sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Fosse como fosse...

Fosse como fosse, ele jamais seria assim, como queriam alguns...
No que dependesse de mim, não relutaria em descrevê-lo com as minhas melhores palavras. Imagine, um homem consciente de suas selvagens vocações, contrito, de consciência aguçadíssima, e que aceita padecer de seus reveses, nóias, neuras, pulgas. Acho até que ele deveria pecar mais e melhor.
Mas ele não mudaria, fosse como fosse, a menos por um qualquer misterioso impulso interior, que jamais viria. Não que ele prescindisse da realidade; a ela era ainda atado por qualquer tênue teia de aranha, que o garantia ainda qualquer sustento e circulação entre os homens. Mas seus olhos de animal jovem, irremediavelmente voltados para dentro de si, protegiam seus passos, esquivavam-no de qualquer promessa de redenção exterior que não conferisse com suas "des"-medidas internas.
Não, fosse como fôdasse, ele jamais seria assim como ditavam os caprichos desses tais outros, sempre ofendidos e ameaçados por tudo o que é diverso, novo.
Tradicionais, saibam:
- São estes malditos, doentes febris, que renovam vossas tediosas vidas, que vos aliviam das insidiosas torturas a que vós vos submeteis uns aos outros!
Não gosto do geral. Só a excessão é real. Só o excesso nos basta.
Também a abundância é sinal de divina proveniência.

VALADARES E BERLIN
PARTE III

Fomos para a rua Trinta de Janeiro, sempre na banda Oriental. Ali cumpri meu tempo de estudos ginasiais, adquirindo a consciência (e sofrendo duramente) do principal transtorno que a linha férrea causava. É que às exatas seis e trinta e cinco da manhã atravessava ali diariamente uma composição de duas locomotivas que tracionavam uma eterna fila de vagões, e assim nos impunha: ou cruzávamos para o Ocidente antes das seis e trinta e cinco (e para isto devíamos acordar mais cedo para o colégio e lá chegávamos bem antes do início da aula e nada ali se tinha para fazer) ou fatalmente chegar-se-ia atrasado, pois a composição nos estenderia seu infindável rabo de vagões, nos paralisando diante de si completamente, nos fazendo perder a aula das sete horas. Que pesadelo era chegar adiante da linha e, no justo momento de atravessá-la, ouvir o sino de advertência e ver o descer da cancela. Sinais que diziam, a nós orientais, que a próxima meia hora de vida seria totalmente desinteressante... E víamos o progresso de tudo, menos de nossa porção oriental. Mesmo os trens evoluíam, desapareciam os trens de lenha, chegavam as modernas locomotivas movidas a diesel. O trem expresso, de passageiros, deu lugar ao singular "Rápido". E nós ali, imóveis diante do movimento do mundo, das máquinas, de seus infintos rumores, rítmicos no bater das rodas numa emenda de trilhos. Nós naquela coisa imposta, orientais feitos iguais na espera, comuns. Os mais ricos e os mais pobres igualmente esperavam, parturientes que fossem, estavam sujeitas à mesma condenação. Sãos, doentes urgentes em ambulâncias, orientais, esperavam. Reconhecía-se quando havia um ocidental ilhado em nossa área, em impaciências e iras hediondas, pelo simples fato de que não eram habituados à resignação e mantinham seus automóveis com motores ligados durante a longa espera. Nada os livrava de esperar conosco, pois contra o trem não adiantavam seus tantos "jeitinhos", influências, nada. O trem era soberano.
       Lembro-me que até a Avenida Minas Gerais foi sinal da imensa discrepância de realidades que a linha férrea regia. Por anos conservou o calçamento irregular em paralelepípedos na sua porção Oriental. Já seu trajeto Ocidental recebeu da modernidade um belíssimo entapetamento asfáltico, com modernas sinalizações de trânsito em branco e amarelo e superfície extra-lisa, para a comodidade dos condutores ocidentais. Do lado de cá da linha (curiosamente os orientais chamam o Ocidente de "depois da linha", termo que e os ocidentais também empregam, por sua vez para designar sentido contrário,o Oriente) víamos o futuro acontecer na Princesa do Vale, com uma alegria pontada de dor, pois era futuro belo mas injusto: ficáramos para trás... Mas com singela e recolhida alegria desfrutávamos de nosso oriente. Nos fins de semana frequentávamos o Country Club, adorávamos a pizza à moda, de pimentões e negras azeitonas da Waldinelly, frequentávamos a paróquia de Nossa Senhora das Graças, onde meus pais se casaram. Uma irmã de minha mãe (minha tia, logicamente) fez até pequena fortuna em Valadares Oriental, vendendo linhas Corrente e fecho eclair num pequeno armarinho que administrava, ali bem adiante da linha, brilhante ponto para a venda de miudezas gerais. Vinda então a inevitável adolescência, chegou outro caminhão de mudanças lá em casa. E nos mudamos outra vez....
       E agora para um bairro do extremo oriente da cidade, o Grã Duquesa. Eu sonhava em morar na Ilha dos Araújos, com suas belas e ricas casas, no extremo Ocidente. Tinha naquele tempo uns olhos idênticos aos que via na TV nos rostos dos jogadores da Alemanha Oriental quando enfrentavam seus potentes e adversários irmãos (pois assim os fazia o muro) da Alemanha Ocidental. Era contemplar e enfrentar o inalcançável. Na Ilha estavam os bares, a juventude. O Grã Duquesa era longe, farto de pivetes que me tomavam a bicicleta. A marginalidade se alastrava em Valadares Oriental, ao passo que a Ilha e o Centro, ocidentais, cobriam-se de mimos. E então eu, adolescente oriental, coberto de espinhas e voz ingovernável de extremos graves e agudos, vi, na década de oitenta, no auge de meu desespero sufocante (pois, para a loucura de minhas espartanas esperanças, nossa família aprontou a mudança mais uma vez, agora em direção ao recém-loteado bairro Morada do Vale, confim último do Oriente...) vi, caríssimo e persistente leitor, o anúncio da maravilha, o esplendor, a divina dádiva que liberaria, finalmente, os membros inferiores de minha cidade. O muro vai cair! O muro vai cair! O Diário do Rio Doce exibia, em letras garrafais numa volumosa edição dominical, a explêndida notícia: "Terão início as obras do Mergulhão".

CONTINUA

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