segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Epilogo

NONSENSE VALADARENSE
VALADARES E BERLIN - EPÍLOGO

E o que vinha a ser o Mergulhão, entidade esta que significava  o fim de nossas penas, a queda do muro? O nome ilustra bem o sentido da obra: era uma passagem livre, sempre aberta, por debaixo da linha férrea, reatando as duas dimensões da avenida Minas Gerais. Por ali escoaria nossa liberdade, nosso mais pleno ir e vir. Valadares seria, a partir dali, indivisível para sempre, teria as pernas livres, caminharia inteira rumo à prosperidade e ao progresso. Eufórico, pirotécnico, jovem inexperiente, demorei a me dar conta de que mesmo mudanças tão desejadas, progressos tão almejados, justos, santos, causam transtornos imensos. Como choveu naquele ano, meu Deus! Precisaram desviar o trânsito da Avenida Minas Gerais, causando uma incômoda escoliose em nossa cervical via de trânsito, tudo isso exatamente para liberar o canteiro de obras para nossos futuros mergulhos. Por meses a fio esperamos, espiávamos o avançar das obras por entre as placas de madeira que a isolavam, protegendo aquilo, lamentando as chuvas, que não parassem aqueles santos homens, de santas máquinas e engenharias, a construir nossa via de liberdade.
       Mas como sabíamos esperar, a alegria até que não tardou muito. No dia 6 de julho de 1986 vimos a estrela de Davi brilhar no céu. Fora inaugurado o viaduto "José Batista da Silva", o nosso Mergulhão, com grande comparecimento de populares, que se acotovelavam diante da guinada de suas vidas. Estava pronto!
       Inesquecível a primeira vez em que atravessei o Mergulhão, minha mãe ao volante, sentimos aquilo juntos, nossas fossas nasais finalmente desobstruídas. Foi mágico!
       E pouco, três anos depois, lá no velho continente, veio abaixo o muro de nossa prima Berlin. Que é o espaço de três anos quando contemplamos as páginas da História? Faliam os ideais de Karl Marx, surgia a Perestroika de Gorbachev com a abertura das férreas cortinas russas, e portentosas correntes de ar varreram de consequências o mundo político. Jovens, picaretas, povo na rua diante do portal de Brandemburgo, Pedro Bial narrando ao vivo a queda da opressão e o erguer da liberdade. Como canta uma tia de minha mãe, "Quem sobe muito, cai depressa sem sentir". A Alemanha nunca mais teria dois times de futebol, dois presidentes, dois povos, restrições. Teria, agora sim, que lhe dar com os problemas da atrofia de seus membros pouco utilizados, da porção pobre anexada à rica numa manobra nada gradativa, num sopetão.
       Nestas épocas víamos na prima Valadares o florescer de uma planta generosa, que sobreviveu a invernos rigorosos e que soube esperar sua vez. Testemunhei do alto de minha bicicleta o asfaltamento de toda a extensão da Av. Minas Gerais, o surgimento de hotéis, supermercados, novos e revigorados loteamentos, muita gente mudando para esta nova e charmosa dimensão valadarense que se revelava a todos, resgatada agora do abandono e degredo. Vimos também com certa inquietação o armarinho de minha tia  conhecer a falência, pois a queda de nosso muro deu novos ares à região, descaracterizou seu tráfego, isolou o armarinho. Bem, ajustes, pois o passado já era uma roupa que não nos cabia mais há muito tempo.
       Chegando à extrema direita de uma régua do tempo, eis minha vez: Numa triste noite de torrentes e chuvas, entrei num ônibus, me mudei de lá, fui estudar na capital. Naquela época, ensopado de ingenuidades e planos de festim, deixei a prima de Berlin acometido de falsos alívios, sem me dar conta de que jamais a esqueceria. E sobrevieram as saudades para me afiar os brios e confirmar as convicções. Em esparsas oportunidades o destino me concede revisitá-la. Sou perfeitamente capaz de reconhecer um irmão Valadarense desde a plataforma de ônibus da rodoviária da capital mineira.
       Tendo dali partido certa feita, acomodei-me em meu assento para a viajem dos 324 quilômetros mais longos que Deus projetou sobre a superfície terrestre. Queria ver a Princesa que, tal qual uma criança  sempre surpreendendo os pais com manifestações de precocidades e crescimentos, me espanta amiúde com involuntárias atitudes de metrópole. Na ocasião, fazia um belo calor e, tentando abrir a janela, percebi que estava emperrada. Resignado, de legítimo sangue oriental, esperei por todo o trajeto de janelas fechadas, em enjôos de viajem. Passou-se por João Monlevade, Nova Era, O Vale do Aço, Naque, Periquito. E minutos depois, olhei à minha direita, e eis: O Pico do Ibituruna! Adentrávamos o Santa Rita, o peito enlargueceu, os olhos vidraram, a mente esqueceu e novas forças eclodiram em mim e destravaram aquela janela. E eu, filho distante, recebi a lufada do ar denso, quente, enérgico, de minha única terra, num repente, num golpe, de uma só vez. O hálito que me soprou a vida. O ar de casa, da inteira casa, o perfume nobre, a renovação da aleluia, a casa de fortes homens, Governador Valadares!
FIM

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