Vera II
Fui viver minha vida, me lancei furioso ao trabalho e suas dinâmicas envolventes, coisa mais que oportuna para aquele momento. Olhando-me em retrospecto percebo que nem me dei conta das decisões e guinadas que tomei ali, sob o efeito da suave lembrança de Vera, aspergida docemente em meu espírito. Não me concebia em sofrimentos ou incapacidades. O próprio trabalho, sentia, chamava meu ser com toda intensidade: o trabalho em si queria realizar em mim alguma grande obra. Machado de Assis certa feita quis descrever um homem sem qualquer espécie de consolo ou refúgio. E o mestre mulato pintou a coisa assim: nem mesmo trabalho ele haveria de ter. Mas eu não estava tão castigado assim, eu tinha um ofício. Pode parecer estranho e contraditório, mas o trabalho, mesmo um que não te agrade, é ciência que pode entorpecer, aliviar, sossegar uma alma, com suas tantas exigências de dedicação e as recompensas pessoais e mesmo financeiras que é capaz de gerar. Aliás, que bela palavra esta, "gerar". Lembra que Adão e Eva foram condenados por seu pecado original a ganhar seu sustento com o suor de seu rosto? Foram condenados a gerar. Será mesmo castigo e condenação o trabalho? Ou será a mente vazia esta sim a pedra angular do tropeço, propícia oficina de Belzebu, que por este intermédio escraviza almas de vassalos ociosos?
Certo é que imerso em minhas lavouras fui perdendo as contas do tempo. Ou melhor, passei a sentir o contar do tempo de um outro estranho modo, como que por de dentro dele, eu passando na passada dele, me confundindo com ele. Sem nostalgias nem expectativas ou ansiedades. Eu que vinha vida afora trôpego, desconexo, borrifado, débil, finquei os pés numa espécie de hoje que não termina, que a tudo assimila e contamina. Sempre é um hoje que emana: Entendi. Quando o hoje espraia, é que já virou amanhã. Achei o tom da vida. Dissipei vícios, recolhi virtudes. E assim fui pagando minhas contas, tostão a tostão. E depois fui gerando economias, criando liberdades. E cresci para dentro de mim, perdendo o medo de meus escuros, ousando mais nos meus palpites, aperfeiçoando pontarias, afiando lâminas, dando a cara a algumas bofetadas mas surpreendendo milhares de blefes. Eu agora usava bigodes. Sendo todo este acontecer à sombra de um discretíssimo mas firme e real sentir, inconsciente mas ultra-presente, rolando meus dados, incitando-me, sustentando-me. Era Vera, interiorizada. Eu a farejava sem saber, os meus preparos. E por aquelas prometi a meus parentes, ao telefone, em solene anúncio de febril momento de eloquência e recém divulgada virilidade, uma visita. É, faria uma visita. Marquei uma viagem à casa interiorana de meus começos, para a farta visitação de meus amados por longo tempo de mim ausentes. A data foi fixada a esmo, por mim mesmo, um dardo que ousei lançar no sagrado seio do mistério.
E algum tempo mais se passou, até que o "hoje" tomou a forma do dia escolhido. Só que me surpreendeu desanimado, com minha lâmpada em plena excassez de óleos. É que me estremeceu o espírito aquela espécie de voltar. Pasmei na cama momentos confusos, chuvosos, revirei mortos, tempos de cães temperamentais, raivosos. O sumo de minhas loucuras, apartes, enchendo meus tanques. Olhei dentro daquela nata d'água de velhas amarguras, deixei meu rosto se refletir ali. Que homem ousaria olhar os olhos da loucura com pretensa lucidez? Nem eu. Desviei o olhar, que foi pousar num porta-retratos que estampava o rosto cálido e pleno de fé de minha mãe. A decisão saltou sobre mim. Saudades! Ergui o corpo, em choque elétrico. Calcei minhas botinas, removi esporas e espinhos. Rompi um espirro monumental, a celebração da alergia de minhas entranhas, e assoei meu nariz com despudor, me livrando. Me coloquei num ônibus. E me deixei chegar.
Continua
segunda-feira, 10 de março de 2008
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2 comentários:
Quando li seus primeiros escritos, achei que estava com saudades de casa.Não comentei por não saber lidar com blog. Vou tentar agora. Também tenho uma saudades de Berlim na minha vida. Estou me inteirando da Vera I e Vera II.É difícil acompanhar o seu raciocínio, mas não impossível. Beijos Maria
Caríssima D. Maria,
A presença do outro nos renova, reanima nossas pilhas. Assim me senti quando li sua mensagem por aqui.
Obrigado
Renato
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