sábado, 1 de março de 2008

"Eu me amo, mas não me admiro" (Erico Verissimo)

(A acentuação continua sem funcionar nos títulos...)

Não que ele estivesse doente,
mas era de novo sua razão sempre maiúscula se antecipando a seus sentimentos, roubando-lhes a vez no fresco momento do agir, gerando-lhe certo grau de desajuste.
E também uma pressa, uma espécie de endemoninhamento. Aquilo era uma fome, uma urgência, uma miséria terrível.
E ele se sentou sobre uma pedra branca, e pôs-se a esperar sabe Deus o quê. Ele, que se retirou pouco a pouco do caminho comum dos homens, fora parar ali, no meio do nada, com a cuca leve, mas sempre acesa, ardendo sem se consumir. Este era o seu vício.
Aquela mente, aquele moinho, macerando dores, gerando fadigas possivelmente infecundas, retirando-o do mundo.
Mas não podemos crer que era doença, aquilo estava mais para um chamado. E aquilo podia durar, aliás, só serviria se fosse durar, ensinar-lhe paciências, trazer-lhe à tona a real matéria de seu caráter.
Ele se reservara da vida, mantendo-se a livre disposição do destino. Mas agora percebia a si mesmo contaminado de equívocos peçonhentos.
Era por demais agarrado a si mesmo, e este laço inoxidável assaz potente. Assim:
Tinha o ir e vir sem qualquer obstáculo, mas contemplava perplexo seu pouco desejo de se mover. E mesmo a coragem jazia escandalosamente escassa.
Não tinha ninguém para lhe pontuar a marcha, mas se sentia como uma espécie de sovina com a própria vida. A avareza parece ser uma árvore comum no pomar dos covardes.
Mas é justo dizer que ele conquistava seus centímetros, rompia seus breus pouco a pouco. E exercitava-se no vertiginoso prazer de jogar com a vida. Era um jogador tímido, mas inarredável. Só foram capazes de dar por sua presença no esvaziamento da mesa, ao se esvair o glamour das damas embriagadas e dos cavalheiros exibicionistas, quando a prudência recolhera à segurança de casa mesmo os melhores e mais espetaculosos jogadores. Afinal de contas, ele era alguém, e possuía como todos, apesar de parcas palavras, o tesouro maior:
Ele estava vivo, trouxera sua vida toda convertida em fichas e as portava pulsantes na mão por aquela hora de avançada madrugada. Poderia apostar como bem entendesse. Era agora apenas ele diante do Bookmaker, que o mirava com olhos líquidos, instigados mesmo no exíguo momento. Aquele Bookmaker sabia reconhecer um bom jogador, e respeitar com devoção e profundo silêncio o sagrado momento da ousadia última de um homem.
Venceria?

6 comentários:

Anônimo disse...

Recebi o endereço.. passei pra dar uma "olhada.." e então li.. e reli.. para desenhar melhor os detalhes na mente! gostei duas vezes!!! Parabéns ! sucesso, expontaneidade e inspiração sempre! e nós estaremos viajando juntos na leitura!
Lu - Jund- SP

Renato Boechat disse...

Benvinda Lu, como andas por aí, em Jundiaí? Boa notícia saber que cultivas a rara planta do gosto pela leitura, e que por ela chegaste até aqui. Este blog é para estes raros como você.

Anônimo disse...

oops: corrigindo um pequeno lapso: eSpontaneidade! (ufa)

Renato Boechat disse...

Isquenta não... Você pode.

Anônimo disse...

Ô RB,
Muito envolvente este conto; inclusive, me identifiquei com alguns períodos dele. E isso é muito bom para nós, meros leitores, né? Ah! E já tenho a resposta final (qta audácia a minha e qta interfência!): ele venceria sim, porém se encontrasse referências significativas para a sua vida cotidiana e sem coragem e ainda: se usasse exatamente o que sentia para se tornar livre e trilhar um caminho que ele mesmo se propusesse a cumprir com resignação. Viajei muuuuuuuuito??? rs..rs.rs...Por favor, continue nos presenteando com estes escritos.
Inté, AP

Renato Boechat disse...

Nossa Senhora!
Quão ilustre é tua presença aqui registrada! AP! AP! AP!