Vera I
Em seu antológico livro "Cartas a um jovem poeta", o escritor francês Rainer Maria Rilke aconselha um seu pupilo, o Sr. Kappus (que dizia preferir uma carreira de escritor a uma carreira militar), a não escrever inicialmente e nem tão cedo sobre a matéria AMOR. As cartas reunidas se tornaram um livro, que por sua vez converteu-se numa espécie de manual sagrado para muitos, sendo constituído todo ele de cartas do autor para o pupilo (As do pupilo ao mestre não estão... Uma pena, tinha esperanças de aprender também com elas). Encontramos ali diversas indicações e juízos sobre a poesia, estilos, dicas sobre a coisa toda, e coisa e tal. Um tom sóbrio e paternal governa estas cartas, repletas de singelezas e polimentos no trato recíproco. Dizia Rilke, exatamente: "Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes." Parabéns ao Sr. Rilke, o livro é muito belo, as cartas plenas de bom senso, sobriedade e diligência. Mas quer saber? No meu caso, foda-se. Preciso falar de Vera.
Me lembro dela desde a era juvenil. Na parede de minha memória sua lembrança nem arde nem dói. Uma adolescente espichada e magra, calada, encostada numa parede da capela do colégio de padres onde fomos colegas distantes, ambas as mãos para trás. Pudesse, seria uma espécie ingênua de voyeur, tudo vendo sem ser vista. Mas pagava com visível sacrifício o simples fato de estar ali, pois para tudo ver e participar, como exigia seu mais íntimo desejo, devia também se deixar ver e abrir ao convívio e suas reciprocidades. É que ela tinha um sinal. E era bem no rosto. Na sua bochecha direita estava traçada precisa e definitivamente uma tangente ao ângulo da boca: Uma cicatriz de seis centímetros. Não lembro mais nada. Só que deste pouco nunca me esqueci.
Mais de uma década se passou até que nos víssemos novamente, na capital do estado, desta feita numa discoteca. A explosão de sua beleza encheu-me os olhos. Tornara-se uma mulher de sorriso franco, aberto. Tirara as mãos das costas e movia os braços em rotas desembaraçadas. Mas percebi que para além daquela franqueza minha curiosidade fascinada conduziu-me a um resquício da antiga timidez, emprestando a seu modo de ser um traço pungente de recolhimento. Vera me pareceu saber ser sozinha, moça de secretos combustíveis e suprimentos, senhora de um riquíssimo universo interior. E assim indicava pretender continuar, visto que me revelara aos gritos, com fogos de saudável alegria ao me rever, em meio à densa nuvem de sons da pista de dança, que viajaria ao exterior dentro de poucos dias, viagem de longa duração, em intercâmbios. Pisei os freios de prematuras expectativas. De meu silêncio exalaram lamentos. Mas como já sentenciado por Shakespeare, que só o imprevisível nos pode salvar... Mantive minhas janelas abertas.
sexta-feira, 7 de março de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
É a sua cara este "conto". Gostei.
Todas as fotos são da Kika? Muito belas. Parabéns.
Abraço
Mari
É a sua cara este "conto". Gostei.
Todas as fotos são da Kika? Muito belas. Parabéns.
Abraço
Mari
Oi Mari! Você por aqui, que boa surpresa!
Bem, a foto em que estou aos berros cantando é da Kika, mas a outra é um autoretrato, daqueles em que vc espicha o braço e aperta o botão da máquina.
Adorei sua visita. Volte sempre,esta é uma casa simples, mas é totalmente nossa.
Postar um comentário