quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

E agora, Cuba?

Recebemos esta semana, do alto de nossos tênis Nike e dentro de nossas Merecedes Benz e com facas Guinso em punho, a incrível notícia de que Fidel Castro deixou o poder. Ou como ele justificou a coisa, deixou "de poder" conduzir seu país. É uma notícia e tanto, uma página da história que custou a se virar. 50 anos de poder.
Eu não sou analista, nem crítico de nada (graças a Deus, ser crítico é uma tristeza...Nossa, depois eu conto um episódio, um infortúnio com um crítico cretino de música de BH, credo...), mas algumas coisas saltam aos olhos, além do eclipse lunar da semana passada (viu que maravilha? Deus existe!).
É que não sabemos nada. Repito, não sabemos nada. Em tempos de avanços e tecnologias midiáticas simplesmente não sabemos o que se passa em Cuba, além do vôlei feminino, dos pugilistas que deram o cano nos jogos e se mandaram... Comenta-se que Fidel com seu regime deixou um país magrelo, por lá um índice baixíssimo de analfabetismo e um altíssimo de prostituição...Diz ele que a história, a posteridade, o dará razão. Será que vamos viver tanto até a posteridade se manifestar?
Olha, como achar o quê a respeito se não sabemos os fatos? Venho aqui pregar a desconfiança. As tais "Agências de notícias" manipulam tudo, mostram inverdades, ocultam, distorcem. Deviam se chamar "Fábricas de falsas verdades".
Você sabe, leitor, por exemplo, exata ou aproximadamente, o que se passa no Iraque atualmente? Por quê os americanos invadiram aquilo lá, afastando com a lateral do pé a ONU como uma barata morta, e o escambal? Eu não sou capaz de ter uma opinião, pois eu não sei dos fatos. Ninguém fala oficialmente que o motivo é o petróleo (que esta semana, dizem, atingiu sua mais alta cotação histórica). Estou vivendo um momento mineiro, estou muito desconfiado. Já nem sei se torço pro dólar cair (melhor pra importações) ou subir (melhor pra exportações). Eu, terceiro grau completo, querendo saber, não sei. É que não querem nos contar nada da realidade, colocam o joelho do Ronaldo na frente, a bunda da menina do BBB, ai ai ai...Paulinho da Viola, em entrevista à revista Playboy, disse não saber responder uma pergunta aparentemente simples, se o Brasil ficou melhor com Gilberto Gil no ministério da cultura. Disse: "É tão complexo que eu não tenho elementos para fazer uma análise."
Caramba, coisas importantíssimas acontecendo, e eu não tenho bases nem pra uma opiniãozinha. E você, meu caro, que está aí agora olhando pra esta tela, pagando previdência, com medo do Aedes Aegypt, sustentando este mundo, tem alguma opinião? Um habitante da antiga Esparta (um espartano...), perguntado por que os espartanos bebem pouco vinho, respondeu certeiro: "Para que outros não decidam sobre nós, mas nós decidamos sobre os outros". E tu, até que ponto te embriagas no cálice da ignorância?
Confira sempre os seus olhos.
Conto Canino pra todos.

Conto Canino parte IV - Epílogo

E por quê eu, depois de velho, contraí tanta dificuldade para dormir após o almoço? Duas horas e meia me revirando, quarto em absoluto silêncio, cortinas fechadas, temperatura amena, pijamas, e eu pensando no miserável cachorrinho que me abordara e me rouba uma sesta. Aquele pingo de vida, de olhinhos líquidos e remelas, ainda galgava seus passinhos miúdos, ligeiros, em minha memória. Aquela vida que não deve durar... A absurda contemplação de um corpo sem vida. Fidel, eu te lembro! O trânsito da vida: vinda de não se sabe onde, ida para onde não se sabe, e as marcas que deixa! A absurda constatação de que estou vivo, respirando, querendo coisas, contemplando e sendo contemplado: eu existo, um cão me viu! E eu vi um cão, e não entendo o que é o mundo com aquele cão, e entendo menos ainda o que será o mundo daqui a dois dias, sem aquele cão mendigo, que encontrei no portão. Sesta encerrada, chega de pensar nesse bicho! Levanto-me para trabalhar.
Trajeto contrário: paletó, banheiro, dentes, porta da sala, dois lances de escada abaixo, garagem, automóvel, portão (já pensando no Fórum, não devo me atrasar...) e moças. Mocinhas adolescentes ali no hall do prédio, batendo uma bola de vôlei no chão, shortinhos curtos, cochicham quando passo, e gargalhadas... A Vera, atrevida, já tomada inteiramente dos segredos de mulher, acende um cigarro, faz-me desviar, pedir fogo. Aposto que fuma escondido! Faz-me retribuir, trocar olhares, ela se afirma, eu deixo. Eu a promovo a mulher adulta, crescida, companheira de fumo. As outras esperam por Vera. Outra tem a bola debaixo do braço, chama o nome de Vera, pra continuar a brincadeira. Vera, que não tem pressa, que demora mais a voltar, que me demora um segundo a mais o olhar. Eu tinha o meu isqueiro, mas tive de aproximar-me, bulir naquilo, vê-la de perto. Mas o que vi foi a mim mesmo, velho: velho pra tenra e explosiva beleza de Vera.
E no trânsito encrencado até o Fórum, lugar de advogados como eu negociarem as entrelinhas da justiça penso, triste, em minha ex-mulher, em minha filha, na casa que tivemos, naquela felicidade que não me bastou, no insustentável para mim, mas que não desgarra de mim. Anos já se passaram, e tudo volta a acontecer em meus pensamentos. Eu, que pensei em poder recomeçar, rejuvenescer, namorar de novo, tornar a sentir os sabores, os fascínios das paixões. E eu pensando que, separado, estaria livre, sinto-me agora um coroa asqueroso, morador solitário de um pequeno quarto e sala, importunando uma adolescente, fazendo programas com moças universitárias - a nova geração de putas - fumando além da conta, vivendo além do peso, minha alta pressão arterial e meu ridículo olhar de forçosa juventude dentro de minha sofrível carcaça. Tarde demais para reconhecer erros, tarde demais para voltar atrás. Ano passado Emília se casou de novo. Ela que tanto me queria, que sofreu horrores quando saí de casa, quando descobriu traições, minhas tantas mentiras, minhas tantas ambições...
No péssimo trânsito, julgo que meus pensamentos fazem ainda mais barulho que o rumor de buzinas e motores no escaldante calor desta avenida Cristiano Machado, onde nada, nada mesmo, me parece interessante. Que graça tem sair para o trabalho, para o mundo ou férias que seja, sem um pivô de volta? Eu devia ter tido mais paciência, devia ter tido um bom amigo, conservado minha família, na qual eu tinha alguma importante função. E então minha mais terrível pergunta: Para onde prosseguir, para o quê prosseguir, qual o sentido de prosseguir?
“Obrigado, não quero comprar goiabas”!
“Não, menino, eu não tenho moedinhas”!
E mais uma propaganda entregue no sinal, um lançamento imobiliário próximo ao Fórum, um Flat de vários quartos e vagas na garagem, espaços de sobra para um solteiro como eu. Nem me faria bem comprar um daqueles: muito espaço faz doer mais a solidão. E minha imensa conta bancária me fertiliza as dores, pois é inútil. Preciso de uma espécie de perdão, no meio deste trânsito que encafifou de vez, que já não anda um metro que seja faz tempo. Abriu-se uma brecha na pista ao lado, uma solução talvez. Troco de faixa, quem sabe aqui a coisa flui? Mas não, pior, alcanço agora um veículo de tração animal - uma carroça. Estou atrás de uma carroça, eu preciso trabalhar! Eu tenho compromissos! Eu tenho horário, prazos! Eu preciso me esquecer de mim, chegar logo ao bendito Fórum! Eu quero passar! E grito a buzina do carro. O carroceiro leva um refrigerador, olha para trás, com ar de desprezo, se vinga do meu Mercedes.
O congestionamento é imenso, mas minha buzina fez acordar e levantar uma cabecinha de dentro da carroça. Um cãozinho ergue a cabeça, apóia as duas patinhas numa tábua, e me olha. E algo se move dentro de mim. Eu conheço aquele olhar, aquela orelhinha caída: É ele, o meu vira-latinhas do portão, aquele que ia morrer daí a dois dias e que não vai mais. Encontrou alguém que o pegou pra si e vai tomar conta, e agora me olha de novo, num outro lado da cidade, num capotar do destino. Agora é ele que assobia para mim.

5 comentários:

Anônimo disse...

ridiculo
simplesmente ridiculo

Renato Boechat disse...

Amigos, neste blog todos são bem-vindos, cada visita feita me estende os pulmões de alegria e contentamento, ainda que seja uma visita anônima, em plenas carrancas. E "By the way", sempre lembramos que toda palavra proparoxítona pede, clama, exige, vindo dos infernos que seja, acentuação em sua sílaba tônica.

Anônimo disse...

Grande Boechat!!!!!
E agora Cuba?
Para refletir sobre o tema, sugiro 2 filmes, com visões "antônimas": Dários de motocicleta, com Garcia Bernal, e Havana: Cidade Perdida, com Andy Garcia. Aluguem num destes fins de semanas, assistam um logo após o outro, e tirem suas conclusões. Pessoalmente, prefiro a Cuba de Andy Garcia...
Grande abraço e parabéns pelo Blog! Estou sempre dando uma passada por aqui e relendo os contos (aqueles que já tinha lido em seu caderninho surrado e também os novos!).
P.S.: o ridiculo - transcrevi como o original - não te soou familiar, como que saído das teclas de um velho amigo putão?
Ah! A mônica tá mandando aquele abraço e perguntou se vc recebeu o e-mail sobre Buenos Aires.
Beijo procê!

Anônimo disse...

Meu nome e Felipe Boechat (Valadarense, ausente tambem, filho de pai e mae, e primo do Renato).

Senhoras e senhores... caros leitores deste blog fascinante...
E quase indizivel o que tenho em mente a respeito deste blog, mas vou tentar.
F-A-S-C-I-N-A-N-T-E
U-T-I-L
I-N-T-E-L-I-G-E-N-T-E
S-U-P-E-R-L-A-T-I-V-A-M-E-N-T-E S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L
ETC E TAL (COM PALAVRAS DO MESMO NIVEL)
Muuuuuuuuuuuuuito bom...
Renato, carissimo primo, maus mais sinceros parabens!
Eu nao tenho muito tempo para ler tudo (minha internet e muito lenta e nao posso ficar muito tempo on-line, rapaz... rodar o mundo ajuda muito agente enxergar o Brasil com olhos diferentes) entao eu apenas copiei todos os artigos e depois vou ler todos, um por um.
Mas, eu li o E agora, Cuba?
Cara, simplesmente genial. A frase... " Eu, terceiro grau completo, querendo saber, não sei" analisada no seu contexto merece uma moldura!
As criticas a nossa midia foram otimas, na mosca, simplesmente na mosca!
Eu me senti da mesma forma que voce se sentiu, ou melhor dizendo, sente, varias vezes. E tambem nao foram poucas as vezes em que desisti de pensar sobre certos assuntos, pelo mesmo motivo que voce mencionou, falta de informacoes, e a infidelidade daquelas que possuimos. Sem contar que existem 6529873394 de angulos e... rapaz... ainda bem que voce disse em outra parte (ainda que em um contexto diferente) que Deus existe, porque se Deus nao existisse eu poderia sim, arrancar os cabelos, aaaaa sim, por varios motivos arrancaria todos, inclusive os do nariz!?:-)
Mas Ele vive!
Como disse antes, meu tempo e limitado! Gostaria sim, e muito, de escrever mais (muito mais) elogiando o seu artigo, adoraria dissertar e expandir o ponto que voce fez!
E digo mais... sao poucas (acredite... muito poucas) as vezes que leio um artigo/livro/revista que me deixam com o queixo caido e com o cerebro sorrindo!
A voce, caro autor, meus mais sinceros parabens.



Meu segundo assunto (muito importante, porem breve)... Para o comentario que voce fez a respeito do "anonimo"... Ei-lo:
-AI AI AI AI! AAAAAAIIIII!



Meu terceiro assunto... para o "anonimo"
Eu me lembro de uma frase dita por um amigo (nao de sua autoria, apenas de seu conhecimento):
"- Posso ate nao concordar com as palavras que voce diz, mas defenderei ate a morte o direito que voce tem de dize-las!"
Quando ele me disse isso eu achei genial! Nao e verdade? "Todos devemos ter o direito de dizer o que pensamos" foi o que pensei entao...
Mas, voce me fez pensar 2 vezes a respeito...

Unknown disse...

Como é que alguém que não sabe acentuar uma palavra, e provavelmente não sabe que as regras de Acentuação continuam vigorando(apesar do barulho da mídia) se sente no direito de criticar, principalmente de fazer uma crítica tão pobre, com um único adjetivo? Acredito que as verdadeiras críticas sejam bem vindas, mas que sejam críticas de quem lê e entende o que se leu.
"Quem não Lê, Fala mal, Ouve mal, Vê mal." Conhecimento básico de quem Interpreta.
Vai...!!!