sexta-feira, 28 de março de 2008

Vera VII

Vera VII
Que roupa vestir para o encontro mais belo? Cortaria cabelos, faria a barba, acertaria o bigode? Qual! Me lancei aos detalhes numa tardinha de quarta, aconselharam-me perfumes, quase comprei uma gravata. Mas não, não fosse o algo mais presente, além da paixão naquele sentir, seria eu inteiro o patético. Dispus-me assim, em internos contratos: vou como sou para Vera. Desisti de tudo. Não comprei roupa nem perfume. Só um bom banho bastava, eu estava vestido de felicidades.
O lugar era uma cervejaria, numa casa histórica, ex-residência de um escritor. Quando cheguei, ela já estava lá. E bela, para a noite fresca escolhera uma blusa negra feita de rendas em crochê, e despojada e livre veio vestida também de calça jeans e tênis. "Cortou os cabelos, Vera?!". Ela me recebeu sorrindo e me beijando a boca, indo ao direto, me dando sentir o toque fresco de suas gengivas, francas. E tudo era a capital e sua noite de barulhos e gente conversando e música que se houve. À meia luz de um bar, cavalheiros palestrando em alto e bom som, e garçons que renovam generosos suprimentos de chopp, frituras e fumo. E Vera sacou de um cigarro, e surpreendeu minha face de espantos. Na grande cidade, temos outros ritmos e usos. Incensando a mesa, riu-se de mim, visto que eu não quis adimitir minha pudicícia. Mas no encaminhar da noite, no estar à vontade do correr daquilo, me lancei a duas caipirinhas, entre muitos carinhos e toques. Era o aéreo estar com Vera, o ligeiro de não se preocupar com o que dizer, o sorrir facilíssimo e aberto, a pele macia de suaves contornos dela se apossando, se integrando a mim. Sua presença me trazendo todo à tona, num encontrar. Nós ali, num dispor mútuo, trocando olhares profundos, instigados, corajosos, em justos cios. É que confiávamos num amor chegando, sentíamos aquilo num natural, o dom exalando sua presença. "Pensa, Vera, quanto tempo a gente por aí, tentando a sorte, com outros..." Ela ria, me abrindo portas. A cervejaria dentro da bela casa histórica de escritor foi se encolhendo, ficando pequena para nós. Pagamos a conta, ao meio, os dois. Depois dali, senti, quis dividir tudo com Vera. A noite, a calçada e pouca luz, concedia liberdades. Somos mais livres no escuro pois, o que somos dentro é igualmente breu. E na rua, diante de uma farmácia, um antes: E toques e ânsias e desgovernos e o baile de carícias e avanços, no largo permitir e avançar, de coisa nascida solta, na coragem que é se permitir viver sem impedimento. Jogou-se fora a segurança dos nós. Cultivávamos ali um canteiro de ousadias. Avançamos para o ventre da noite, minha boca era o misto de cachaça e limão e cigarro vindo da boca de Vera. Nosso destino era agora a casa de uma amiga, sua.
Que não estava ninguém estava Vera sabia Vera se dava em linha reta em quase atropelo de boa mira em certeza absoluta em juízo são ela ligava um aparelho de som ela deixava uma luz acesa indireta noutro cômodo ficamos na sala ela desabotoando os seus e os meus botões de olhos abertos abrindo acessos ela vivia se movia Vera exisitia sem economia gastava sorvia o sumo de um momento vivido por escolha e graça e deixei de estar imóvel e pus também eu os dois pés naquela hora imensa que escorria e me chamava naquele instante de perfumes e aromas fomos dois dois para sempre amantes num quase choro nos hálitos feitos para aquilo como que feitos também daquilo nus e escandalizados e perdoados que se tocam e se redimem das dores que constituem os corações que não se arrependem das duras escuras ruas de nossos descaminhos e torvelinhos e sem pesar ousamos cercar em procuras as pupilas francas da verdade possível de se ver e tropeçamos um sobre o outro no refletir mútuo de nossos espelhos mirando e admirando dimensões nossas constelações infinitas imensos eus em graça sentindo suando e cheirando e exalando confissões e urgências e impaciências e alcances e relances e olhos nos olhos e céu e mar e sol e luas de saturno a girar e o esplendor e a roda gigante veloz e o gozo o gozo o gozo...
Aquilo que aconteceu, aconteceu para sempre.
No acordar o retomar, o confirmar. Sempre acordamos sós, e esta é talvez a hora mais importante da existência, a hora em que um homem tem a possibilidade de se ver. Olhei ao redor, a estranha casa, vazia. Vera já não estava. Chamei: "Vera!?". Sem resposta, me ergui. Estava sozinho, absurdamente só, mais só do que nunca, pois assim se é depois de conhecida a alegria de uma presença. Sobre a mesa, uma carta debaixo de um biscoito recheado. Ao que li:

"Meu amor,
Te escrevi esta carta ontem pois já sabia o que viria a nos acontecer, e já estava feliz. Te chamo de meu amor porque é assim que o sinto, eu o sinto em mim, eu me sinto você, eu olho suas mãos e reconheço agora como minhas. Me espera explicar uma coisa, me espera até o fim:
Agora que você lê, eu já devo estar bem longe de você. Eu parti, meu amor, eu parti de você. Não desviei a viagem ao exterior, o intercâmbio. Sei que parece loucura, não evito nada que o destino me traz, e ele me trouxe esta viagem, assim como me trouxe você. Ela foi a única forma que pude encontrar de viver meus vazios, me dar alguns passos, de "crescer para dentro de mim" como você um dia me falou bonito. Ela é meu retiro, estava escrita e por isto cumpro. E quanto a nós?
A distância vai nos purificar, há de nos confirmar. Não é por duvidar, é para nos afirmar. Não pode haver pressa quando o que se deseja é o perfeito, o próprio. Eu amo você, e a distância há de fazer esta frase arder, vai nos queimar, mas não vai nos consumir. Vai nos tornar inabaláveis. Se assim for, todo o resto valerá.
Aguarda, que te escreverei cartas. Te darei instruções. Não te deixarei jamais. Segundo Shakespeare "O amor procura o amor assim como os meninos fogem dos livros escolares; mas quando o amor do amor se separa, fica como os meninos dirigindo-se à escola: de ar sombrio". É nesta escola, meu único amor, que vamos estudar agora. Eu também tenho o que aprender.
Sempre sua,
Vera."

Pasmei, tremi e recoloquei minhas roupas, as roupas que ela despira. Fiz um café na cozinha estranha, mal acreditando. Chegou em casa a tal amiga, tentei me apresentar mas ela já sabia de mim, de tudo. Vendo minha aparência abobada, pronunciou "Você se meteu com uma pessoa incrível mas maluca, um buraco negro". Ela era desiludida, me pareceu. Não gostava do amor e de quem ama. Fiz perguntas, "Para onde foi?", "Quando volta?" ela não sabia também de nada. Fui embora palerma.

5 comentários:

Anônimo disse...

Pô, meu!
Aqui você arrasou. EScreveu realmente com o coração.Desnudou, com maturidade, emoções, sensualidade.Isso é lindo demais de ler. Corujices à parte, a beleza deste conto é sem limites e você não fica devendo a ninguém.
Beijos,
Celeide

Anônimo disse...

Mãe é sempre mãe...

Renato Boechat disse...

Sem colocar a Mãe no meio ( mas já colocando...), confesso que tenho um grande orgulho da minha. E isto é irreversível. Trata-se de uma pessoa sem igual.

Anônimo disse...

Oi... eu vim aqui conhecer a Vera... e a encontrei exatamente neste capítulo... naquela sala... muito lindo, viu?! Beijo...

Anônimo disse...

"Aquilo que aconteceu, aconteceu para sempre."