Era um bassê, negro, com as extremidades marrons, comprido, e com aquelas perninhas não proporcionais ao corpo, que nos fazem amar um bassê ao primeiro instante. Fidel era nosso passatempo predileto, nosso mascote. Não precisava coleira, vivia solto nas avenidas litorâneas de areia e não ia embora. Cão de extrema sagacidade, Fidel sabia quem era seu dono, o meu tio Rúsvel, um ex-sindicalista farto da vida de capital, que preferiu mudar-se com a família para uma pequena cidade no litoral do Espírito Santo e ali abrir um bar de petiscos e frutos do mar.
Exímio nadador, Fidel passava o dia na praia com a gente, buscando bolinhas que longe arremessávamos, fazendo guarda a nossos castelinhos de areia, correndo as grandes distâncias abertas frente ao mar, indo conosco em escaladas nas complicadas pedras, também nos passeios de barco em alto mar. O nosso grande companheirinho Fidel tinha um coletinho salva-vidas, nos lambia até a boca. Até o triste dia, inesquecível para mim, em que chegou a notícia de que o Fidel foi atropelado por um caminhão que vendia gás de cozinha. Todo mundo saiu correndo e se ajuntou em cima dele. O pior é que ele não morreu na hora: com o terço inferior do corpo esmagado, gritava dores, chorava alto. Tio Rúsvel largou sozinho o bar, veio de lá correndo com meu pai, afastaram a gente, pegaram o Fidel, e diagnosticaram que ele não ia sobreviver, mas que demoraria a morrer e que sofria fortíssimas dores. Optaram por sacrificá-lo com um tiro de revólver, e nossas férias foram tristes demais daquela vez. Fizemos um enterrinho e tudo o mais. Minha mãe até rezou pela alma do Fidel. Quando mais velho percebi: a comum eutanásia de cães.
Em minha sesta termino por concluir que cachorro nenhum vai pro inferno, tanto um herói como Fidel ou mesmo um inútil como aquele vira-latas, que me abordou no portão e me deixou assobiando sozinho. Porque o universo dos cães é fascinante, sua companhia, sua lealdade, sua incompreensível inteligência. Tempos atrás, nos Estados Unidos, um cão chegou a chamar socorro, via telefone, para sua dona, uma senhora que infartava! Creia-me, ela já cadastrada a uma lista de pessoas solitárias e com estado de saúde em risco, foi localizada durante o ataque cardíaco graças à identificação feita pela polícia de seu número telefônico, numa chamada feita à delegacia em que só se ouvia latidos caninos. Não é incrível? Se pelo menos um cão na história fosse capaz de falar, quantas perguntas não teríamos a fazer! E além: para algumas culturas africanas, o cão é um animal sagrado. Esculturas de cães talhadas em madeira são parte de seus rituais de expiação de culpas: amarrando-se tiras de cipó que simbolizam uma sua culpa a pregos fincados no cão de madeira, alegam ser o cão um ente sagrado que carregaria para longe suas culpas a ele confiadas, pois esse teria livre trajeto entre o mundo material e o mundo dos espíritos. Isto porque os cães conseguiam entrar na floresta - para eles a casa dos espíritos - e explorá-la extensamente sem se perder, achando por fim o caminho e retornando à tribo.
continua
domingo, 24 de fevereiro de 2008
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