda, ficou tão distante...

Jóias de Vera VII - "vestido de felicidades"

A carta de Vera...

e muitas outras jóais escritas com emoção nos capítulos anteriores.

Enquanto Vera não volta continuarei lendo ,relendo , me ancantando, e aguardando...
abraços.
Tia Nô.

Anônimo disse...

Separa um oceano... Mas é que Vera na verdade não quer saber dele e ele ainda não caiu na real... ou caiu e está querendo uma boa desculpa para não enfrentar a vida... e terá sempre uma boa desculpa...