Vera IV
Linda. Caro leitor, conheces a experiência da correspondência? Prefiro explicar-te partindo de suas sensações. Não o sabes? É como se dentro, por debaixo do umbigo que seja, na curva do eu para o mim mesmo, em nossas abissais e consteladas dimensões interiores, como se ali, próprio, se debatesse uma força, uma peste, uma pergunta. Olhar Vera era uma espécie de resposta a este tormento, mas sem palavras, ou melhor e mal explicando, uma ultra-palavra. Vera me correspondia, esguia, cheia de carnes em dimensões só nela harmonizadas, cheia de brilhos em cabelos bem escorridos, cortados belos, boca de lábios finos reluzindo macios discretos cosméticos, doces babosas e cheiros, mulher inteira dentro de um vestido em malha alva de algodão macio, sobre sandálias que eram de puro conforto e bem estar, que me deixavam ver a fina pele branca de seus pés, lugar de privilégios onde o universo decidiu por bem ser puro e delicado. Vera, a casa do feminino habitada por demais, cheia, plena, obsequiada, torrente, generosa. Vera, dedos indicadores dos pés desviados sutis para fora, tortinhos, pequerruchos. Vera, que falava qual mulher de capital, mas nascida e bem fundamentada no interior e suas forças. Vera. Vera já me era a face do amor.
E eu me mesclei num momento confuso, entre atropelado e salvo, entre perdido e achado, entre doente terminal e cura e milagre e redenção. O mel do amor pingou numa boca de ânsia e urso. Eu fiz silêncio, deixei ela falar, recolhido numa secreta devoção. E ela falou: que gostava do músico que estava tocando ali agora, moço também de nossa cidade, ido também ele para a capital onde, dizem, se formou em conservatório de música, e que fazia sucessos por lá, e também que ela tinha adiado a viagem de intercâmbio, e que no passado tinha morado em outra cidade também, e que só agora se dava conta de que nunca tínhamos conversado muito, e etc e etc. E me perguntou de mim, quando eu tinha chegado, como ia a vida... As minhas dores afloraram, todo o meu recente acontecido, mas preferi, sem exitar, me deixar levar no solto voar de pipa e rabiolas daquela hora, o sopro de bons ventos que era aquilo, Vera me ouvindo com um sorriso armado no rosto, constante, me olhando no ventre dos olhos, concordando e vibrando a cabeça, minha nossa! Eu firmei meu corpo, exerci o homem inteiro que nunca vira em ação, o chamei de dentro de mim, minhas trevas. E ele veio. Veio por uma primeira vez, o eu mais eu, que jamais tinha sido. O tão esperado. Veio arfando em coragens. Veio para estar com Vera.
E aquilo e os efeitos. Ela me apresentando amigos. Eu não tinha ninguém. Eu dizendo coisas absurdas, diante dos outros, como se meus sentimentos fugissem de mim, saltassem à luz com forças próprias, sem meu governo. "Você é linda, Vera". E um silêncio. E um sorriso. E um olhar sem desvios. Vera me propôs um passeio pela noite de nossa cidade natal. Fui demais. A noite imensa na alameda de empoeirados oitis, os meus silêncios pisando aquelas calçadas, o balouçar de meus sentimentos cambaleantes, eu em vertigens tendo de me conceber sem os confortos primários, minha família aos retalhos, o turbilhão de transformações em meu sangue inocente. Aquele frio de noite sem umidades, perdas e ganhos de minha vida, o inédito a se desenrolar ali, a meu diante, de mim dependente. O instante me queria, queria minha interferência, minha querência, meu comparecer, meu poder e coragem. E pude. Parei de caminhar enquanto Vera ainda falava. Companheira sem igual e nossa oportuna e desejada solidão. Nosso acordo, tácito, o combinar sem dizer. Como explicar o que não se entende? Conto: Vera se virou, voltou atrás por três passos flechando-me o olhar. Parou em meu diante, tocou-me a boca levemente com o indicador, subiu na ponta dos pés e veio. Vera, alada, túmida, fada, intensa, por inteiro, se abandonou a mim, num beijo.
domingo, 16 de março de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário