Vera VIII
Eis o que me disseram os dias seguintes, a verdade objetiva: Ela tinha ido mesmo embora, se mandado deveras. O então foi minha vivência prática do inacreditável. "Como assim?", retumbava esta sentença no vazio denso de meus pensamentos, que pendiam inconclusos. Eu fiquei besta com aquilo. Precisei de mais de uma semana pra ter alguma clareza e conseguir começar a pensar, sair da condição de abandonado, em que eu só fazia lamentar e sentir até pena de mim mesmo. Eram os impactos. "Ela é louca", ricocheteava o insulto em meus internos, propondo vinganças. Senti muita frustração, ao que com os dias, passo a passo, pus reparo: Era que meu autoritário desejo de possuí-la, arrancá-la, era o que mais me inquietava, visto que com aquela atitude de se ir pra longe, ela cancelava minhas medidas, ignorava qualquer pretensa autoridade minha. Ela se punha em questão. E não se indispunha a mim, como pude ir grão a grão completando, relendo um milhar, dois milhares de vezes a carta que me deixara. Tive certeza: Ainda que num apesar, se tratava de uma carta de amor. E vi: Ela me propunha, naquela atitude estranha, praticando o incomum, o insólito, o contraditório (afinal, como entender um amor que se consuma e se afasta?) ela me convidava a algo. E aquilo era a ponta de um novelo, pressentia. A loucura do incomum oferecendo uma conexão ao extraordinário. Com ela, aliás, tudo sempre tivera esta natureza. Ela me fazia, com aquele não estar, reconhecer mais precisamente o que eu só suspeitava em mim, meus inauditos, minhas impressões confusas, frutos de meus relâmpagos de lucidez. Ela vivia naquela luz, ela desatava meus nós, no tim tim por tim tim do suceder de momentos em que convivi apenas com sua memória, as sensações que guardei, minhas jóias preciosas. Sem ela eu não seria capaz de entender, muito menos de fazer acontecer o apropriado, o justo, o aquilo que vai se formando no tomar de providências capazes de desviar o agir, no ponderar ou no explodir. E por sentir que o coração existia em novos e frescos ares, e que batia já no compasso do acerto, mesmo no desconforto da saudade senti a força selvagem daquela proposta toda ela edificante. Aquilo era como outro caráter de amor, disposto a gerar mais que prazer. Aquilo poderia, só serviria, se fosse, assim simples, um engendrar de filhos, de vida. Aceitei temeroso o desconhecido suceder. Pus-me a esperá-la.
E quão educativa é a espera, caríssimo e confidente leitor. O suceder de sufocos e respiros da esperança. O tempo medido a palmos de mão, a metros. O tempo se tornando troféu, conquista. O jejum, o guardar-se, o voltar-se para si mesmo, o dar-se fiel à promessa. E todo o próprio modificar, o perceber de um amigo que trabalha contigo. O silêncio de quem espera é mesmo belo. Também as noites de sonho, o repetido sonho, ela me tocando os lábios com o indicador e apertando, como se faz para ligar um televisor antigo, me empurrando.
Tomado também de crise, de fome, ao sabor das confusas marés daquela ausência, conheci o ciúme e provei seus vinagres amargos. O ciúme é um voltar-se contra si mesmo, no imaginar do mal que sou capaz de realizar projetado no agir do amado, contra si. Mirei minhas torpezas e serenei num desejo que me cresceu, de um coração mais puro e simples. Embaralhei mais dias, o maço de dias, que iam me revelando um a um a sorte da espera, meus destinos no estático, o pipocar de convites espontâneos e ocasiões de novos amores, meu olhar dizendo não ao especular do mundo: Eu me tornava uma espera. E duro permiti-me aquilo por precisos quarenta e dois dias, como que riscando marquinhas nas paredes, quase um detento. A estas alturas me chegou uma carta, dela, a primeira. Uma foto dentro do envelope, aquilo veio de longe, confins orientais da Europa, nem entendi bem de que país era. Era ela, seu rosto de perto, seu delicado e lindo rosto, encarando a lente profundamente, num auto-retrato. Continha a imagem de seu olhar, apontado certeiro a meus alvos. E escrito a caneta, na foto mesmo, ao lado da bochecha com a cicatriz: "Ser fiel ao outro só é possível se for uma extensão de ser fiel a si". Foi assim. Olhei tanto pr'aquela foto! Dei-lhe beijos, até. Sorte que o olhar não desgasta o objeto olhado, mas desgasta o próprio agente do olhar, se perdido em exagero. Masquei aquilo, longamente, contemplações. Aquelas palavras me guiaram a profundos sentidos, me reanimando convicções. No jejum, o que alimenta o homem é a fome, própria. Um se bastar de sentido, ele o pleno. Vivi naqueles dias como um pobre. O que me enriquecia dentro, vencia outro mês, e outro, já se faziam três meses, a coisa virava sonho ou obsessão ou matéria de coragem ou uma persistência ou uma teimosia ou um gesto de grandeza ou um gesto de loucura ou uma burrice. O ou. Aquele confuso batalhar, onde se evaporam os limites de coisa propriamente dita, e tudo passa a custar, a valer a sua própria pele.
E então o bendito telefone tocou no meu trabalho, me mandaram chamar. Atendi absorto, alheio. Até que me veio, no fone, a lâmina, o corte, a pior coisa que já ouvi. Era uma ligação dos infernos.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
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3 comentários:
Ola,
Adoro o q leio e adoro o Renato q surge!
meu teclado ta em ingles tbem.
Passo e deixo minhas pegadas, como vc me disse uma vez...
bjs,
Ahhh!! Assim não vale!! Quando esvaziarei o ar que me entope os pulmões paralizado no instante em que terminei de ler as confissões nomeadas de Vera VIII fictícias ou não deste autor quase proustiano que me chega por caminhos inesperados??? Hein???
Caríssima Iracema,
O que impulsinona as caravelas artísticas, o que sopra suas velas e as torna capazes de aportar em novos continentes, nas descobertas, é nada mais que o soprar da realidade. Só o inesperado nos pode salvar.
No mar, os caminhos são de ar.
Espero que este blog esteja sempre em sua rota!
Benvinda!
Um abraço
Renato Boechat
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