sábado, 3 de maio de 2008

Vera XII

Senti as unhas afiadas da frustração arranharem covardemente minhas esperanças. Estive tão perto, senti rumores do diferente ambiente em que talvez Vera estivesse, mas sofri o bloqueio inclemente da diferença de realidades que nos separavam. Aquela imensa discrepância, o intransponível, as línguas. O impossível de comunicar. É duro frustrar-se. Mas pergunto: de onde emanam as forças do recomeçar? Quais as potências capazes de conduzir o goleiro ao fundo das redes, para buscar a bola que o alvejou e perspassou suas traves, ofendendo-o, humilhando-o, superando-o, sinalizando-o a derrota? Talvez sejam estas as forças mais nobres e dignas, as que realmente geram o dilatar de riquezas na aventura da vida. Eram estas as forças que me pus a inventar naquele agora. A pois, eu fui o goleiro, o cabisbaixo e sujo, após o salto mortal insuficiente, uma espécie de santo ali a resgatar a bola e tentar uma virada, eis-me. É que o desejo, mesmo que golpeado, ainda assim se expandia qual leite em fervuras, e me alimentava outros novos impulsos.
Fui tomar um banho, envolto numa nuvem de abelhas, tantos os pensamentos que me zuniam o espírito.
Lamentava. Era como se me estivesse mais perto, me atiçando brasas, porém ainda inacessível, me banhando baldes de água e gelo. Progredira, mas pouco, bem menos que me exigia a avidez da querência. Recolhendo-a, tive de me contentar com o singelo endereço que tinha, recorrendo ao papel de pão bem cortado que continha em bela letra o endereço de Vera, escrito por sua mãe. Aquilo ia demorar ainda, mais.
Ao que então me sentei humilde, diante de minha desconfortável mesa de homem solteiro em vida provisória, para o escrever. Já consentia que minha carta demoraria uma semana ou mais para chegar até Vera, e caso ela respondesse imediatamente, me demoraria outro tanto mais. As contabilidades do tempo, elas novamente, me agitando a alma. Sempre a espera fazendo de mim uma espécie de beato, triste. Eu nela me recolocava, revestia o hábito capaz de compor o monge. Mas se toda espera confirma, confirmava-se em mim também o ridículo sentimento da urgência. E mesmo sem meu consentir, uma vez que ia já mais que rebelde com aquilo, mesmo assim, a coisa parecia ignorar qualquer apelo ou razão, o sentir se apegara em mim de tal maneira que se fazia firme mesmo em meus descontentamentos. Eu a amava completamente, me via.
A carta foi toda ela uma chuva de palavras espremidas contra o papel, em tons cambaleantes e confessionais. Notícias da morte de mamãe. Os tantos estados de alma que em mim se revezaram naqueles últimos meses, os diametralmente opostos, nela, carta, as incoerências minhas. Me escandalizaram aqueles meus internos balancetes. Mas me surpreendia também numa inarredável fidelidade à minha alma, que seguia desordenada é bem verdade, mas sendo este ainda algum traço de positivo e bem em mim. O resíduo. Também me revi desesperado tantos momentos. Também triste. No que entendi que não há nada de tão mal na tristeza. Pior e maligno é o desespero. A dor havia, no sempre.
Durante o ato solitário de escrever senti nítido o milagre, a presença de Vera, eu quase podia tocá-la no desenrolar inenarrável do progresso de minhas íntimas sensações, sendo ali todas elas revividas, reunidas, a ela escritas. O ato da sinceridade é uma bênção, amigo leitor, exercita-o sempre que puderes. Escrevia como se Vera ali estivesse, como se a ela falasse diretamente. Tive ali uma voz, um estreito canal através do qual poderia emitir minhas palavras e sentimentos. Usei-o, justa e plenamente. Depois das confissões, dei voz às perguntas, tantas, diretas, urgentes. Eu carecia mesmo saber de tudo, o que fazia, onde estava, quando voltava, com quem estava, os planos... E no fim, fui sincero uma vez mais, arranquei de mim a frase seca, que retiniu no papel: "Vera, volta logo."
Fui dormir após lamber o envelope. Sonhei sonho estranho. Me estava dentro de uma espécie de veículo, que se movia depressa demais. Aquela velocidade me crescia o pânico, e assim me joguei ao chão, onde procurava me agarrar estendendo os braços qual um crucificado, e do chão via o passar velocíssimo de paisagens noturnas, algumas luzes que pareciam arranhões, vertigens, medo extremo. Acordei ofegante, mas cansado dormi novamente, em profundos. Aquilo me desgastava.
No ir e voltar do correio viajava longínquos pensamentos. Aquele telefonema fora o primeiro pé que colocara no exterior, os mundos. Passou a me produzir dilatações de horizonte, visões arrebatadoras do distante. Pense, caro leitor, que agora, neste exato instante em que te dedicas à leitura destas linhas, todo um torvelinho de históricos eventos se desenrola mundo afora. Extrações de petróleo no Oriente Médio, metrôs apinhados de pessoas e seus interesses cruzando os subterrâneos de Paris, Roma e Berlin, vôos aéreos atravessando pessoas entre continentes, submarinos monitorando profundos mares, os tentáculos do homem, culturas que exercitam tradições, o jazz, o frio no Canadá, o caratê no Japão, a política confusa em Jerusalém, a arquitetura européia, a grandeza da África e algumas inteiras comunidades sem o mínimo contato com o mundo dito moderno, agricultores da Índia, a história, o homem se virando para sobreviver a rigorosos invernos, altitudes, a Austrália e os ermos, a experiência do mundo que respira e pulsa. Aquilo se descortinava, nas imaginações. Naquela voz grave e seu idioma de tropicões, por telefone, mal sabia aquele desconhecido homem que me fazia chegar o insólito e extraordinário linguajar de um mundo velho, todo ele novo para mim, cuja existência era de meu teórico conhecer porém nunca o experimentara, um desejo que nunca ousara.
Adquiri um globo terrestre e dedicava-me a girar e a olhar aquilo, absorto por horas. E pesquisas, muitas, num vagar sem método entre histórias e geografias, as grandes guerras, as línguas, os povos, o mundo. Impressionava-me pensar o quanto de tudo aquilo já havia estudado, mas sem interesse algum, apenas por obrigações, em disputas de vagas. E o quanto esta prática corre solta por aí. Conhecimentos improdutivos, informações que se memorizam, mas não se assimilam. Eu passava a degustar a delícia de aprender com meus novos olhos. Usava-os, via realidades.
Acabei cumprindo assim a maior parte dos dias de meu aviso prévio. Se aproximava o dia de deixar o escritório, e ainda nem tinha começado a procurar por outro trabalho. Eu apenas esperava uma carta. Em verdade, não fui capaz de me convencer que aquilo estava acontecendo de fato, que dentro de poucos dias estaria no olho da rua.
Meu amigo chefe agia comigo decentemente. Ele, extremamente viajado, virou meu alvo de perguntas. Depois do trabalho, por aqueles dias, entabulávamos longas conversas sobre os tantos países e culturas que conhecia. Eu queria saber tudo, aos detalhes. Perguntei, depois de um estalo gerador de idéia: "Você fala Tcheco?". Não falava. Mas pedi, ainda assim: "Me ajuda a falar com a Vera? Agora tenho o seu telefone...". Contei-lhe o episódio do telefonema com o grave senhor tcheco, talvez ele falasse inglês ou alemão. Meu amigo riu lancinantemente. Quando se refez, de gravata frouxa emendou: "Você tem um desejo incrível". Estava combinado: faríamos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa...

Fico feliz por você não ter seguido os conselhos do Sr. Rilke...

Envolvente...

Parabéns!!!

Grande abraço,
Paula