quinta-feira, 13 de março de 2008

Vera III

Vera III

Já faziam doze anos que eu não cumpria aquela estrada, em rituais de retorno. Aquela ainda era a minha casa? Doze anos que eu não tinha a mínima capacidade de mesurar, de calcular profundidades, pesos. Aquilo era tempo, senti orgulhos e temores. Aliás, só fui capaz de chegar ao número doze mediante matemáticas e suas friezas. Aquele tempo passado era um produto que ignorava toda a substância do que vivi, todo o entremente. Inclemente é o tempo, passa ao redor de tudo e de todos. O tempo lambe. Mas alguma coisa em mim se desvelava intocada, percebia, à medida que o ônibus rosnava estrada afora, estrada de volta, reentrando naquelas distâncias. Acho que a gente é bem capaz de esconder certas coisas do tempo, nossos esconsos. E voltando caminho, descortinei-me, irremediável, para o ôco de mim mesmo, apontei uma lanterna tímida para aqueles tempos que deixei atrás. Revirei meus porões.
Saí daquele interior tempos atrás com dentes alvos de esperanças, mas também derramando caspas pelo caminho, os farelos de minhas aflições e inconformações. Minha mãe não foi contra o meu ir, minha Mãe é só amor, me abençoou, deu medalha benzida de Nossa Senhora, duas camisas que ela mesmo fez (eu não gostava muito das roupas que ela fazia, fora de moda, coisa e tal, mas me comoveu imaginar ela fazendo aquilo, sozinha, pensando em mim) e uma calça comprada na loja do centro da cidade, para ciúme amargo de meus irmãos. Os dois, mais novos, aceitavam bem aquele devir da vida ali, aquele presente massante, aquele nenhum futuro. Um enxergava mal, empregou-se numa farmácia. O outro é cismado, mal humorado, não estudou, estourado, pavio curto. Puxou meu pai, trabalhava com meu pai. Do meu pai é muito difícil falar. Foi dele que não me despedi.
A criança que fui aceitou sua ignorância e dureza de modos, mas quando fui me formando homem, aquilo foi ficando difícil. Mãe entrava no meio, me puxava pra perto de sua máquina de costura, me resignava, "Deixa seu pai pra um lado, meu filho, deixa ele prá lá", repetia aquilo, olhando pra costura pra não me olhar, pedalando a máquina, me deixando entrever naquela voz abafada que, de algum secreto modo, suas dores amargavam mais que as minhas, naquelas injustiças. Meu pai, homem de violão e alegrias, amigo de todos, menos de nós em casa. Mas não deu pra segurar muito tempo. A guerra se consumou pra valer quando eu, já rapaz, experimentando coragens, fui parar tonto de cachaças no Viriato. Era a zona boêmia e suas artes. A quenga, no durante da coisa, minha primeira coisa, me chamou pelo nome dele. Pelo nome de meu pai, o nome dele na boca daquela vadia pública. Eu parei o movimento. Cravei nela os olhos cheios de sangue e féu, no aço do momento. Aquilo gelou a mulher, que bem sabia o que é loucura de homem, que viu que embrasou minhas bestialidades. E depois que enfiei a mão naquela cumbuca, não fui mais capaz de tirar. Ele, marido também de outras, tantas, chegou a me dizer que eu não sabia nada da vida. Depois que levei o primeiro murro, "Você, se já é homem então, vai apanhar é de porrada", já no chão vi crescer plena e definitiva uma semente de ódio. Um chute no braço fora o último toque que recebera de meu pai.
No meio de densa nuvem vermelha de poeira o ônibus atracou finalmente. De roupa branca, vindo da farmácia pelo visto, meu irmão mal me enxergou, um olho semi-cerrado, sol quente de duas da tarde. Falamos pouco, aperto de mão frouxo, o costume, riu-se e brincou, gozou-me a barriga crescida. Perguntei de casa. Ele disse, olhando no nada, que na mesma. O que não era...
Sei lá o que era, pra ele, a mesma. Não costumava esclarecer muito as coisas com meu irmão, ele não enxergava direito, e qualquer tentativa de detalhar um assunto fazia aflorar seus complexos. Os cachorros já não estavam lá. 'Morreram, caminhão passou em cima". A casa me pareceu velha (sem uma demão de tinta desde minha partida), não exibia mais na porta a placa de minha mãe, "costureira", mas a sombra de tinta mais forte, que deixou ali, com o cobrir de anos daquela placa que divulgava o que todo mundo sabia, "costureira", no cozinhar arrastado dos quentes tempos. Tias, primos, madrinha, meu outro irmão (agora juntado com uma mocinha, me deu no colo um sobrinho...), vizinhos, todos no eterno alpendre de chão amarelo, as cores de minha memória se confirmando mais fracas, as dimensões apequenadas, paredes descascadas, o real cara a cara com a memória. Aquilo era ver o tempo riscando de rugas os parentes, crescendo os meninos, que herdam os mesmos modos, um mesmo ar. Meu pai, sobre um cavalo a meia distância, me via chegar. Quando viu que o vi, deu na rédea de um mesmo modo que cresci vendo ele dar. Tinha os mesmos cabelos brancos espichados de grandes, de barba igualmente branca e longa. Enquanto o animal girava, tirou-me o chapéu, saudou-me em entrelinhas. E mãe?
Aquilo foi o duro de ver e de viver. Na cama, no melhor vestido, vestido que ela já usava ainda no meu tempo. "Foi derrame, meu filho", gemeu minha madrinha. "No início ela ainda falava, disse pra não te contar, não te atrapalhar mais. Depois foi e foi e ficou assim". Ela me olhava, descia lágrima, descia. O grande cabelo (minha mãe nunca cortou o cabelo, lembro dela subir num banco pra minha madrinha poder pentear) espraiado para trás do travesseiro. Era dona de firmes opiniões e fé antiga, herdada, que não carecia de modernas confirmações. Aliás, ela não gostava de modernidades, nunca olhou pra televisão. Ao telefone, só me atendeu uma vez, num Natal. Ela ali me via, me sabia? Minha mãe ainda existia? Uma mão sua me apertava, a outra era sem seu governo, já. O olhar aonde? E muda.
Passei dois dias olhando aquilo tudo nos olhos. No terceiro, acordei de sonhos desconexos e consegui chorar. Me desceu aquilo, não reconhecia aquela casa, aquela gente, aqueles novos usos. Meu irmão morava junto com a mocinha na casa mais o filho, coisa que minha mãe não permitiria, se pudesse falar. O outro, arredio mais ainda, parecia estar mesmo ficando cego. Eu não podia interferir em nada, eu sou o que fui embora. Mas naquelas noites vi meu pai dormir em casa, na cama, ao lado de mãe. Na terceira manhã acordei mais cedo que todos. Ele estava lá. Fiz café, o café que ele uma vez disse ser o melhor que já provou. Saí pro terreiro, fui cortar uma cana. Vi de longe ele na porta, cabeleira acordando, parando depois de um gole a xícara de café diante dos olhos. Me reconheceu. Ergueu os olhos e me viu, o vendo. Parou ali assim um tempo a mais. Eu entendi, aquilo era uma porteira abrindo. Levei a cana e fui conversar.
Perdão que ele não me pediu. Foi o que fez a coisa agarrar. O que senti ressenti ali, diante dele, no fresco do momento. Doze anos é nada, prá essas traíras de nossas escuras águas. Me calou foi quando me olhou, confessando a dor que sentiu vendo mãe assim, quando aconteceu. Parou com o furdúncio. Recolheu-se em casa. Saiu com puta mais não. Jurou: "Hoje em diante, sou homem só de sua mãe". E eu, filho dele e sua imagem em muito, exigi artes de perdão pedido a mim. Ele mastigava a cana, dava pra ouvir a chapa na boca batendo no bagaço, ruminava aquilo já ha muito sem caldo. A palavra não vinha, ele tentando arrancar. O arregalo do olho, o dono das forças. Ele. Mas não foi capaz... Eu não me desfiz. Fui mal, deixando a brasa na sua pele. Passei o dia em silêncio, dentro do silêncio de minha mãe.
E deu a noite. Eu quis sair, me reatar um pouco comigo, reconquistas, respiros. Fui num bar, sozinho, lugar novo para mim. Conhecia mais ninguém. Soube que o lugar tinha um palco, e que nunca contratavam um músico profissional. O dono do lugar, pessoa de grande inteligência, pôs a regra: um violão à disposição e palco livre. Fui ver, aprecio música. Atravessei o portão de entrada, em curiosidades. Quando pus os olhos lá dentro, o grande e profundo estremecer. Segurando um copo plástico de uma bebida escura (talvez uma Cuba), estava ela, como que saltada de mim: Era Vera.

3 comentários:

Ju Carneiro disse...

ei Renato!
Recebi a notícia deste blog...vinha com uma sugestiva "discrição"!!!

Mas eu sou leonina, né!rsrs

Estou encantada com as prosas e poesias...com a sensibilidade e a escrita...

me peguei arrepiada com o epílogo dos contos caninos...posso dizer que consegui ver o "rostinho" daquele cachorro...rsrsrs...e louca para ler Vera IV...

Um lado Boechat muito legal de ver...ler...saudade das músicas!!!

Abraços...e parabéns...mesmo que repetitivo!!!

Ju

Blog do Boechat disse...

Caríssima JU!
Veja o céu sorrindo neste momento, com fogos de artifício qual Copacabana em reveillon! Que bom receber sua visita!
Além de fotografias, também inclinada à leitura?? Não me diga, perdoe-me a sonseira, eu já devia ter desconfiado...
Tudo tem uma razão de ser.
Um beijo e sorte em tudo!
As músicas voltarão, em breve!
Renato

Ju Carneiro disse...

Obrigada pelo carinho com que fui recebida nesta casa...
Um beijo...boa Páscoa!
Ju