quinta-feira, 20 de março de 2008

Vera V

Vera V

(Interrompo o narrar dos fatos com este parêntese, caro e íntimo leitor, para explicitar minha realidade interior na exata e maravilhosa hora do beijo de Vera. Saiba que boa e melhor parte de um relato pode estar no implícito. Digo: quando aprendi no banco da escola sobre a inconfidência mineira, ouvi pela primeira e inesquecível vez a palavra que quero aqui usar: "esquartejado". É que após enforcado "Em poste de ignomínia", contam os livros que amarraram os membros do corpo do mártir Tiradentes a diversos cavalos, e agitando os animais, estes punham-se a correr a opostas direções, separando as partes do corpo, "esquartejando-o". Digo isto porque um segundo após tocar os lábios de Vera, no fruir doce e terno da aleluia, entendi de uma tacada que jamais novamente estaria em minha vida a sós com a Beleza. A ingenuidade carregada de um certo tipo de sentimentalismo me caiu ali por terra, faliu, no esquartejar de meus sentimentos, partindo-me, ferindo-me. A cavalar dose de carna-realidade dos últimos acontecimentos não mais me permitia inebriar-me. Uma certa dureza da vida já habitava meus "conscientimentos". Como que atado a animais ferozes, surdos e ingovernáveis, beijei aquela assim mais maravilhosa boca, a real boca de Vera. É que eu estava pleno, farto em minhas dores e delícias. Eu estava ferido, chagado, e com a Beleza em meus braços, e por isso mesmo beijava, beijava como nunca havia beijado. Não mais saberia acreditar que a vida poderia estar tão somente toda ela concentrada num alienado prazer, naquele momento. Já sabia, inteiro e atento e perplexo, que o correr real do existir era saber também de mim, do meu redor, de mãe, de perdas, de conflitos e transformações. Era portar minhas misérias à luz do dia na palma da mão. Mas saiba que um mendigo se farta com prazer maior em mesa posta. E assim foi. Foi tudo junto, em confusos vetores, me arrastando, dilacerando. Estar vivo era assim: Como se ventasse vento muito forte, que me despojasse veste a veste. E ir vivendo a vertigem de perder meus apegos. E o viver tivesse um simples propósito talvez: de aprender a ser seguro em mim, um estar cada vez mais sobre pernas próprias. E o saborear do belo me chamando, se me dando, oferta inteira ao que consigo ser. Vera. Eu, irremediavelmente lúcido, me sentindo quase louco, amando amor de homem, inteiramente virgem no aquilo. O que pareceria a um transeunte mais uma cena de novela, vivi quase rezando. Tem coisa mais real que rezar?)
Beijei Vera, e com pouco abri os olhos, para vê-la, perto, era tudo real demais. E o incrível: Vera também abriu os seus, num mesmo momento, nosso acordo tácito, em confirmações. Rimos de perto, agarrados num abraço, atados. Aquele passeio varou a noite. Fomos à beira do rio, conversando, mãos dadas à antiga, parceiros, cúmplices. Aquele que é gênio já o nasce sendo, é dom, é doado. Eu e Vera nasceu assim.
Sentamos na balsa, que atravessa o rio durante o dia, mas que naquela hora avançada estava amarrada ali na margem. Ela quis saber de mim e minhas amarras. Expus. Não temi. Vera encarando o correr das águas, me ouvindo dizer que mãe não costura mais, nem anda mais, nem fala mais. E o sobrevir de minhas correntezas abruptas, o meu ralhar quanto a meu pai, sua injustiça e força bruta, o amargo de passados e minhas reações contra aquele pobre homem já velho, frágil de culpas. Eu incapaz de lembrar um momento sequer de paz com ele, pra me agarrar e justificar um amor que me fazia sofrer porque queria existir, aliás, existia à revelia de meu consentir, meus escândalos. E o mais.
Vera, a doce Vera, tirou as sandálias, molhou seus pés n'água. E quando foram-se embora os meus ecos, e houve silêncio, esperou ainda um pouco. De cabeça meio inclinada pro lado esquerdo, olhos na água, eu olhando a antiga cicatriz que também compõe seu rosto. Me disse assim, meio que sem dizer, em pausas e sussuros e sombrancelhas altas, que eu era belo, forte, homem, suficiente. Aquilo era a noite falando com a boca de Vera, sei lá. Que recebesse próprio e generoso as dores passadas que me constituíam. Se sou belo, que soubesse eu que também elas, aquelas escandalosas e injustas dores, assim me talharam.
O mais foi o ir-se embora, as luzes do dia trazendo a festa dos passarinhos, o anapion das galinhas, nosso interior. "Já é manhã de domingo. Vou embora hoje. Te espero lá, na capital". Ecoou esta frase de Vera em minha mente, voltando pra casa, manhãzinha fresca, gerou-me mansas ansiedades. Até o abrir da velhíssima taramela, aquela do portão da sempre casa de meus pais. Sentado no banco do alpendre amarelo estava meu pai. Fumava.

Nenhum comentário: