sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Conto Canino Parte II

Parte II

Seja o que for, o que viu pareceu não corresponder aos ideais de felicidade e prazer do animalzinho. Não teve lá grandes esperanças ao me ver, visto que ele, do alto de sua absurda autenticidade, lançou mão de seu livre arbítrio e deu de costas, deu de ombros, “se mandou”. Seu aspecto me sugeriu: “Não dura mais de dois dias, vai morrer logo”. Estava magro demais, sem tratos ou carinhos, e ainda por cima naquela avenida movimentada, vem um carro e ele já era! Num atravessar de rua vira uma mancha no asfalto.
Aliás, o que faz um cão atravessar a rua? Um cão sabe o que é uma rua, uma quadra? Seriam os cães animais urbanos? Talvez! E até podia ser que aquele ali, uma vez morto, se julgado fosse, levando-se em conta seu passado, por nossa consciência e tribunais, seria mandado aos infernos por fim: passou a vida sem ser útil, sem vigiar uma casa, sem alegrar uma criança, sem fazer companhia a um senhor velho e viúvo, sem os dons de guiar um cego, sem ser bonito que seja, só pra gente admirar... Nada! Pode ser, alegue-se, que ele não teve oportunidades: dia-a-dia na rua, o mais provável é que seja filho de uma dessas cadelas também perambulantes, oprimidas sempre por incômodos e sucessivos cios, que desorganizam suas economias físicas e particulares. Sua mãe talvez fosse assim: perseguida pela matilha faminta, exalando o perfume maldito, que a natureza achou por bem de enfiar naquela desgraçada cadela, que a faz morrer de medo do bando noturno de cães querendo devorá-la, montar seu dorso, e então boquiaberto e de pendente língua, friccioná-la até uma sucessão de espasmos finais. A pública cópula dos cães, que se estende ao ponto de prendê-los, atá-los um ao outro longamente, agora de costas, incapazes de se olhar, agora esperando a febre passar, pra se soltar um do outro, pra nunca mais se verem ou se acompanharem. Talvez num próximo cio tudo de novo, e nada mais. Depois a solidão, a grande barriga, enjôos, o parto sem ajuda, dores, exaustão, maminhas intumescidas, leites, alegria de fazer mamar toda a ninhada, filhotes que se vão depois soltos no mundo, até chegar ao meu portão que seja, e que ainda se vão. Razões de vida, de uma cadela irracional cujo filhote me aborda, como a vida exclama que quer existir, mesmo no imundo, no ligeiro e indefeso, tanto no imenso quanto no átomo. Tento prosseguir minha sesta, agora alvejado por lembranças, de um longínquo cãozinho, que conheci numa pequena cidade litorânea, dada a veraneios.
Eu era uma criança. Habituado a apartamentos, tinha nos passeios de verão com a família ocasiões em que podia explodir os fogos de minha meninice, algumas semanas anuais em que fazia vazar fora uma espécie de alegria física, geralmente bloqueada pela gama de regras e normas de todo condomínio. Zé Afonso era o terrível síndico, sistemático, sempre sentado no saguão em sua cadeira de fios plásticos redondos, de chinelos, a ouvir um enjoativo rádio que nunca conseguia sintonizar. Era ele quem perseguia, quem proibia, quem enchia nossos jogos corredores afora de uma atmosfera de temor e desafio, de uma tensão que nos levava a artes, a premeditações. Bombas soaram naquele edifício, cortes no padrão de luz quando alguma visita infeliz utilizava os elevadores, gatos enviados portinhola abaixo do túnel de lixo, a chusma de trotes de campainha. Aposentado por invalidez, falava-se que Zé Afonso sofria depressões, que tinha dentes postiços, e que passava o dia inteiro e boa parte da noite ali na portaria do prédio, mesmo sem ser porteiro, por não suportar a opressiva presença da mulher. Certo é que sua excelente memória nunca perdoava nada. E o pior é que fazia questão de ser síndico, sempre reeleito naquilo que ninguém queria. E seus amendoins! Ele ruminava aquilo dia e noite, sentado abaixo da vitrina que protegia o quadro de avisos de carpete verde-sinuca, onde estavam afixados por tachinhas os ofícios contendo as regras internas como horários para o transporte de mudanças, limites de passageiros para o elevador, a contabilidade do condomínio, anúncio de reformas e planejamentos, impedimentos ao salão de festas, limites de silêncio... E em negras e garrafais letras o texto exclamava eloqüente, em parágrafo único, a eterna e absurda proibição: cães não eram permitidos no condomínio. Mas pai fazia questão de nos tirar de tudo isto uma vez ao ano, de nos levar à praia, onde tudo era outra coisa: sempre sem camisa, sempre em pés descalços, picolés, frescobol, novos colegas, piques de esconder, tardios horários de dormir, férias! Numa destas conheci Fidel.

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