(A acentuação continua sem funcionar nos títulos...)
Não que ele estivesse doente,
mas era de novo sua razão sempre maiúscula se antecipando a seus sentimentos, roubando-lhes a vez no fresco momento do agir, gerando-lhe certo grau de desajuste.
E também uma pressa, uma espécie de endemoninhamento. Aquilo era uma fome, uma urgência, uma miséria terrível.
E ele se sentou sobre uma pedra branca, e pôs-se a esperar sabe Deus o quê. Ele, que se retirou pouco a pouco do caminho comum dos homens, fora parar ali, no meio do nada, com a cuca leve, mas sempre acesa, ardendo sem se consumir. Este era o seu vício.
Aquela mente, aquele moinho, macerando dores, gerando fadigas possivelmente infecundas, retirando-o do mundo.
Mas não podemos crer que era doença, aquilo estava mais para um chamado. E aquilo podia durar, aliás, só serviria se fosse durar, ensinar-lhe paciências, trazer-lhe à tona a real matéria de seu caráter.
Ele se reservara da vida, mantendo-se a livre disposição do destino. Mas agora percebia a si mesmo contaminado de equívocos peçonhentos.
Era por demais agarrado a si mesmo, e este laço inoxidável assaz potente. Assim:
Tinha o ir e vir sem qualquer obstáculo, mas contemplava perplexo seu pouco desejo de se mover. E mesmo a coragem jazia escandalosamente escassa.
Não tinha ninguém para lhe pontuar a marcha, mas se sentia como uma espécie de sovina com a própria vida. A avareza parece ser uma árvore comum no pomar dos covardes.
Mas é justo dizer que ele conquistava seus centímetros, rompia seus breus pouco a pouco. E exercitava-se no vertiginoso prazer de jogar com a vida. Era um jogador tímido, mas inarredável. Só foram capazes de dar por sua presença no esvaziamento da mesa, ao se esvair o glamour das damas embriagadas e dos cavalheiros exibicionistas, quando a prudência recolhera à segurança de casa mesmo os melhores e mais espetaculosos jogadores. Afinal de contas, ele era alguém, e possuía como todos, apesar de parcas palavras, o tesouro maior:
Ele estava vivo, trouxera sua vida toda convertida em fichas e as portava pulsantes na mão por aquela hora de avançada madrugada. Poderia apostar como bem entendesse. Era agora apenas ele diante do Bookmaker, que o mirava com olhos líquidos, instigados mesmo no exíguo momento. Aquele Bookmaker sabia reconhecer um bom jogador, e respeitar com devoção e profundo silêncio o sagrado momento da ousadia última de um homem.
Venceria?
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6 comentários:
Recebi o endereço.. passei pra dar uma "olhada.." e então li.. e reli.. para desenhar melhor os detalhes na mente! gostei duas vezes!!! Parabéns ! sucesso, expontaneidade e inspiração sempre! e nós estaremos viajando juntos na leitura!
Lu - Jund- SP
Benvinda Lu, como andas por aí, em Jundiaí? Boa notícia saber que cultivas a rara planta do gosto pela leitura, e que por ela chegaste até aqui. Este blog é para estes raros como você.
oops: corrigindo um pequeno lapso: eSpontaneidade! (ufa)
Isquenta não... Você pode.
Ô RB,
Muito envolvente este conto; inclusive, me identifiquei com alguns períodos dele. E isso é muito bom para nós, meros leitores, né? Ah! E já tenho a resposta final (qta audácia a minha e qta interfência!): ele venceria sim, porém se encontrasse referências significativas para a sua vida cotidiana e sem coragem e ainda: se usasse exatamente o que sentia para se tornar livre e trilhar um caminho que ele mesmo se propusesse a cumprir com resignação. Viajei muuuuuuuuito??? rs..rs.rs...Por favor, continue nos presenteando com estes escritos.
Inté, AP
Nossa Senhora!
Quão ilustre é tua presença aqui registrada! AP! AP! AP!
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