Vera VI
Enquanto ouvia de Vera, na balsa, que o bem que sou também é feito de dor, senti no instante vontade plena de reconciliação e paz com meu pai. Só que no agir da vida, no sempre movimento de toda coisa, o plano cai por terra, o abstrato se evapora. Bati os olhos naquele homem, e me sobrevieram iras, fúrias, as de sempre. E o lutar pra conter aquilo já me desfazia, me alterava, me tirava de mim. Atravessei o alpendre, passei em sua frente em silêncio, sem olhar nem saudar, dando de comer à guerra. Ao que ele, em ordens e imperativos: "Senta aqui!". Me pus ali, ao lado seu. Gelando por dentro, desviei o olhar pro oposto. Esperei ele dizer, o que não disse. Também disse nada não, e aquilo durando, momento imenso, elétrico. Nós dois, e os embates. É que éramos iguais, demais.
Longa hora de silêncio, aquilo virava uma disputa, era o suceder da hora "H". Eu em minha exaustão de noite às claras, completamente disperto, acordado de raiva. Ouvindo o seu fundo respirar, a mesma respiração, como que lutando pelo ar, aquele pulmão úmido, tantos cigarros, bigodes amarelados, claro homem em suas unhas duras, grossas, sujas. E gente acordando, barulho na cozinha, a casa e seus novos usos, criança chorando, e nós dois, eu e pai, restando ali, estacados no orgulho. Precisava dizer coisa? Peguei um matinho, traçava com aquilo no chão, reparando as formigas ocupadas em suas rotas. Sua mão, áspera, me tomou aquilo, jogou fora, me obrigava a um estar inteiro naquela hora. Me retive. Ele puxava do fundo, fungando quase, e desistia. Cada nova inspirada eu esperava, e ele frustrava. As galinhas passeavam a nosso redor, domingo cedo abria-se o galinheiro para escolher o almoço, sempre foi assim. "Mas e hoje, quem vai matar a galinha, com mãe naquela situação?", pensava...
O portão abriu-se de novo, alguém vinha de fora, gente de casa entrando sem bater. Uma senhora que logo reconheci, feliz em me rever, sorriso calmo e profundo, de quem conhece as lonjuras do tempo e aceita, sereno. Fôra ela quem me ensinara a ler. Saudou meu pai com uma naturalidade própria de quem se vê no diário, e foi entrando, como quem entra naquela casa todos os dias. Enquanto eu e pai retomávamos o silêncio e o confronto, ouvimos vindo de dentro um grave e ôco soluçar, um pranto que eu conhecia bem: era minha mãe.
Corremos juntos para dentro, ao quarto, agarrando eu e pai no passar simultâneo de portas, nas reações do coracão, no trôpego explodir-agir do amor. A professora tinha em uma das mãos uma caixinha redonda de ouro, e na outra erguia diante de mãe uma hóstia, anunciando "O corpo de Cristo", que ela agora recebia diariamente, sobre a cama. Foi o momento em que mãe rompeu seu silêncio em soluços de choro e dor, numa comoção impressionante, em espasmos, aquilo cortava o coração. Um a um de nós foi chegando ali, nossa família ao redor dela, disposta horizontal em seu leito de cuidados, aquela pobre e pequena mulher de imensos cabelos, derramando-se consternada diante da hóstia, do alimento, daquilo que sustentou toda a sua vida. Sua coragem nos declarava, sem pretensão mas também sem vergonha alguma, sua verdadeira razão de ser, seus fundamentos e alicerces. O que cada um de nós ali viu e entendeu claramente, sem interromper, em olhos de espalanco. Deixamos ela chorar, ela queria, precisava. Quem poderia conter? Mãe desnudava sua fé diante de nossos olhos, expunha sua intimidade, em comoções que mais eram um precioso conselho, como que numa ordenação segura, que colocava cada coisa em seu devido e justo lugar, devolvia a cada dimensão de nossas vidas o seu devido valor. E aquilo me pareceu uma despedida, um adeus dado com a mensagem mais valiosa, um sacrifício de si em oferta a nós, comovendo a mim e a todos, até o neném chorava, a professora dando a hóstia em sua boca, e pai com o lenço de ternuras enxugando as sagradas lágrimas de mãe.
Eu parti daí a dois dias, era o fim de minhas férias. Sem palavra alguma, mas com um inédito e discreto espaço no olhar, preparei o café naqueles dias para meu pai. Ele fez questão de tomar a meu diante, num valorizar de coisa, mas conservando sua pré-histórica rudeza comum. Era o correr de nossa família, os novos tempos, o arranjar das coisas. Deixei lá meus irmãos, uma cunhada e um sobrinho. Difícil saber o que pensam de mim, contudo me ofereceram a criança para o batismo. Prometi voltar em breve, então. Fui ao quarto, inclinei-me sobre o leito e contemplei minha mãe ali por longo momento, como que querendo gravar na memória cada nuança de sua presença. Mas foi vão meu esforço. Fechei os olhos e beijei mãe no rosto, convergindo todo o meu possível, numa despedida. Ela nada manifestou. Olhei sua máquina de costura, parada ao lado, em poeiras. Reouvi sons, ressenti cheiros, fez-me sentido. Guardei. Pai não estava quando parti, o que entendi e achei melhor.
No reentrar o reajuntar forças e alívios. Voltava para minha vida, meu real, meu construir. Senti desejo de trabalho, e um grande arrepio ao rever o infinito espraiar das luzes da capital. Estava de volta, consolado por uma certeza: Uma daquelas luzes, que eu não saberia precisar qual, era seu quarto, seu lugar, sua casa. Ela estava lá. Era a luz de Vera que me esperava.
quarta-feira, 26 de março de 2008
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