segunda-feira, 7 de abril de 2008

Vera X

Vera X

Peço, não me julgues, no contemplar das próximas linhas, prezado leitor. Confessarei nelas minhas ignomínias, as muitas atitudes torpes, porcas, abjetas. Por aqueles semanas vivi plenitudes chafurdantes, lamas, escórias. O vazio da solidão somou-se à dor da perda, ainda que consolada, e juntos conduziram-me a um escandaloso perder-se. Eis aí o pecado: A autodeformação, o não se ser. Eu fui os arroubos, o jogar-me a prazeres hediondos, os muitos crimes. Já disse que o mal muito trabalha, e em mim o impróprio executou suas artes, fartas, comi lavagens. Dizendo sim a tudo, o meu sim, minha mais bela e especial palavra, o signo de meu consentir, fui me abrindo ao esvaziar-me, no provar de muitos excessos, os vícios, o inundar-se em orgias, as modernas, as caras, rios de dinheiro desaguando em vazias e exaustas manhãs. A capital extensa de luxúrias, esta conheci. Atrasos, faltas ao trabalho. Mulheres, todas as possíveis e mesmo as improváveis. Foda-se, conto. Mulheres amigas, mulheres pagas, e as desconhecidas. O iludir de muitas, o manipular de sinceros desejos e afeições, a força bruta em desgovernos, o fel da mentira e os abandonos pós-uso, o disparo de milhares de ligações telefônicas, a exaustão em meus vazios. Sujava as mãos e o coração. A vida? Qual o sentido? Cortara a barba e desfilava público, no rosto nu, um olhar de safadezas.
Somos animais, arfamos instintos. Eis a parte. O todo se encomendava, estava a caminho, nos prazos do misterioso, os sumos se misturavam, mas não ainda chegavam. Somos muito e mais. E o que somos, no concreto, no diurno e no noturno, o que nos atravessa os sonos e as pressas, o que portamos de certezas e também de desconfianças, de dor e de esperança, reclama que: Somos parte de um tempo, de um mundo, de um existir e seus abundantes absurdos. Somos uma parte repleta de todo. A parte árbitra, nas zilhões de possibilidades. Eu adoecia, quedava, no sem sentidos. Esquecera dela, sua lembrança me caíra das mãos, os meus limites, vivia defeitos, tantos. Incontinências. Recorrências. O que portava de mim não me ajudava mais. Eu, o Judas meu.
Se no real fazemos, nele mesmo recebemos. Deus não segura bumerangues.
Meu amigo de trabalho, meu chefe de setor, meu condutor de longa viagem. Meu amigo, reafirmo. Me veio dizer: "A notícia não é boa". Olhava-me. "Hoje começa seu aviso prévio". O silêncio entre nós me deixou ver sua tristeza em me dizer aquilo. Lamentava minha vida em demolições. Me mandava embora, justamente. Era um justo. Pois que, no fim de um expediente em que boquiabri-me de pasmações, chamou-me a um chopp. Pálido, em ira, reagi, ávido de ignorâncias. Ele se desviou de meus insultos, pegou meu palitó, levou consigo, me tomou e me obrigou a um lavar de muitas roupas.
Me sentei a seu diante, me confessei. De qual íntegra e misteriosa matéria é feito o amigo? Relatei delitos, minhas cabra-cegas. Não fui julgado. O que me cresceu a liberdade, me dando abrir mais porões. Até que falei dela. "Quem é Vera?", me perguntava ele, cravando-me o olhar sincero. Eu recomeçava ali, naquela partilha. Estendi o relato aos pormenores, compus público um quilométrico tapete de Corpus Cristi, os fatos e também meus internos. O cofre exibindo minhas jóias. Meu baú e o fundo. Fomos fundo, fuçando os secretos. Ao que ele objetou: "É uma bela história. Onde Vera está? Quando Vera volta?" "Não sei..." "Então descubra" "Como?" "Ela não tem família, mãe, alguém?" "Tem, no interior" "Se você ainda quer mesmo a Vera, se ela faz sentido pra você, você deve procurar por ela, fazer alguma coisa" "Mas e a espera? Eu não consegui...". "Dane-se a espera. Procure a Vera".
Aquilo eram palavras de massa e concreto armado. Aquilo era o cimento, a brita, o asfalto. O último bastião de minha improlífica macheza caía ali, pois me retomava como estava, eu o dono de meus escândalos, eu o derrotado, eu o incapaz. Entendia, sob as brasas incandescentes do olhar daquele meu jovem chefe, a saída possível, a última batalha no vencer de minhas vergonhas. Agora cristalino identificava também o que sempre houve de extremo infecundo heróico, de espartano talvez inútil, de superstição e pretensa alquimia, do alienado ele mesmo naquela proposta de Vera. Proposta que eu jamais havia questionado, que aceitara num todo passivo, meus paradoxos. Num manso extremo, acolhi um tramar todo ele exigente de um heroismo a mim impossível. Eu e Vera era coisa especial demais, era mesmo justo um desejo de perfeição. Mas no continuar de meus fascínios, via: O que é perfeito não é o sem defeitos, e sim o que tem sentido pleno. Eis o perfeito possível. Só podia ser assim, tinha que ser assim. Eu não possuía toda aquela grandeza, eu precisava de perdão, eu não merecia perfeição, mas não seria capaz de viver sem ela, sem Vera. Me desisiti de ser herói, ali na mesa entreguei armaduras, e me desisti de ser passivo também, assumi protagonismos. Me socorri num Game-over. Decidi lutar, no real, corriqueiro, simples comum. O não mais ser arrastado pelas correntezas da vida. Ela sentiria minha lâmina. Então abri estradas a peito e facão, inventei rotas. E mais uma viagem me levou ao interior, meus tráfegos nas demandas de urgência. Meu destino? Fui à casa da mãe de Vera.
Ereto diante de uma portão de grades cor verde, estendi meu dedo indicador esquerdo ao botão da campainha, e disparei humilde e resoluto, tantas palpitações. "Será que ela vai se lembrar de mim?", pensava. Ela morava diante de um córrego, lugar em que eu me botara dentro tantas vezes, em marços passados de muitas águas. O córrego secara quase que totalmente, mais parecia um esgoto a céu aberto, matos. Ela gritou lá de dentro "Quem é?", alto. Eu que já vinha com todo um palavrório planejado me desarticulei com aquilo, a realidade é sempre diferente do plano, é sempre assim. E o estranho foi eu berrar meu nome ali da rua, ela nada respondendo. Algum momento depois ouvi um vigoroso arrastar de chinelos. Vinha.
Era uma mulher nem alta nem baixa, num vestido de botões de alto a baixo, com bolsos repletos de objetos, úteis, tesouras, linhas. Estava de meias dentro do sonoro par de chinelos de couro.Tecia um tricô, uma malha ia se formando adiantada em suas mãos, as duas agulhas de madeira, o novelo se dava. Olhinhos miúdos por trás de uns óculos de armação negra, lentes meio esverdeadas, o tempo. Aquelas lentes trabalhavam, ela punha os olhinhos sobre mim e as coisas de uma tal maneira astuta, ágil, espertinha. Via-se sua eficiência e seu pouco luxo, o lenço nos cabelos e os grampos em paliçada armando a estrutura, ela era como alguém que mesmo sem possuir automóvel é perfeitamente capaz de chegar a longas distâncias, pois vive sem esbarrar a marcha. Conheces o interior, caro leitor? Não perca suas pessoas, eis o ouro.
Pois ela me conhecia, e muito bem, ela sabia de tudo, meus destinos, minhas recentes dores, era muito informada. A casa era fascinante, asseadíssima, ia de um fogão a lenha a uma TV a cabo, sempre ligada como pude perceber. Se incomodava, ela sacava do bolso o controle remoto e baixava o volume, mas não desligava nunca. E farta de alegrias. A certa altura, fritando biscoitos, disse assim: "Mas que bem eu fiz a Deus pra merecer a visita de um moço tão bonito?" Eu quis ser solene, eu quis impressioná-la, qual o quê! Aquela televisão ligada, a ágil mulher sempre se empregando a algo, muitos movimentos, tudo me dispersava. Quando falei meus motivos, e perguntei por Vera, ao invés de portar consigo coragem, minhas palavras brotaram errantes, gaudérias, glabras. Ela nem me olhou enquanto ouvia. Até desviou do assunto, falou de mamãe, de pavimentações, o preço do café... Foi ficando ridículo. A mulher me enrolava em bons modos e embromos, pôs-se a falar do netinho filho do irmão de Vera. Quase entristeci. Era tudo muito difícil, o sem acessos, o escondido. O interior e seus não-ditos, as muitas manobras, o truco. Ela me estudava, degustava mais de minha presença até entendê-la melhor, uma águia. Eu perderia tudo se baixasse a cabeça. Ela adiava franquezas, trazia-me queijos, indicava origens, salpicava de açúcares uma nova coleção de sonhos recém saídos da gordura quente, e tinha um riso solto, pândego. Já sabia exato o que eu queria, e me estudava.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caríssimo:
Desculpe nossa falha! ( ou outra coisa...rs Já é o terceiro comentário que tento enviar e não tenho certeza se realmente conseguí.
Mas, escrever é realmente para quem sabe da arte de escrever e principalmente transmitir. Leitura boa é essa que a gente quer ler de tráz para frente! Mas afinal eu e a maioria quer saber onde está a Vera? Essa mãe vai dizer ou não?
Um abraço
caríssima