terça-feira, 15 de abril de 2008

Vera XI

Vera XI

Qualquer um com as mesmas urgências que tinha eu naquele dia, diante daquela patusca senhora, perderia as estribeiras, tentaria apressar a coisa, extrair à força as informações, meus interesses em destemperos. Qual! Eu tenho raízes, sou também interiorano, sei vender e comprar bois. Aquilo ia durar, entendi logo, e respeitei a natureza da bela tarde em que passei horas com a mãe de Vera, à sua mesa. Pus-me a ouvi-la, num crescente de deliciosos momentos, a maternidade dela se oferecendo também a mim, o estender de suas generosidades, aquelas coisas de fato grandes, redimensionadoras, me geravam repousos ao coração. Se meus desejos existem, meus tantos planos, também provava que o panorama de uma pessoa daquelas é veramente instigante, pude perceber enquanto dava linha a seu caleidoscópio de pontos de vista inusitados. A certa altura, pôs-se a falar do passado. A incrível senhora viera da capital para o interior quando se casou, me trouxe provas, um maravilhoso álbum de família, um velho calhau de desbotadas fotografias, me deu ver aquilo, seus tesouros, suas motivações. Dizia que o mundo anda em velozes transformações, e ao contrário do que se diz, isto não é um fenômeno recente, o mundo sempre foi assim, o mundo sempre mudou. "Coitado de quem não se deixa levar, que não se ajusta, não se renova. Vive amargo e censura tudo". Pensando em mamãe (tão conservadora, quase engessada em seus passados), perguntei se ela não admirava os valores tradicionais, o que vai se passando de geração a geração, o que não muda no mover da história. Ela sorriu, quieta, sábia. Ela apontou pra uma velha e frondosa árvore do seu quintal, um pé de mangas, e disse assim: "Você se engana. Não dá pra ver, mas aquela árvore está mudando. Ano que vem tem que podar. Até a tinta do portão da casa está mudando, descorando. Ano que vem precisa pintar de novo. Precisa de anos pra ver estas mudanças. Mesmo os cabelos, sempre crescem". E me mostrou no álbum a criança que Vera foi, seu primeiro dia de escola, num uniforme. No que perguntei: "A cicatriz no rosto da Vera, como aconteceu?" A voz de um delicado carinho se apropriou de suas palavras, enquanto descrevia o nascer prematuro de Vera, na capital, aos sete meses, pequenininha, frágil demais, mirradinha, dava dó. Que nascera com um hemangioma na face, e logo cedo, semanas depois de nascer, foi operada, removeram aquilo, cortava mais ainda o coração a troca de curativos em sua facezinha de anjo, e como aquilo a atrapalhava na hora de mamar, doía, chorava. Lembrou em detalhes a cena do retorno para casa, viajaram de ônibus, o corpinho de Vera magrinho cabia deitado inteiro sobre um travesseiro, que o pai segurou acordado por toda a longa viagem, em grave vigília, aqueles tempos difíceis. Mas vingou, depois que sua sogra fez uma simpatia Vera aprumou, para surpresa e encanto de todos. Concluiu dizendo: "Sou grata por aquela cicatriz, aquilo segurou os pés de Vera no chão. Acho ela uma pessoa mais realista por conta daquela cicatriz que tanto a atormentou , principalmente quando era mocinha. Ela é muito sonhadora, é sua tendência, mas a cicatriz segurou seus encantamentos." Contou-me muitas histórias mais, e provou de minha sincera admiração. Gostou de mim, retribuiu-me de noitinha já, dando-me o endereço e o telefone de Vera, anotados num papel de pão. Ela guardava um pilha daqueles papéis, para anotações diversas. Ela não desperdiçava nada. "Tenho o e-mail, mas não estou autorizada a passar".
Passei em casa, vi os meus, estavam bem. "Como cresceu o neném", admirou-me. Visitamos o cemitério, eu e pai, belas memórias. Mas eu, contaminado por aquela senhora, sonhava futuros, as mudanças. Instigado me vim embora.
Pois abrindo a porta em casa, ia direto ao telefone quando pisei, no chão da sala, uma carta, outra, de Vera. Nela, uma fotografia, outra, desta vez uma longa e belíssima ponte, antiqüíssima, adornada lado a lado com belas estátuas que me pareciam ser de santos, e uma torre no final, como um portal de chegada, debaixo da qual acenava Vera, de longe. Na própria foto estava escrito, a caneta: "KARLUV MOST, ponte sobre o rio Vlatava". E, mais abaixo, ainda: "A Verdade é tudo o que continua".
Voei para o telefone, derramavam-me rios de lava incandescente veias afora, saudade Vera, saudade! Digitei trôpego aqueles tantos números, a coisa dava errado, "Não foi possível completar sua chamada..." Perseverei longos minutos, até que ouvi uma voz de homem atendendo, num idioma estranhíssimo, impossível, como que em soluços, travancos de língua. Ele falava em tcheco, imagine a cena, eu repetindo em diversas modulações para aquele digno e grave homem, lá dos longínquos hemisférios, "Vera!" "Vera!"... Tentei de tudo, mas eu, monoglota (nem espanhol eu sei falar), não fui capaz, não funcionou, ele desligou.

5 comentários:

Anônimo disse...

"Eles se amaram de qualquer maneira.. /Qualquer maneira de amor vale a pena.."

Ao atualizar minhas leituras por aqui .. fico inquieta para os próximos episódios..(O que foi feito de Vera..?)
Um abraço
Lu

Anônimo disse...

Ah...
Isso mais me parece auto-biografia. Você não acha Lu?
abs
Mari

Anônimo disse...

Rapaz, tem muito tempo que não lia suas postagens (estava sem net nesse fim de mundo aqui).
O conto da Vera está muito bacana, mas a curiosidade está me matando aos poucos, e como eu não quero morrer... te pergunto:
E que você tomou base para escrever este conto?
Dou-me por satisfeito com um "saiu da minha cabeça", mas é qu eu gostaria de escutar (ler) da sua boca (digamos... cyber voz).
Outra...
Eu morri de rir do "não foi possível completar sua chamada". Aquilo foi tão ridículo (no bom sentido) que ficou cômico.
Na verdade, essa frase trouxe um tom de realidade ao texto que foi muuuuuuito bom. Até tinha esquecido que o cara estava no mundo real, afinal a estória tem um tom de conto de fadas (muito provavelmente isto é uma opinião apenas minha, mas é).
Enfim, um abraço, e um elogio comum e sincero:
NOTA 10!
Seu primo,
Felipe Boechat (o distante)

Anônimo disse...

autobiografia não sei, mas tem um pouco de "Budapeste" aqui, plágio.

Anônimo disse...

Caro Rodrigo,
Escritores que lembram outros escritores é muito comum na literatura, não significa plágio.
Quem leu Budapeste e já leu outros livros sobre o mesmo assunto encontra muita semelhança...principalmente no que toca ao idioma que dizem assusta até o demonio (rs)
Se é autobiográfico , o que é que tem?

Se nosso escritor criou personagens e atravéz deles deixa explodir suas emoções e sentimentos ele está sendo muito feliz!
E voce já percebeu a parecença entre Chico Buarque e o Renato?
Ambos são músicos, escritores,compositores...
Então meu caro preste atenção antes de falar de plágio!
O Renato escreve sobre as Minas Gerais de forma encantadora!
Fala o minerês, o Chico fala o carioquês...e os dois são muito agradaveis. Tia Nô.